A indústria automotiva europeia — e a alemã em particular — continua sendo uma das principais afetadas pelas crescentes tensões econômicas e políticas entre os Estados Unidos e a União Europeia.
Em meio a uma nova rodada de disputas públicas com o chanceler alemão, Donald Trump anunciou planos para aumentar as tarifas sobre carros e caminhões provenientes da União Europeia em até 25%. Para um setor que já atravessa um período difícil, isso poderia representar mais um duro golpe, especialmente diante da crescente concorrência dos fabricantes chineses.
Nova ofensiva
Especialistas apontam que o principal alvo dessas medidas será, na verdade, a Alemanha, embora o próprio Merz afirme que se trata de exercer pressão sobre toda a Europa.
Segundo estimativas, as novas tarifas poderiam custar à economia alemã entre 0,3% e 0,4% do PIB, ou aproximadamente entre 15 e 20 bilhões de euros, disse à RT Alexander Kotov, pesquisador-chefe do Centro de Estudos Alemães do Instituto da Europa da Academia Russa de Ciências.
"Para a indústria automotiva alemã, essa decisão gera uma nova incerteza, já que as empresas ainda estão se adaptando à dura política comercial do presidente dos Estados Unidos, que aumentou consideravelmente os custos e reduziu os lucros", afirmou o especialista.
Nesse contexto, os representantes do setor reclamam cada vez com mais insistência a assinatura de um acordo comercial com Washington que preveja tarifas mais baixas, de 15%. No entanto, Trump, ao contrário, pressiona os fabricantes europeus a transferirem sua produção para os EUA, ressaltando que os automóveis montados localmente não estarão sujeitos às novas tarifas.
"A situação atual demonstra que a maior economia da UE continua dependendo em grande medida das tarifas de importação de Washington, que já custaram bilhões de euros à indústria automotiva alemã", acrescentou Kotov.
Perder terreno
No entanto, os problemas do setor automotivo europeu começaram muito antes da imposição das novas tarifas. O principal desafio dos últimos tempos é o rápido avanço dos veículos elétricos chineses.
Em meio à crise energética provocada pela guerra no Oriente Médio, a demanda por carros elétricos aumentou drasticamente. Os fabricantes chineses aproveitaram essa tendência: as exportações de veículos elétricos da China aumentaram 140% em março e atingiram 349.000 unidades, segundo dados da Bloomberg.
Os consumidores veem cada vez mais os veículos elétricos como uma forma de se protegerem dos aumentos nos preços dos combustíveis. Como resultado, a Europa, que está entre as regiões mais afetadas, enfrenta uma pressão cada vez maior sobre sua indústria.
As importações de automóveis fabricados na China para a União Europeia em 2025 aumentaram 30,7% em relação ao ano anterior, atingindo 1,006 milhão de veículos, de acordo com um relatório publicado em abril pela Associação dos Fabricantes de Automóveis da Europa. Embora ainda não se conheçam os números do impacto da crise no Golfo Pérsico sobre esses indicadores, a tendência aponta para um aumento da participação de mercado dos veículos chineses.
Trump comemora os reveses, mas é prematuro
Donald Trump tem apontado repetidamente a vulnerabilidade da indústria automotiva europeia, afirmando que os fabricantes chineses, de fato, "estão arruinando a Europa".
No entanto, Washington também não está a salvo de riscos semelhantes. No âmbito do novo acordo comercial com Pequim, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, concordou em reduzir de 100% para 6,1%, durante o primeiro ano de vigência, as tarifas aplicadas a 49.000 veículos elétricos provenientes da China. Essa cota aumentaria até atingir 70.000 unidades anuais até 2030. Além disso, o governo de Carney manifestou sua intenção de estabelecer joint ventures com fabricantes chineses.
Devido ao tamanho relativamente limitado do mercado canadense, parece que as aspirações do primeiro-ministro estão voltadas principalmente para a exportação desses automóveis.
"Os canadenses são bem-vindos a visitar os Estados Unidos em seus novos [veículos elétricos] chineses, mas se acham que vão vendê-los aqui, isso não vai acontecer", declarou ao The Hill o embaixador dos Estados Unidos em Ottawa, Pete Hoekstra.
Considerando que as tarifas europeias não conseguiram impedir a entrada de carros chineses, os EUA optaram por agir antecipadamente. A regulamentação aprovada em janeiro de 2025 por Joe Biden proíbe o uso de componentes e software de origem chinesa e russa nos veículos.
No entanto, os automóveis chineses ainda podem acessar o mercado americano, algo que o próprio Donald Trump reconheceu. Em janeiro, o presidente sinalizou perante o Clube Econômico de Detroit que estaria disposto a permitir que essas empresas estabelecessem fábricas em território americano. Por sua vez, a Ford deu a entender que consideraria formar uma joint venture (empreendimento conjunto) com um fabricante chinês.
"O preço [dos carros chineses] e a qualidade de seus veículos são muito superiores ao que vejo no Ocidente. Estamos em uma competição global com a China, e não se trata apenas de veículos elétricos. E se perdermos isso, não temos futuro na Ford", declarou no ano passado Jim Farley, diretor-executivo da Ford.
Embora os fabricantes americanos tenham conseguido superar em diversas ocasiões os rivais japoneses e de outros países, a indústria automotiva chinesa pode se tornar um desafio difícil de superar.