
BRICS supera divergências e sai fortalecido de cúpula em Nova Delhi

Enquanto o mundo assiste à escalada de tensões entre EUA, Israel e o Irã, o BRICS mostra que consegue falar em uníssono. Na Cúpula de Nova Delhi, realizada nos dias 12 e 13 de setembro sob presidência indiana, o bloco superou rivalidades internas — como a distância entre Irã e Emirados Árabes Unidos — para aprovar uma declaração conjunta que condena as ações militares dos EUA e de Israel no Oriente Médio.
Mais do que isso: Xi Jinping e Narendra Modi sinalizaram o degelo entre dois gigantes que já trocaram tiros na fronteira, enquanto Rússia e Índia avançam num sistema de pagamentos capaz de driblar o dólar. O encontro contou com a participação de representantes de mais de 20 países-membros, além de Estados parceiros.
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Uma só voz

Um dos principais resultados da reunião foi a aprovação de uma declaração conjunta. O consenso teve importância especial devido às diferenças existentes entre os próprios membros do grupo. O Irã e os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, fazem parte do BRICS, mas mantêm posições muito distintas em relação ao conflito no Oriente Médio. Ainda assim, os participantes conseguiram chegar a um acordo sobre uma posição comum.
A declaração aborda a situação no Oriente Médio e condena a agressão militar perpetrada pelos Estados Unidos e por Israel. Embora esses países não sejam mencionados diretamente, o documento critica, na prática, as ações militares que colocaram em risco infraestruturas nucleares. O resultado demonstra que o BRICS pode manter um diálogo comum mesmo quando seus membros têm interesses políticos diferentes.
O degelo entre dois gigantes
Outro acontecimento importante foi a aproximação entre a China e a Índia. O presidente chinês, Xi Jinping, realizou sua primeira visita à Índia em sete anos e manteve conversas com o primeiro-ministro Narendra Modi. Ambos os líderes destacaram a necessidade de estabilizar e desenvolver as relações bilaterais.
O processo é especialmente significativo porque Pequim e Nova Delhi mantêm, há décadas, importantes disputas territoriais que chegaram a provocar confrontos armados. No entanto, ambas as partes parecem dispostas a deixar para trás os conflitos do passado e ampliar a cooperação.

Segundo os analistas, essa aproximação também fortalece o BRICS. "Essa orientação para a colaboração e a cooperação está se tornando a marca registrada do BRICS. Trata-se de uma espécie de protótipo do futuro, no qual não há superiores nem subordinados. Não é por acaso que esse agrupamento carece das estruturas de liderança habituais em outros fóruns internacionais, como, por exemplo, um 'presidium'. Estamos diante de uma estrutura horizontal, na qual a voz de cada um conta", concluiu o cientista político Vadim Kozyulin.
Do discurso a ferramentas próprias
A cúpula também permitiu avançar em projetos concretos. A Rússia e a Índia concordaram em impulsionar o desenvolvimento do BRICS Pay, uma infraestrutura de pagamentos transfronteiriços que permitirá realizar operações diretamente em moedas nacionais. O projeto visa conectar os sistemas de pagamento dos países-membros e reduzir a dependência de canais financeiros tradicionais. A criação de mecanismos financeiros alternativos pode se tornar um dos instrumentos mais importantes para aprofundar a cooperação econômica dentro do bloco.
A inteligência artificial (IA) tornou-se mais uma área estratégica. A China propôs impulsionar a colaboração nesse âmbito e facilitar o acesso a tecnologias e modelos de IA de código aberto. Dessa forma, os países do BRICS buscam não apenas ampliar a cooperação econômica, mas também desenvolver capacidades tecnológicas próprias e reduzir a dependência de plataformas externas.
Assim, a cúpula de Nova Delhi demonstrou que o BRICS está deixando de ser principalmente uma plataforma de diálogo político para se tornar um mecanismo de cooperação prática. A declaração conjunta, a aproximação entre China e Índia, o BRICS Pay e os projetos de inteligência artificial mostram que, apesar das diferenças internas, o grupo dispõe de instrumentos cada vez mais definidos para reforçar sua influência internacional.

