Protestos violentos sacudiram a Albânia pelo sexto dia consecutivo no domingo (18), mobilizado por estudantes que exigem a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama após 13 anos no poder.
Os confrontos começaram na quinta-feira (15) em Tirana, capital do país, e se espalharam por outras cidades, marcados por incêndios a prédios governamentais, ataques com coquetéis molotov e confrontos com a polícia, que respondeu com blindados e dispersão por canhões de água, balas de borracha e gás lacrimogêneo.
As sedes dos ministérios do Interior e da Infraestrutura foram alvejadas e a Suprema Corte foi incendiada. Milhares se reuniram diante do Ministério da Educação atirando pedras contra a polícia de choque.
Descontentamento
O movimento começou pacificamente em maio, liderado por ambientalistas do chamado "protesto dos flamingos" contra um empreendimento de luxo ligado a Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump.
O projeto, situado na ilha desabitada de Sazan e nas zonas úmidas de Zvërnec-Narta, está localizado em área ambientalmente protegida com espécies como os flamingos que se tornaram o símbolo do movimento. A região recebeu isenções especiais através de mudanças legislativas que favorecem investimentos estrangeiros em turismo de luxo.
"A Albânia não está à venda" se tornou o lema central dos manifestantes, que questionam quem realmente se beneficia do boom turístico do país.
Mais recentemente, a mobilização rapidamente evoluiu para uma revolta mais ampla contra corrupção, custo de vida e o longo mandato de Rama. Na semana passada, estudantes insatisfeitos com os altos custos educacionais e o aumento do custo de vida se juntaram ao movimento, revitalizando os protestos.
A escalada posiciona o país como parte de uma onda maior de manifestações lideradas por jovens em toda a Europa contra o custo de vida, incluindo França, Bélgica, Itália e Portugal. Inspirados pelos eventos franceses, manifestantes albaneses agora falam em "fazer uma revolução", frustratos pela incapacidade de derrubar o primeiro-ministro através de protestos pacíficos.
Ameaça à adesão?
Rama, eleito para um quarto mandato em 2025, recusa a possibilidade de renúncia. Em pronunciamento nas redes sociais, afirmou que não é seu governo que está sendo desafiado, mas sim "um caminho, uma missão", em referência à candidatura albanesa à União Europeia, prevista para 2030.
"Os albaneses precisam pensar com clareza: eles querem isso, aquilo, ou querem a UE?", questionou o premiê.
O líder albanês atribuiu a escalada das manifestações a "forças externas" e alegou ter neutralizado um drone carregado com explosivos que pretendia atingir seu gabinete.
Sem apresentar qualquer prova, Rama responsabilizou o Irã e a Rússia pelos protestos e bradou contra movimentos "antifa" e "neocomunistas" por supostamente instrumentalizarem os jovens como "escudos humanos".
Enquanto negava a possibilidade que os jovens tenham se articulado organicamente de tal maneira e convidava estudantes para conversas diretas, escavadeiras removiam pedras das calçadas do centro de Tirana e retiravam o pavimento da via pública ao redor de seu gabinete.
Dentro do próprio Partido Socialista, a deputada Elisa Spiropali enviou carta crítica a Rama, escrevendo que "a crise não se resolve com declarações feitas a partir de gabinetes".
"Quando o governo vê toda crítica como uma conspiração, todo protesto como uma ameaça, todo oponente como um inimigo, então a sociedade começa a falar a linguagem da violência", afirma Spiropali.
A Comissão Europeia condenou a violência em comunicado domingo, enfatizando que países candidatos à UE devem resolver queixas "de maneira pacífica".
- A Albânia, já membro da OTAN, busca a adesão europeia desde 2009, mas escândalos de corrupção mancham sua reputação.