
Europa acerta novo tiro no próprio pé

A crise energética continua provocando impactos em todo o mundo e já afeta consumidores e a indústria. Enquanto a Rússia e os Estados Unidos chegam a um acordo sobre o fornecimento de combustível, a Europa volta a demonstrar desconexão com a realidade ao aprovar um novo e abrangente pacote de sanções contra a Rússia, que pode prejudicar seus próprios cidadãos.
Europa impõe sanções enquanto EUA negociam
Na segunda-feira (12), os ministros das Relações Exteriores da União Europeia aprovaram quase 1,6 mil novas inclusões nas listas de sanções contra o complexo militar-industrial russo, anunciou a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas. Ela classificou a medida como "a maior ampliação de nossas sanções".

Ao anunciar a decisão, Kallas também instou os Estados Unidos a adotarem medidas semelhantes. "Se os EUA aderissem às sanções da UE contra a Rússia, poderíamos realmente exercer pressão para que a Rússia encerrasse esta guerra", afirmou.
A medida ocorre justamente quando a administração americana tenta aliviar a pressão exercida pelos preços elevados dos combustíveis e pela escassez de oferta sobre os mercados globais.
Em 9 de outubro, Donald Trump anunciou ter mantido uma conversa "muito bem-sucedida" com Vladimir Putin, na qual concordaram, segundo Washington, que a Rússia forneceria centenas de milhares de toneladas de diesel aos mercados americano e mundial. A notícia deixou atônitos os aliados ocidentais dos Estados Unidos.
O Departamento do Tesouro dos EUA ainda anunciou a suspensão temporária das sanções sobre o fornecimento de diesel russo até 7 de abril de 2027. A suspensão autoriza todas as transações relacionadas à venda, entrega, descarga e importação de diesel de origem russa, incluindo sua entrada em território americano.

Por sua vez, o vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, anunciou que Moscou começará a suspender imediatamente a proibição de exportação de diesel. "A Rússia está disposta a fornecer volumes adicionais de diesel ao mercado americano, bem como a todos os nossos parceiros", afirmou. A previsão é exportar 300 mil toneladas em outubro, 500 mil toneladas em novembro e até um milhão de toneladas em dezembro. A longo prazo, os fornecimentos poderiam chegar a três milhões de toneladas mensais.
Ao abordar o mercado global de energia, o lado russo confirmou sua disposição em fornecer petróleo e derivados. "Estou convencido de que isso terá um impacto positivo em toda a economia mundial", assinalou Putin.
Em solidariedade a Kiev, a Europa respondeu ao acordo com novas sanções, apesar de ser uma das regiões mais afetadas pelo encarecimento dos combustíveis.
A conta da energia pesa sobre a Europa
As consequências do aumento dos preços dos combustíveis já são sentidas em todos os aspectos da vida europeia. No final de setembro, o preço médio do diesel na UE atingiu um recorde de 2,23 euros por litro, contra 2,16 euros na semana anterior. Dezenove países do bloco, incluindo Alemanha, França e Itália, registraram máximas históricas. Embora os preços tenham caído ligeiramente em outubro, para 2,10 euros por litro, continuam 40% acima dos níveis de um ano atrás.
Os estoques de gás da UE estão com apenas 67% da capacidade, ante 80% no ano passado. Analistas alertam para possíveis aumentos de preços durante o inverno, especialmente diante da proibição de todas as importações de gás natural liquefeito russo a partir de 1º de janeiro de 2027.
Apesar do seu compromisso com as metas ambientais, o transporte rodoviário de mercadorias na União Europeia depende amplamente do diesel, o que torna o encarecimento do combustível um custo significativo para o bloco.
A organização Transport & Environment estima que o encarecimento do combustível gera um custo adicional de 203 milhões de euros (cerca de US$ 226 milhões) por dia para a Europa. Desde o final de fevereiro, o gasto adicional acumulado apenas com diesel para o transporte rodoviário gira em torno de 40 bilhões de euros (cerca de US$ 45 bilhões).
O abandono do combustível russo e a crescente dependência do fornecimento dos EUA deixaram a Europa em uma posição ainda mais vulnerável. Em agosto, os EUA forneceram cerca de metade do diesel importado pela UE, enquanto a participação do combustível americano nas importações do Reino Unido e dos Países Baixos ficou entre 62% e 72%.
Nesse contexto, o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, alertou que a Europa poderia acabar sendo a grande prejudicada pelo novo acordo e por sua própria política de confronto.
"Alerto os políticos antiamericanos e russofóbicos de que, em breve, poderão estar abastecendo nos postos da União Europeia com diesel americano caro, mas de origem russa", declarou no último domingo.
Levar o confronto até o fim
Segundo declarou à RT Greg Simons, cientista político e professor da Universidade Internacional Daffodil, de Bangladesh, essa medida demonstra que os líderes europeus são "tão ignorantes quanto arrogantes".
"A guerra econômica não tem efeitos unilaterais apenas sobre o país a que se destina; ela também afeta quem a impõe: o efeito é bidirecional".
"Todas as vantagens competitivas de que a Europa desfrutava antes de 2022 desapareceram. A Rússia evoluiu e se adaptou às novas circunstâncias e ao novo cenário econômico, preparando-se com êxito para contrapor a inevitável guerra econômica da Europa após 2014", acrescentou o especialista.
Ao responder à pergunta sobre por que os líderes europeus mantêm esse rumo apesar de todos os custos, Simons afirmou que "a qualidade e o nível intelectual dos 'líderes' europeus encontram-se em um estado lamentável e em um nível extraordinariamente baixo".
"A elite política europeia gastou de forma imprudente um capital político considerável na guerra econômica para colocar a Rússia de joelhos, algo que não conseguiu alcançar".
"Mas o orgulho pessoal e a incapacidade de admitir que estão errados e que são absolutamente incompetentes os impedem de mudar de rumo", concluiu o especialista.


