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Retórica anti-Rússia do Ocidente pode enfraquecer o BRICS? Entenda cenário atual

Apesar da pressão ocidental contra Moscou, divergências históricas entre China e Índia e diferenças de orientação política entre os integrantes, o bloco mantém interesses econômicos e estratégicos comuns. No Brasil, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro também coloca em debate o futuro da participação do país no grupo.
Retórica anti-Rússia do Ocidente pode enfraquecer o BRICS? Entenda cenário atualImagem gerada por IA

A União Europeia anunciou em 12 de outubro de 2026 novas sanções contra quase 1.600 pessoas e empresas ligadas ao complexo industrial-militar russo.

O bloco europeu já havia prorrogado medidas contra indivíduos e entidades que acusa, sem provas, de participar de ações de desestabilização no exterior. 

As decisões fazem parte da política de pressão sobre Moscou adotada por países ocidentais desde o início do conflito armado na Ucrânia.

A aliança classifica a Rússia como a principal ameaça direta à segurança de seus integrantes e afirma que Moscou conduz ações híbridas contra países aliados, incluindo operações cibernéticas, sabotagem e campanhas de desinformação.

Essas medidas e declarações ajudam a dimensionar o isolamento que governos ocidentais procuram impor à Rússia.

Mas até que ponto essa pressão consegue limitar a atuação de Moscou em outros fóruns internacionais?

E, sobretudo, a estratégia ocidental pode enfraquecer o BRICS, grupo do qual a Rússia faz parte?

China e Índia: rivalidades não impediram a cooperação

A relação entre China e Índia ajuda a compreender por que divergências geopolíticas não levam automaticamente ao rompimento de uma organização multilateral.

Os dois países mantêm uma disputa fronteiriça histórica, enfrentam desconfiança estratégica e competem por influência na Ásia.

As tensões chegaram a um ponto crítico em 2020, quando confrontos na fronteira provocaram mortes de militares dos dois lados.

Ainda assim, Pequim e Nova Délhi mantiveram canais diplomáticos e mecanismos de negociação para administrar a disputa.

Em agosto de 2026, representantes dos dois governos realizaram uma nova rodada de conversas sobre a questão fronteiriça, com compromissos relacionados à manutenção da paz na região, à continuidade das negociações e à ampliação dos mecanismos de comunicação militar. 

A rivalidade não desapareceu, mas tampouco impediu a participação dos dois países no BRICS.

Na cúpula realizada em setembro, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, recebeu o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente russo, Vladimir Putin, em um encontro que reforçou a continuidade do diálogo entre potências com interesses distintos. 

O exemplo demonstra que a cooperação dentro do BRICS não depende da resolução de todos os conflitos bilaterais. 

Pressão contra Moscou pode aproximar os integrantes?

A pressão ocidental também pode reforçar o interesse de alguns integrantes do BRICS em ampliar alternativas de cooperação econômica e diplomática.

Na declaração de Nova Delhi, os países reafirmaram a defesa do multilateralismo, de uma ordem internacional mais representativa e da participação ampliada das economias emergentes nas decisões globais.

Isso não significa que todos os membros pretendam confrontar os Estados Unidos ou a União Europeia.

Os países do bloco mantêm relações comerciais e diplomáticas próprias com as potências ocidentais, e seus interesses nem sempre coincidem.

A pressão sobre a Rússia pode estimular iniciativas comuns em determinadas áreas, mas também pode gerar divergências sobre como cada governo deve se posicionar.

Por isso, é importante distinguir duas questões: as tentativas de isolamento internacional da Rússia e a capacidade de funcionamento do BRICS.

Mesmo que Moscou enfrente restrições adicionais, isso não implica necessariamente que os demais integrantes abandonarão a cooperação com o país ou deixarão de atuar em iniciativas comuns.

Eleição no Brasil pode influenciar o futuro do bloco?

No Brasil, a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) também coloca em debate os rumos da política externa brasileira e a relação do país com o BRICS.

Lula prioriza o multilateralismo e a aproximação com países do Sul Global, enquanto Flávio Bolsonaro mantém relações políticas mais próximas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

LEIA MAIS: Eleições no Brasil: o que está em jogo para a Rússia e o BRICS e o que pode mudar após o 2º turno

Segundo uma análise publicada pela Reuters em 9 de outubro, uma eventual vitória do senador poderia resultar em uma política externa mais alinhada a Washington. 

Uma mudança de governo poderia alterar a intensidade do envolvimento brasileiro em determinadas iniciativas do bloco e a maneira como o Brasil conduz suas relações com Rússia, China e Estados Unidos.

No entanto, uma eventual mudança de orientação diplomática brasileira não significaria, por si só, o fim do BRICS ou o afastamento automático dos demais integrantes.

O cenário brasileiro reforça um ponto central: o futuro do grupo depende também das decisões políticas de cada país, e não apenas da pressão exercida sobre Moscou. 

A continuidade da participação de seus integrantes, os interesses econômicos compartilhados e a disposição para negociar serão fatores importantes para determinar a capacidade de atuação do bloco.