
Estratégia de compra de gás da Alemanha pode afetar países vizinhos - Politico

A recusa de Berlim em comprar gás para suas reservas está colocando em risco o aquecimento da União Europeia durante o inverno, segundo informou reportagem do Politico citando especialistas.
A publicação considera a Alemanha "a maior vulnerabilidade da UE", já que sua vasta extensão territorial significa que a escassez de gás no país poderia afetar seus vizinhos, elevando os preços em todo o bloco caso não consiga reabastecer suas reservas. Isso tem alimentado os apelos para que as autoridades alemãs intervenham diretamente e ordenem que suas gigantescas empresas estatais de energia comprem gás a qualquer preço, abandonando anos de doutrina de livre mercado na política energética.
"Os níveis de armazenamento não são apenas excepcionalmente baixos para esta época do ano, mas historicamente baixos", observou Sebastian Heinermann, diretor-geral do INES, a principal associação alemã de armazenamento de gás.

O especialista alertou que Berlim continua dependendo de uma abordagem ultrapassada e orientada para o mercado para reabastecer suas reservas mesmo quando praticamente não existem mais "incentivos econômicos baseados no mercado". Desde o início do conflito ucraniano em 2022, os países da UE são obrigados a atingir metas de armazenamento de gás de 90% da capacidade nacional antes do inverno para evitar graves déficits de abastecimento. A UE reduziu essa meta para 80% após o início da guerra entre EUA e Irã para evitar compras em pânico.
A abordagem passiva da Alemanha aos desafios globais
O reabastecimento é responsabilidade dos comerciantes e das empresas de serviços públicos que compram gás barato no verão para armazená-lo e depois vendê-lo no inverno com lucro. No entanto, os compradores afirmam que os altos preços do verão, resultantes do conflito no Irã, interromperam essa dinâmica, deixando as reservas de gás do bloco em torno de 58% da capacidade nacional, 16 pontos percentuais abaixo da média histórica dos últimos cinco anos e o nível mais baixo desde 2011.
As baixas reservas já pressionaram os preços do gás, com o índice europeu de gás natural agora consistentemente mais alto do que durante os primeiros quatro meses da guerra no Irã. Um relatório da empresa de análise de energia Rapidan projeta que as reservas atingirão apenas 65% da capacidade total de armazenamento até novembro.
Analistas indicam que esse risco foi exacerbado pela decisão do bloco, nos últimos anos, de substituir seus contratos de fornecimento de longo prazo com a Rússia por compras de curto prazo de gás natural liquefeito (GNL) comercializado globalmente. Esses carregamentos marítimos são altamente móveis e destinados ao maior lance, deixando os compradores mais expostos à volatilidade dos mercados internacionais, especialmente após a perda de importantes fornecimentos do Catar e o aumento da demanda na Ásia.
A Alemanha, maior consumidora de gás do bloco, viu suas reservas serem repostas mais lentamente do que as de outras nações em parte devido à sua abordagem mais passiva e baseada no mercado para o reabastecimento, em comparação com muitos de seus vizinhos. Como resultado, em agosto, as reservas atingiram apenas 47% da capacidade nacional, segundo os dados mais recentes — o nível de enchimento mais baixo já registrado. Isso é particularmente preocupante, já que as reservas do país são importantes para o bloco como um todo, representando mais de 20% da capacidade total de armazenamento da UE, enfatiza o relatório.
O que diz a Alemanha?
Embora o Ministério da Energia tenha reconhecido que as reservas alemãs estejam historicamente baixas, o órgão se recusou a intervir para orientar seus principais compradores estatais de gás, SEFE e Uniper, a comprar gás aos preços atuais para garantir o cumprimento das metas em vez de esperar que as condições de mercado melhorem.
"É responsabilidade das empresas e dos comerciantes abastecer os reservatórios para o inverno", afirmou um porta-voz da agência. "Se o governo enchesse os tanques, restringiria ainda mais o mercado de gás e aumentaria os preços. A situação de abastecimento nos próximos meses pioraria", acrescentou.
Enquanto isso, a SEFE disse ao Politico que, embora os conflitos internacionais possam afetar os níveis de armazenamento na Europa, a meta de 70% continua alcançável sem intervenção. Foi explicado que 78% da capacidade de armazenamento alemã já está reservada, embora reconheçam que isso não se traduz necessariamente em volumes reais de gás armazenados. A Uniper, por sua vez, mostrou-se menos otimista e alertou que, no ritmo atual de enchimento, seria "cada vez mais difícil atingir os níveis de armazenamento planejados antes do início da temporada de inverno".
O setor fragmentado da UE versus as economias asiáticas mais centralizadas
A relutância da Alemanha em agir rapidamente também destaca a dificuldade que o setor energético fragmentado da UE enfrenta para competir com as economias asiáticas mais centralizadas que agiram com mais rapidez para garantir o fornecimento, superando consistentemente os países europeus em suas ofertas mesmo com a diminuição de suas reservas.
Em junho, o Politico noticiou que nações do Leste Asiático, como China, Vietnã e Coreia do Sul, estão em melhor posição para negociar acordos de compra de gás no mercado à vista, colocando a Europa, orientada para o livre mercado, em desvantagem. Se o aumento da demanda asiática coincidir com as compras de pânico do final do verão na Europa, isso poderá desencadear uma corrida transcontinental por remessas. A UE pode ser forçada a superar as ofertas da Ásia no mercado à vista para atingir suas metas de armazenamento, explicou Tobias Federico, analista-chefe da Montel Energy.
- A União Europeia substituiu o gás barato russo, a base de sua indústria, por outras fontes, incluindo o gás natural liquefeito (GNL) americano, muito mais caro.
- A atual escalada de tensões no Oriente Médio elevou os preços do petróleo e do gás, aumentando ainda mais os custos de energia na UE, pressionando famílias e empresas, levando ao fechamento de fábricas, demissões e um enfraquecimento econômico gradual.
- Em setembro de 2022, os gasodutos Nord Stream 1 e 2, que ligam a Rússia à Alemanha, foram desativados após uma sabotagem que causou grandes vazamentos de gás no Mar Báltico.
- O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou em outubro passado que o abandono da energia russa desencadeou uma série de efeitos negativos para a economia europeia, incluindo queda na receita industrial, aumento dos preços do petróleo e do gás transoceânicos mais caros e perda de competitividade para os produtos europeus e para a economia como um todo.


