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Entenda o que está por trás da onda de protestos incendiários de estudantes na França

O movimento que começou na semana passada denuncia, entre outras coisas, a falta de professores, a deterioração das instalações, salas de aula infestadas de ratos e a superlotação das turmas.
Entenda o que está por trás da onda de protestos incendiários de estudantes na FrançaAP / Aurelien Morissard

Protestos violentos protagonizados por estudantes do ensino médio se espalharam pela França nesta semana, resultando em bloqueios de escolas, atos de vandalismo, incêndios e confrontos com as forças de segurança, informou a emissora local BMF.

Os alunos denunciam problemas relacionados ao sistema educacional, enquanto as mobilizações coincidem com uma greve nacional do setor público contra a proposta orçamentária do governo Emmanuel Macron. O movimento, que começou na semana passada na região de Île-de-France, nos arredores de Paris, já se estendeu a centenas de escolas em todo o país, provocando o fechamento de mais de 160 instituições de ensino.

Mais de 5 mil pessoas foram detidas no país desde segunda-feira (28) em meio aos protestos, segundo o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez. Desse contingente, 85% são menores de idades e, em sua maioria, estudantes secundaristas.

França em chamas

Em alguns casos, estudantes fizeram bloqueios utilizando objetos como bicicletas elétricas. Em outros, a situação tornou-se violenta, com relatos de lançamento de projéteis e fogos de artifício, além de lixeiras incendiadas.

Entre as cidades mais afetadas estão Paris, Bordeaux, Lyon e Lille. Em locais como Marselha e no departamento do Baixo Reno, o transporte público foi suspenso devido a atos de violência contra os motoristas.

Desde o início dos distúrbios, na semana passada, 119 estudantes e membros da equipe educacional sofreram ferimentos, segundo o ministro da Educação, Édouard Geffray. Nesse mesmo dia, os protestos afetaram 356 escolas.

Também foram registrados incidentes contra as forças de segurança. Segundo os relatos citados, alguns estudantes lançaram fogos de artifício e atearam fogo contra policiais, que ficaram feridos — assim como vários gendarmes (militares que exercem função de polícia) — durante os confrontos. Além disso, em Marselha, funcionários da escola de ensino médio Victor-Hugo, incluindo o diretor e seu vice, teriam sido atingidos por gasolina.

Imagens de diversos episódios de violência circularam nas redes sociais, incluindo as de um bombeiro que ficou envolto em chamas por alguns segundos após a explosão de um aerossol à sua frente.

Por que os estudantes protestam?

Por trás dos distúrbios, há uma série de reivindicações relacionadas às condições educacionais. Segundo um sindicato de estudantes do ensino médio, os manifestantes denunciam a falta de professores e funcionários, bem como a precariedade das instalações, salas de aula infestadas de ratos, a superlotação das turmas e os horários.

Os alunos também questionam o funcionamento da plataforma estatal que devem utilizar para solicitar a admissão em programas de ensino superior — incluindo vagas universitárias —, a qual consideram opaca e impessoal.

O sindicato sustenta que os estudantes decidiram bloquear suas instituições de ensino depois que as autoridades não atenderam às suas reivindicações. Caroline Cheve, secretária-geral da Federação Sindical de Educação (FSU), afirmou que alunos e professores compartilham grande parte das mesmas preocupações. Segundo ela, ambos os grupos enfrentam salas de aula superlotadas e falta de docentes, uma situação que, em sua avaliação, alimenta o descontentamento.

Protestos simultâneos à greve nacional

Os protestos estudantis ocorrem, além disso, paralelamente a uma greve nacional do setor público contra o orçamento proposto pelo governo francês. O plano prevê cortes e medidas de economia no valor de 54 bilhões de euros (US$ 60,9 bilhões). Entre as propostas, consta também o congelamento dos salários-base dos servidores públicos durante o ano de 2027, com uma economia estimada em cerca de 2 bilhões de euros (US$ 2,27 bilhões).

Os sindicatos sustentam que a medida salarial representaria o quarto congelamento anual consecutivo. Nesse cenário, professores, bombeiros e outros servidores públicos aderiram às mobilizações estudantis na terça-feira (29).

O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, liderou uma reunião de emergência na quinta-feira (1º), na qual solicitou aos membros de seu gabinete que suspendessem quaisquer viagens programadas para os dias seguintes. A orientação, motivada devido aos protestos e bloqueios, tem como objetivo permitir que os prefeitos e as autoridades locais se concentrassem plenamente na gestão da situação.