Diante da queda nas exportações para a China, a UE está estudando a possibilidade de impor barreiras comerciais ao gigante asiático.
A China, que já superou a guerra comercial imposta por Trump, possui meios muito maiores para exercer pressão sobre a Europa, que parece alheia à sua vulnerabilidade diante de uma potência econômica muito maior.
A Europa está preocupada
Na quarta-feira (3), a Bloomberg noticiou que a União Europeia está se preparando para alertar seus cidadãos e empresas sobre uma possível guerra comercial com a China, à medida que o bloco começa a considerar novas medidas restritivas contra Pequim.
A Comissão Europeia realizou na semana passada uma reunião fechada com seus principais dirigentes para discutir os próximos passos em relação à China. Publicamente, a Comissão declarou que a relação do bloco com Pequim não é mais sustentável e prometeu uma "resposta mais firme e coerente".
Em conversas privadas, porém, autoridades reconheceram que a China provavelmente retaliaria qualquer medidas restritivas, segundo pessoas familiarizadas com as discussões.
Uma dependência crescente
Em 2025, o déficit comercial da União Europeia com a China em bens aumentou para 359 bilhões de euros (cerca de R$ 2,1 trilhões), um aumento de quase 15% em relação ao ano anterior e mais que o dobro do déficit registrado em 2019, o último ano antes da pandemia de COVID-19.
Em 2025, a China vendeu quase 560 bilhões de euros (cerca de R$ 3,3 trilhões) em mercadorias para o bloco, dando continuidade a uma tendência de aumento expressivo de suas exportações para a Europa após a pandemia.
A empresa também está realizando investimentos de nearshoring em países próximos à UE, como Marrocos, que possuem acordos de livre comércio com a UE e podem oferecer uma maneira de contornar futuras tarifas do bloco.
Entretanto, as exportações europeias para a China têm diminuído. Em 2025, as exportações caíram para pouco menos de 200 bilhões de euros (cerca de R$ 1,2 trilhões).
Sobre culpas e custos
Um dos principais pontos de atrito é o modelo de subsídios chinês. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o sucesso comercial da China se deve em grande medida aos subsídios governamentais.
A OCDE estima que empresas chinesas receberam entre três e oito vezes mais apoio estatal em 2024 do que companhias dos 38 países-membros da organização.
Esse apoio governamental impulsionou o aumento da participação de mercado chinesa em setores estratégicos como energia solar, construção naval, metalurgia, alumínio, equipamentos de telecomunicações, turbinas eólicas, indústria aeroespacial e de defesa, e principalmente na indústria automotiva. Quase 60% dos ganhos de participação de mercado global das empresas chinesas são atribuídos a subsídios, segundo relatório recente da OCDE.
"Assim como o doping no esporte, existe o risco de que os subsídios permitam que os atores menos produtivos lucrem injustamente às custas dos mais inovadores e eficientes", declarou a organização.
China alerta a Europa
Em Pequim, essas declarações são vistas como nada mais do que uma tentativa de justificar seu próprio protecionismo.
"Quaisquer que sejam os termos usados — 'redução de risco', 'redução da dependência' ou 'desequilíbrio comercial' — são simplesmente nomes diferentes para protecionismo", disse Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China na semana passada.
Ela acrescenta que os consumidores na Europa seriam afetados e que as empresas europeias enfrentariam custos mais altos e menor competitividade a longo prazo.
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Em uma análise publicada pela agência de notícias chinesa Xinhua, um grupo de pesquisadores chineses avaliou que o verdadeiro problema da Europa não se origina no país.
"A verdadeira ameaça à UE não é o 'excesso de capacidade' da China, mas sim a própria falta de inovação e os mercados fechados da Europa", afirma o relatório.
Os autores também observam que a própria ideia de distanciamento econômico da China surgiu nos Estados Unidos e na Europa após a pandemia de COVID-19, quando as elites ocidentais perceberam repentinamente a extensão de sua dependência do fornecimento chinês.
Um bloco dividido e vulnerável
As lideranças de Bruxelas, contudo, estão divididas sobre como lidar com a questão da China. Países como a França pressionam por medidas mais duras contra Pequim, enquanto nações dependentes de exportações, como a Alemanha, relutam em antagonizar Pequim.
A ministra da Economia alemã, Katherina Reiche, que viajou à China no mês passado, descreveu a dificuldade em formular uma resposta forte. "A Alemanha continua sendo, e deve continuar sendo, uma nação voltada para a exportação. E aqui precisamos de uma posição equilibrada", afirmou, reconhecendo um interesse geral no bloco em relação à proteção da indústria europeia.
Segundo estimativas da Bloomberg Economics, um corte de um ano no acesso a terras raras e ímãs permanentes da China poderia colocar em risco cerca de US$ 4,4 trilhões (cerca de R$ 22,7 trilhões) do PIB global. Na UE, a Alemanha é uma das mais expostas, com linhas de produção em muitos setores que parariam caso o fornecimento fosse interrompido.
Os pesquisadores chineses alertaram que apostar no protecionismo só pode acelerar a desindustrialização da Europa, enquanto a China continuará a consolidar sua posição em novos setores de alta tecnologia, desde veículos elétricos até inteligência artificial.
"O que a Europa precisa reconhecer é que a fragilidade econômica da China é um desafio de transição, não um colapso sistêmico", afirmam os autores, argumentando que os fundamentos da economia chinesa são muito mais sólidos do que se acredita em Bruxelas.