Meu pirão primeiro: grupos concorrentes já cortejam Flávio Bolsonaro por futuros ministérios — Folha de S.Paulo

Diante do resultado ainda favorável da maioria das pesquisas de 2º turno ao candidato do PL, eventuais cargos já são mirados por partidos do centrão, equipe de Paulo Guedes, aliados de Tarcísio e o próprio núcleo bolsonarista.

Antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro, pelo menos cinco grupos já disputam espaços no eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL), segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo na noite de sábado (10).

Os grupos interessados incluem nomes ligados a Paulo Guedes e ao mercado financeiro, integrantes do centrão e agronegócio, o núcleo familiar bolsonarista, aliados de Tarcísio de Freitas e nomes sem histórico público com Flávio.

Apesar das especulações, fontes da campanha de Flávio apontam que a definição de nomes ocorrerá somente após o segundo turno, antes concentrando esforços na vitória do pleito.

Entre Guedes e a Faria Lima

Roberto Campos Neto, vice-chairman do Nubank e ex-presidente do Banco Central (2019-2025) indicado durante a Presidência de Jair Bolsonaro, lidera as apostas para a pasta da Fazenda. 

Os nomes que seguiriam são os de Daniella Marques, Adolfo Sachsida e Alexandre Ywata, que assumiram cargos no Ministério da Economia de Bolsonaro; Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro Nacional, antes parte da equipe econômica do então ministro Henrique Meirelles, no governo Dilma; e Marcelo Kayath, músico violonista e ex-diretor do Credit Suisse, que se aproximou do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Kayath, que no passado já criticou a gestão de Paulo Guedes e em 2022 declarou voto em Lula, se disse contra o conceito de "Posto Ipiranga". O termo é uma referência à relação de "guru" que desfrutava Jair Bolsonaro com seu ministro da Economia, utilizada pelo ex-presidente para promover a credibilidade de Guedes ainda em campanha; indicando que Kayath sinaliza na direção oposta de uma gestão econômica concentrada em uma única pessoa.

Fator Tarcísio

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a quem foi atribuída a articulação de campanha de Flávio no estado, terá sua devida cota de indicados. Guilherme Derrite, policial militar e deputado federal reeleito (PP-SP) é cotado para Segurança Pública, pasta que também ocupou na gestão estadual de Tarcísio.

Similarmente, os secretários estaduais Renato Feder (Educação), Samuel Kinoshita (Fazenda) e Caio Paes de Andrade (Gestão) aparecem como outras eventuais indicações.

Kinoshita e Andrade têm uma ligação forte com a equipe econômica de Paulo Guedes; Kinoshita foi assessor especial do então ministro e Andrade exerceu o cargo de secretário de Desburocratização, Gestão e Governo Digital no seu Ministério, antes de ocupar a Presidência da Petrobras no último semestre do governo Bolsonaro.

A legenda de Tarcísio também está supostamente mobilizada em favor da indicação do deputado federal, ex-ministro da Indústria e Comércio de Temer e presidente do partido, Marcos Pereira (SP), ao Supremo Tribunal Federal.

O próximo Presidente da República terá a prerrogativa de nomear uma quantidade considerável de candidatos à Suprema Corte, considerando a cadeira vaga de Barroso, as iminentes aposentadorias compulsórias de Luiz Fux, Gilmar Mendes e Carmen Lúcia, e ainda uma prospectiva quinta indicação diante da crescente probablidade de um processo de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes.

Centrão toma lado

Para a Casa Civil, ministério de articulação poítica, é ventilado o nome de Tereza Cristina, senadora (PP-MS) e ex-ministra da Agricultura e Pecuária de Bolsonaro. O cargo, porém, também seria disputado por Rogério Marinho, também senador (PL-RN) e ex-ministro de Bolsonaro, na pasta de Desenvolvimento Regional.

O nome de Marinho seria igualmente cotado para a Presidência do Senado, câmara legislativa em que o PL terá a maior bancada no exercício de 2027.

Já para a Agricultura da então ministra, o ex-governador de Mato Grosso e senador eleito Mauro Mendes (União-MG) seria apontado por fontes à reportagem; outras, contudo, avaliam que o Ministério será do ex-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD-GO), que declarou apoio à eleição de Flávio no 2º turno.

Dentre o cortejo do Centrão, se destaca também o nome de Renata Abreu, presidente nacional do Podemos e deputada federal reeleita para sua terceira legislatura pelo estado de São Paulo. O Podemos ficou somente atrás do PL como legenda de maior crescimento absoluto nas eleições de 2026, com uma passagem de 18 a 27 cadeiras, cultivando a expectativa de um convite de Flávio a Renata, sem definição concreta do eventual Ministério ou cargo diverso.

Deixando entre família

No chamado campo de proximidade com o clã Bolsonaro, o deputado federal Mario Frias (PL-SP), quadro firme de aliança ao clã Bolsonaro e investigado por seu envolvimento no caso Dark Horse, é apontado para o Ministério da Cultura, cargo que ocupou sob a Presidência de Jair sob o formato de secretaria especial, dado que a pasta foi rebaixada em seu governo.

Marcos Degaut, ex-secretário de Produtos de Defesa no governo de Jair é avaliado desta vez para a chefia do Ministério, após cultivar uma relação com o ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que o aproximou dos Emirados Árabes Unidos até ser escolhido para chefiar o escritório regional do conglomerado estatal emiradense Edge Group.

No Brasil, a empresa adquiriu integralmente a companhia Akaer de engenharia aeroespacial em julho, 50% das ações da SIATT em setembro de 2023, conhecida pelo desenvolvimento de mísseis antinavio de longo alcance, e 51% da Condor em maio de 2024, líder no setor de armas não-letais utilizadas em defesa civil e maior do mundo na produção de gás lacrimogêneo.

Em relação ao próprio irmão do presidenciável, ainda que esteja foragido nos EUA, Eduardo poderia integrar o governo, segundo avaliação de aliados, possivelmente no Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty; a cúpula da campanha de Flávio, contudo, descarta essa possibilidade.

De seu irmão, a associação familiar vai ao outro extremo no nome de Aldo Rebelo, ex-ministro dos governos de Lula e Dilma Rousseff. Antigo integrante do PCdoB contra a ditadura militar que, mais recentemente, deixou os quadros do Democracia Cristã (DC) para integrar a campanha de Caiado no PSD, Rebelo tem amizade com o patriarca Bolsonaro da época em que ambos ocupavam a Câmara dos Deputados e jogavam futebol em partidas amistosas.

Rebelo chegou a participar do julgamento da trama golpista como testemunha de defesa do ex-comandante da Marinha Almir Garnier — que veio a ser condenado em 24 anos de prisão —, onde se desentendeu com o ministro relator Alexandre de Moraes e foi ameaçado de prisão por desacato. Sua postura crítica aos julgamentos da trama golpista o reaproximou tacitamente do bolsonarismo, garantindo o cargo na secretaria de Relações Internacionais da prefeitura de Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo. 

De sua experiência concreta nos ministérios da Ciência e Tecnologia, Esportes e Defesa dos governos do PT, a sugestão de seu nome pelas fontes da reportagem não acompanhou uma indicação particular de pasta.

Na tangente

Um nome para Ministério da Saúde já havia sido apontado por Flávio durante a campanha, quando levantou a indicação de Cláudio Lottenberg, médico e empresário, presidente da Confederação Israelita do Brasil (CONIB) e ex-presidente do Conselho Deliberativo do hospital Israelita Albert Einstein — do qual foi licenciado em 1º de setembro a fim de preservar a neutralidade política da instituição diante de sua indicação pelo candidato.

Considerando a atuação do CONIB em defesa do Estado de Israel no Brasil, a indicação atravessa o veio ideológico manifesto durante a campanha política de Flávio para a reorientação da política externa brasileira.

Também no retrovisor de Flávio está o legado do lavajatismo no impulsionamento do movimento político então capitaneado por seu pai. Enquanto Jair nomeou o então juiz federal Sérgio Moro, que determinou a prisão de Lula que o impediu de concorrer ao pleito de 2022, para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, agora é o nome de Deltan Dallagnol, procurador da Lava-Jato e senador eleito (NOVO-PR).

Dois movimentos orientam a especulação de seu nome: em primeiro lugar, a reaproximação de Moro — filiado ao PL em março e eleito governador do Paraná em 1º turno pela legenda — com o bolsonarismo do qual se afastou após seu rompimento com Jair Bolsonaro, motivado por conflitos sobre a troca de liderança da Polícia Federal (PF) que levou Alexandre Ramagem ao cargo, hoje foragido da Justiça nos EUA por seu envolvimento na Abin paralela.

Em segundo lugar, é a própria condição precária de Dallagnol à posse da vaga no Senado que conquistou nas últimas eleições.

Sua candidatura, similarmente à candidatura de Anthony Garotinho (Republicanos) ao governo do Rio de Janeiro, é considerada sub judice, observando que seu mandato como deputado federal na anterior legislatura foi cassado por uma fraude na Lei de Ficha Limpa. A acusação deriva do fato de que Dallagnol se exonerou do Ministério Público Federal (MPF) em meio a processos disciplinares, a fim de evitar um resultado que o tornaria inelegível.

Caso ocupasse uma cadeira ministerial em um Planalto de Flávio, o ex-deputado e ex-procurador federal poderia resguardar a influência de suas alianças e operacionalizar o capital político que o garantiu quase 3 milhões de votos no Paraná, a despeito de qualquer decisão do TSE.

Empresários de Minas Gerais ainda estariam promovendo para a campanha de Flávio Bolsonaro o nome de Flávio Roscoe, ex-candidato pelo PL ao governo de MG — terceiro lugar, vencido por Cleitinho (Republicanos) no 1º turno — e ex-presidente da Federação das Indústrias do estado (Fiemg), como nome para o Ministério do Desenvolvimento.

Durante a pré-campanha, Flávio indicou Roscoe como um "grande amigo" que o acompanha "desde lá de trás". Contudo, o empresário navegou publicamente na contracorrente da ambiguidade bolsonarista cambaleante entre o apoio ao tarifaço disciplinar de Donald Trump contra o Brasil e a responsabilização de Lula pela medida.

Roscoe declarou publicamente que as tarifas afetariam "em cheio a indústria mineira" e chegou a se reunir com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para discutir medidas de proteção industrial, o que desinfla o entusiasmo da ala mais ideológica do bolsonarismo em relação a seu nome.