Um relatório publicado pelo Clube de Discussão Internacional Valdai na quinta-feira (17) aponta a cobertura jornalística unilateral, que segue a linha editorial de Washington e Bruxelas, e um "filtro histórico" cultural, alimentado por décadas de influência de Hollywood e do streaming, como principais fatores que explicam o declínio da popularidade da Rússia no Brasil desde 2022.
Os autores, os brasileiros Ana Livia Esteves, professora da Faculdade de Política Mundial e Economia Mundial da Universidade Nacional de Pesquisa Escola Superior de Economia da Rússia, e Marco Fernandes, representante do Brasil no Conselho da Sociedade Civil do BRICS, citam um estudo de Teles Gomes (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) que analisou 26 edições do Jornal Nacional durante o primeiro mês do conflito ucraniano.
"Dos 314 episódios, 191 (60,8%) foram dedicados diretamente à operação militar especial da Rússia. Desde o início, o apresentador associou o conflito à Guerra Fria e empregou uma linguagem que personalizava o conflito, reduzindo-a à figura do presidente Vladimir Putin", diz o texto.
A cobertura contou com relatos de correspondentes em cidades como Londres, Paris e Nova York, mas omitiu fontes localizadas na Rússia.
Além disso, as menções ao posicionamento de Moscou foram apresentadas sob uma ótica predominantemente crítica.
Como a televisão e as redes sociais foram as principais fontes de informação dos brasileiros durante o conflito, o domínio de audiência garantiu que a versão dos fatos fosse majoritariamente ocidental.
Na prática, essa cobertura limitou o acesso do público à perspectiva ocidental e suprimiu a russa no fluxo informativo.
Hollywood em ação
Entretanto, os especialistas argumentam que esse cenário é apenas a camada superficial de um problema mais profundo: o "filtro histórico".
Por décadas, a indústria cultural de Hollywood e, mais recentemente, as plataformas de streaming, consolidaram um arquétipo do russo como o vilão.
Como exemplos, os autores citam os filmes clássicos da década de 1980 — como Rocky IV (1985), Top Gun (1986) e Rambo III (1988) —, que fizeram enorme sucesso no Brasil, tanto nos cinemas quanto na televisão.
"No primeiro filme, o boxeador soviético Ivan Drago é retratado como um atleta frio e inescrupuloso (e usa dopping para melhorar o desempenho); ele desafia um amigo de Rocky para uma luta no ringue, acabando por ser derrotado pelo herói americano ao final. No segundo filme — no qual a militarização imperialista americana é apresentada como algo 'legal' —, os caças soviéticos MiG servem apenas como ferramentas dos vilões no início e no final da obra, sendo abatidos por aeronaves americanas. No terceiro filme, também estrelado por Sylvester Stallone, um super-soldado americano ajuda os afegãos a derrotar os 'invasores bandidos' soviéticos", apontam.
Contramedida
Ana Livia Esteves e Marco Fernandes acreditam que o governo Trump dará continuidade ao curso atual da chamada "Doutrina Monroe", que implica intervenção ativa nos assuntos dos países latino-americanos para promover seus próprios interesses em detrimento dos interesses dos Estados da região, bem como para contrariar os interesses da China e da Rússia.
Como contramedida, os autores sugerem o uso do "soft power" cultural para mitigar a influência ocidental. As propostas incluem: ampliar a presença de produções russas em plataformas de streaming no Brasil; criar co-produções cinematográficas entre Rússia e Brasil para gerar maior afinidade cultural; e adotar a estratégia de distribuir conteúdo através de veículos de mídia brasileiros.