
O que alimenta a revolta nas ruas da Europa?

Nas últimas semanas, a insatisfação com o alto custo de vida e a pressão sobre os serviços públicos levaram centenas de milhares de pessoas às ruas em vários países europeus.
A França concentrou as maiores manifestações, marcadas por saques, tumultos e violência tanto por parte da polícia, quanto dos manifestantes.
Também foram registrados protestos na Itália, Bélgica, Espanha, Portugal e Albânia, em um contexto de forte alta dos preços dos combustíveis e da energia.
Não existe um "único fator desencadeante" para os distúrbios, afirmou Andrew Kenningham, economista-chefe para a Europa da Capital Economics, em entrevista à CNBC.

O aumento da conta de energia pode estar contribuindo para a situação, acrescentou, mas essa alta é menor do que a registrada em 2022, no início do conflito na Ucrânia, quando não houve protestos violentos comparáveis aos atuais.
"O problema de fundo é que os políticos não conseguem oferecer a esperança de uma vida melhor a muitos europeus, porque a economia cresce muito lentamente e os governos acumularam enormes dívidas, o que lhes deixa pouca margem para aumentar os gastos públicos ou reduzir os impostos", acrescentou o especialista.
"Uma tempestade que se transformou em furacão"
Por sua vez, Douglas Yates, professor da American Graduate School of Paris, afirma que a escalada da violência, particularmente na França, se deve a uma "combinação de diferentes fatores".
"Foi uma tempestade que se transformou em furacão", comenta Yates à emissora. "Houve essa inflação, que levou os manifestantes às ruas por causa do custo de vida. Eles já estariam insatisfeitos de qualquer maneira", acrescenta.
O professor argumenta que outro fator são as eleições presidenciais francesas de 2027, uma vez que os partidos de oposição buscam capitalizar o crescente descontentamento popular com o presidente Emmanuel Macron.
"Por fim, há os estudantes, os pobres estudantes que começaram tudo isso fazendo reivindicações razoáveis para que a infraestrutura deteriorada de suas instituições fosse reparada e talvez fossem instalados aparelhos de ar-condicionado nas salas de aula. Assim, essas três forças se uniram e criaram um furacão fora de controle", conclui Yates.
Enquanto isso, os rendimentos dos títulos da dívida pública francesa subiram e o euro se desvalorizou em 19 de outubro, à medida que os distúrbios aumentaram a preocupação dos investidores com a dívida e o déficit no orçamento da França.
Bancos e fundos de investimento defendem políticas neoliberais para combater o déficit
"Será difícil entender como o déficit orçamentário poderá diminuir sem medidas dolorosas", comentou Sharon Bell, estrategista sênior de ações europeias do Goldman Sachs.
Segundo Bell, os impostos podem perfeitamente subir para as empresas francesas.
"Acredito que os impostos, de modo geral, podem subir na França. O ajuste fiscal significa gastar menos ou arrecadar mais impostos. Essas medidas são muito difíceis de implementar", acrescentou.
Por sua vez, Mike Bell, chefe de estratégia de mercados da RBC BlueBay Asset Management, afirma que a França enfrenta um "risco muito real" de uma crise da dívida soberana.
"O que a França precisa fazer é colocar suas contas públicas em ordem; precisa elevar a idade de aposentadoria. Não é possível se aposentar aos 62 anos quando a pessoa média vive até os 84. Mas, se isso está acontecendo antes mesmo de começarem a discutir o assunto, imaginem o que aconteceria nas ruas da França se tentassem aumentar a idade de aposentadoria", acrescentou.


