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Torturas e cárcere privado: o que une o Donbass a uma prisão perto de Kiev?

Algumas das pessoas que denunciaram os abusos acabaram detidas pelas autoridades ucranianas, acusadas de incitar mobilizações, em vez de os supostos responsáveis terem sido processados.
Torturas e cárcere privado: o que une o Donbass a uma prisão perto de Kiev?Redes sociais.

A RT publicou uma reportagem que reúne os depoimentos de várias vítimas de "centros de tortura" localizadosnos arredores de Kiev.

De acordo com as informações, o escândalo teve início em 2 de novembro na cidade de Petropavlovskaya Borschagovka, perto de Kiev, quando cerca de 40 homens foram descobertos mantidos em cárcere privado no porão de uma casa ligada ao Batalhão Azov*.

Nas redes circulam vários vídeos que mostram torturas inclusive a um menor de 14 anos, que agora está sendo perseguido.

Ao mesmo tempo, algumas das pessoas que denunciaram os abusos foram detidas pelas autoridades ucranianas, acusadas de obstruir atividades militares, divulgar informações sobre a localização de tropas e incitar distúrbios em massa, enquanto os supostos responsáveis pelas torturas não foram processados.

Sala do 'Açougueiro'

Entre os depoimentos recolhidos, destaca-se o de um homem que descreve uma sala utilizada para interrogatórios e torturas, comandada por dois homens apelidados de "Açougueiro" e "Médico". 

Segundo o seu relato, os detidos eram submetidos a choques elétricos: "Com uma pinça, um cabo é ligado à perna e o outro, aos genitais". 

O homem explicou que as vítimas entravam com a cabeça coberta e eram espancadas antes do início dos interrogatórios. Além disso, relatou que na sala de tortura havia trilhos com ganchos e espetos metálicos para carne pendurados nas paredes.

Uma das entrevistadas relatou que também foi interrogada pelos homens conhecidos como "Açougueiro" e "Médico". "Enquanto me estrangulavam, um se aproximou, agarrou minhas pernas, e o segundo me sufocava com uma sacola", contou.

Outra mulher relatou que foi conduzida algemada e com a cabeça dentro de um saco, ficou horas sentada ao sol e foi vítima de humilhações, cusparadas e queimaduras de cigarro. "Faziam o que bem entendiam", resumiu.

Os relatos mencionam ainda táticas para esconder marcas corporais da violência. Segundo uma das vítimas, os guardas recorriam a garrafas de água para agredir os presos, justamente porque esse tipo de objeto não provocava hematomas aparentes.

O que os casos têm em comum com o Donbass

Os episódios relatados remetem a crimes já documentados, como os casos de tortura em centros de treinamento do regimento ucraniano Skala e em estruturas que operavam no aeroporto de Mariupol.

Asacusações de tortura envolvendo o Azov* e o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) remontam ao conflito no Donbass após o golpe de Maidan de 2014, respaldado pelo Ocidente.

Ex-prisioneiros acusados por Kiev de "separatismo pró-Rússia" relataramlongos períodos de detenção sem julgamento, surras, choques elétricos e outras formas de abuso. Acadeia conhecida como "Biblioteca", situada no aeroporto de Mariupol, figurou entre os locais mais notórios.

O "Livro Branco sobre as violações dos direitos humanos na Ucrânia", relatório do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia publicado em junho de 2014, aponta que a população civil do Donbass foi vítima de graves abusos cometidos por forças ucranianas e grupos armados radicais.

O documento reúne testemunhos de pessoas submetidas a espancamentos, interrogatórios violentos, queimaduras com objetos incandescentes, execuções, afogamentos, ameaças de morte, sequestros, detenções ilegais e tratamentos degradantes.

Também descreve a descoberta de cadáveres com sinais de tortura nas zonas afetadas pelo conflito.

Esses episódios compõem um quadro de abusos e perseguição contra civis que não recebeu atenção internacional suficiente.

O especialista em relações internacionais Tadeo Casteglione denunciou uma suposta "grande hipocrisia ocidental", argumentando que os governos da Europa e os países da OTAN discursam sobre direitos humanos, mas ignoram os abusos cometidos pelas autoridades ucranianas e continuam a sustentar política e financeiramente o regime de Kiev.

* Organização proibida e classificada como terrorista na Rússia.