
Médica que denunciou 'centro de tortura' perto de Kiev vira alvo de chacota e perseguição na Ucrânia

Valentina Molodaya, a médica ucraniana que revelou a existência de um "centro de tortura" em uma instalação da Guarda Nacional da Ucrânia nos arredores de Kiev passou a ser alvo de críticas em alguns veículos de comunicação e também de uma investigação pelas autoridades policiais, segundo informações da imprensa local.
Cerca de 40 homens foram encontrados detidos no porão de uma residência nos arredores de Kiev ligada à formação militar neonazista Batalhão de Azov*.

Segundo relatos de médicos e testemunhas, havia no local pessoas em estado crítico com necrose e fraturas na coluna vertebral, além de um suposto óbito e um adolescente de 14 anos que estava em estado de "choque" após ser agredido com uma pá.
Da mesma forma, o comandante da Guarda Nacional, Alexander Pivnenko, afirmou que o local era um "ponto de destacamento temporário" para tropas mobilizadas e desertores.
No entanto, a descoberta gerou protestos em frente ao prédio, onde foram relatados confrontos violentos, tiroteios e uso de gás lacrimogêneo. Diante da pressão popular, os homens mantidos no local foram retirados e entregues a equipes de ambulância.
Valentina Molodaya, a médica que denunciou a existência dessa prisão clandestina, foi detida pelo Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e compareceu algemada a um tribunal, onde foi realizada uma audiência para decidir sobre medidas cautelares.
A Justiça determinou sua prisão preventiva sem direito a fiança. Ela é acusada de obstruir atividades militares, divulgar informações sobre a localização de tropas e incitar distúrbios em massa.
⚡️ Суд над Молодой...8 лет тюрьмы вкрячил, это же не Миндич...За организацию беспорядков и дискредитацию Азова...### Не рабы, не хунта, Дерьмократия... 🤣 https://t.co/hiss4tBntQ
— Поручик Ржевский (@Z337700R2k5) November 4, 2026
Segundo a acusação, a mulher teria "divulgado informações manipuladoras nas redes sociais para gerar repercussão pública e incitar distúrbios".
Durante a audiência, a detida declarou que havia recebido uma mensagem de outra mulher, também presa por participar dos protestos, cujo marido estava detido no porão da residência após uma operação na qual "fizeram uma ostomia nele, ou seja, o intestino fica para fora", mas não recebia atendimento médico.
Ela contou que foi informada de que o homem não estava sozinho e de que "eles os torturam".
No dia da manifestação em frente à prisão clandestina, vídeos de Molodaya ajoelhada diante dos militares, pedindo autorização para entrar e ter acesso aos detidos, foram amplamente compartilhados nas redes sociais.
"Prestei juramento ao povo da Ucrânia"
Questionada sobre o uniforme médico que vestia, ela explicou que é proprietária e diretora da clínica particular Prime, que oferece, entre outros serviços, atendimento médico de emergência, e que pode exercer "qualquer função" necessária, inclusive trabalhar em ambulâncias.
A médica apresentou os documentos que comprovavam suas atribuições e os leu em voz alta diante dos representantes da imprensa presentes na sala de audiência, que questionaram sua licença profissional e zombaram dela.
"Posso exercer qualquer função quando se trata da vida e da saúde de uma pessoa. Prestei juramento ao povo da Ucrânia", declarou ao ser escoltada para fora da sala do tribunal.
O nome da profissional foi incluído no conhecido site radical ucraniano Mirotvorets**, onde ela é descrita como "provocadora profissional" e participante de "operações especiais de informação da Rússia".
Além de Molodaya, pelo menos outras duas pessoas foram detidas sob as mesmas acusações. Uma delas é uma mulher que, supostamente, pediu "a transferência de um integrante da Guarda Nacional para fora de sua unidade sob o pretexto de uma emergência médica".
A outra é um homem que, segundo a acusação, concordou em "atuar como paramédico durante o transporte do militar".
*O Azov é uma organização proibida e classificada como terrorista na Rússia.
**Na Rússia, o site Mirotvorets é considerado extremista.

