Notícias

Fidel Castro em seu centenário: homem que enfrentou EUA e superou todas as adversidades

O líder histórico da Revolução Cubana deixou um legado marcante na luta de classes, na defesa da soberania latino-americana e caribenha, e na reivindicação da dignidade dos povos da região.
Fidel Castro em seu centenário: homem que enfrentou EUA e superou todas as adversidadesBettmann / Contributor / Gettyimages.ru

Uma das figuras mais marcantes da política internacional no século XX, Fidel Castro completaria 100 anos nesta quinta-feira (13). Nascido em 1926, em Birán, Cuba, o líder histórico da Revolução Cubana morreu em Havana, em 25 de novembro de 2016, aos 90 anos.

Fidel deixou um legado político fundamental para a luta de classes, para a defesa da soberania latino-americana e caribenha e para a dignidade de seus povos, aos quais sempre pediu para não temerem e mostrarem resistência à contínua e sistemática interferência dos diferentes governos dos Estados Unidos, um "império", como Castro sempre o chamava.

O líder apontava os EUA como eternos inimigos do povo latino-americano desde os tempos do libertador Simón Bolívar, na medida em que sempre almejaram controlar o que chamam de "seu quintal" para atender aos seus interesses. Ao longo de décadas, criticou duramente a política de Washington e defendeu a independência e a soberania de Cuba.

Mesmo após quase 10 anos da sua morte, sua trajetória, sua voz, sua postura anti-imperialista, sua doutrina revolucionária, suas lutas pela independência e soberania cubana, suas batalhas para manutenção do modelo político e social cubano, e inclusive para salvar sua própria vida de quase 700 planos de assassinato e conspirações da CIA, permanecem relevantes e atuais, fortalecidas pelo que parece ser uma nova era marcada pelo ressurgimento regional da extrema direita, do fascismo e de uma política de subserviência na qual Washington busca impor a lei do mais forte, o poder das armas e a ameaça de violência e morte em detrimento da diplomacia, da igualdade e da boa vizinhança.

Embora sua morte tenha sido comemorada por seus detratores, especialmente em Miami, a notícia de seu falecimento ressaltou a importância de sua luta política e o legado que ele deixou na América Latina, no Caribe e em outras regiões do mundo, onde Fidel e os cubanos demonstraram solidariedade, como nas brigadas médicas cubanas, na defesa de seus ideais revolucionários, humanitários e sociais, e em cada uma das conquistas dos atletas cubanos em competições internacionais de alto nível.

Naquela ocasião, o mundo se despediu de Fidel e celebrou seu legado como líder socialista e de esquerda. Numerosas figuras políticas, celebridades e outras personalidades públicas comentaram  a morte de um homem cuja influência política foi crucial para o curso da história, ao lado de outras figuras-chave da  Revolução Cubana, como seu irmão Raúl Castro, o revolucionário Ernesto "Che" Guevara e outros indivíduos de grande importância.

Fidel Castro, que, juntamente com seus compatriotas e companheiros guerrilheiros, derrotou a ditadura de Fulgencio Batista em 1º de janeiro de 1959 — na época, um importante aliado dos EUA — governou Cuba como primeiro-ministro e presidente de 1959 a 2008. Em 2006, anunciou sua aposentadoria do poder. Em 2008, a Assembleia Nacional do Poder Popular de Cuba elegeu seu irmão mais novo, Raúl, como presidente do país.

Quem era Fidel antes de se tornar o Comandante?

Seu pai,  Ángel Castro, originário da Galícia, emigrou da Espanha em busca de um futuro melhor, e sua mãe, Lina Ruz González, era uma camponesa nascida na província cubana de Pinar del Río. Eles o ajudaram a se formar em Direito pela Universidade de Havana, em 1950. A partir de então, ele se sentiu atraído por ideais de esquerda, igualdade e justiça social.

Fidel rompeu com as convenções desde jovem. De fato, ele tentou a carreira de ator antes mesmo de entrar na universidade. Após se formar, abriu um escritório de advocacia em Havana, onde se especializou em fornecer assistência jurídica gratuita aos pobres. A partir daí, começou a combater a corrupção governamental, seus primeiros passos antes de liderar a Revolução Cubana. Um momento crucial em sua trajetória foi sua participação em atividades revolucionárias, como a revolta contra a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo na República Dominicana em 1947.

Anos depois, em 1953, liderou seu primeiro levante armado (o ataque ao Quartel Moncada em Santiago de Cuba) contra a ditadura de Batista. Embora não tenham alcançado seus objetivos, o triunfo de Fidel veio na arena política durante seu julgamento, no qual Castro se defendeu e aproveitou a oportunidade para proferir sua frase histórica: "A história me absolverá ", que fazia parte de sua declaração de defesa. Condenado a 15 anos e anistiado em 1955 , emigrou para o México, onde organizou um destacamento revolucionário para continuar a luta contra a ditadura.

Percebendo que sua luta tinha poucas chances de sucesso em um ambiente urbano, ele optou por criar uma força guerrilheira rural  na região mais remota e montanhosa do país : a Sierra Maestra, no leste de Cuba. Desembarcou lá no final de 1956 com um contingente de apenas 80 homens a bordo do iate Granma. Entre eles estavam Camilo Cienfuegos, seu irmão Raúl  e o médico argentino Ernesto "Che" Guevara, que ele conhecera no México. O destacamento logo sofreu pesadas baixas e foi reduzido a 12 homens.

Doze homens contra um exército regular inteiro de 30.000 soldados. Assim começou uma guerra de guerrilha que gradualmente se transformou em uma luta popular contra a ditadura e terminou com a vitória da Revolução Cubana em 1959. Os cubanos estavam em festa. Na noite de 1º de janeiro, Batista fugiu para a República Dominicana, onde foi recebido pelo ditador Trujillo, que então tentou, de várias maneiras e com o apoio dos EUA, derrubar Fidel, tudo sem sucesso.

Fiel às suas promessas, Fidel começou a implementar seus planos para transformar o país. O mais importante deles foi a reforma agrária, que expropriou grandes propriedades rurais para garantir o sustento de pequenos agricultores (1959), seguida pela nacionalização dos ativos de empresas americanas na ilha (1960). Mas essas medidas logo encontraram represálias . Em 15 de abril de 1961, oito aviões da Força Aérea dos EUA bombardearam diversos locais em Cuba, incluindo Havana.

Um Líder influente

No dia seguinte, drante o funeral das vítimas do ataque americano, Castro proclamou o caráter marxista-leninista da Revolução Cubana. Na madrugada de 17 de abril, cerca de 1.500 exilados cubanos da chamada "Brigada 2506" (pagos, armados e treinados pela CIA) desembarcaram na Baía dos Porcos.

O exército revolucionário derrotou os "gusanos" [vermes, em espanhol], termo também usado por Cuba para se referir aos contrarrevolucionários baseados em Miami, que até hoje promovem e intensificam as medidas coercitivas contra a ilha caribenha, numa tentativa de derrubar a histórica Revolução Cubana, agora liderada pelo presidente Miguel Díaz-Canel, sob um cerco intensificado ordenado pelo governo de Donald Trump.

Washington nunca perdoou a ilha por permanecer independente e soberana. Os EUA implementaram uma estratégia de desgaste focada em seu bloqueio econômico e comercial para levar os cubanos à beira da miséria, uma política que Havana descreveu como "o genocídio mais longo da história", mas que, apesar da natureza radical, não conseguiu superar a vontade do povo de Cuba.

Essa postura de Fidel Castro, também abraçada pelos cubanos e referenciada em canções como "El Necio", do cantor e compositor Silvio Rodríguez, fez com que sua imagem se tornasse a de um herói e um exemplo de luta contra a interferência dos EUA.

O líder cubano deu uma contribuição significativa aos esforços de paz na Colômbia, foi também uma inspiração para o líder da Revolução Bolivariana, Hugo Chávez, na Venezuela, e um pioneiro na ascensão de forças de esquerda na América Latina e no Caribe, que levaram a região a se tornar um símbolo de autodeterminação e dignidade diante da retórica de dominação imperial que os EUA buscam impor.

"Fidel era uma personalidade muito singular, inegavelmente diferente das outras pessoas ", principalmente "por causa de seu desejo insaciável de saber", disse Ignacio Ramonet, jornalista e biógrafo de Fidel Castro, em entrevista à RT. "Ele era um homem de grande curiosidade" e estava "constantemente fazendo perguntas", afirmou.

Segundo Ramonet, o líder da revolução cubana também se destacava por "suas habilidades analíticas" e "sua capacidade de planejamento estratégico". "Ele era um estrategista brilhante  (...) era espetacular ver como ele tinha a capacidade de identificar diferentes problemas e como resolvê-los", mas, ao mesmo tempo, era "um homem com um grande senso de humor, sempre muito simples, nunca pretensioso".

Fidel também inspirou figuras como o jogador de futebol argentino Diego Armando Maradona , que o considerava até mesmo um segundo pai. Tamanha era a admiração do lendário atleta que ele conseguiu entrevistá-lo em 2005 para seu aclamado programa de televisão 'La noche del 10' (A Noite do 10).