Fake news de novo, BBC? Como a rede britânica transformou um comentarista em 'conselheiro de Putin'

A rede estatal britânica BBC veiculou na terça-feira (25) uma reportagem sobre a suposta "ameaça russa" e os iminentes ataques retaliatórios contra fábricas de drones do Reino Unido que fornecem armamentos à Ucrânia.
O alerta teria vindo de um "alto funcionário russo" – com a ressalva de que a pessoa em questão não ocupa tal cargo há mais de três décadas.
À primeira vista, a matéria intitulada "Fábricas de drones do Reino Unido podem sofrer ataques de 'fontes desconhecidas', diz assessor do Kremlin" parecia legítima, com base nos comentários feitos por Andrey Fedorov no programa Newsnight da BBC.
A emissora apresentou o entrevistado como um "influente funcionário russo", o descrevendo como um "assessor do Kremlin" e "ex-vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia".

A última afirmação é parcialmente verdadeira: Fedorov foi vice-ministro da RSFSR, a república russa da URSS, entre outubro de 1990 e outubro de 1991, antes da dissolução formal da União Soviética.
A outra afirmação, no entanto, é completamente falsa. Fedorov foi assessor do vice-presidente da Rússia até o final de 1993, mesmo ano em que o cargo de vice-presidente foi abolido, e não ocupou nenhum cargo público desde então.
Na última década, ele ficou mais conhecido como comentarista político e personalidade da mídia, participando frequentemente de diversos programas de entrevistas políticas russos.
A BBC tenta esconder a fake news
O artigo permaneceu no ar por cerca de cinco horas no site da BBC antes de ser discretamente corrigido.
Fedorov foi "rebaixado" a "comentarista pró-Kremlin que aparece frequentemente na televisão russa", mas nenhuma retratação oficial da afirmação inicial foi feita.

A BBC também não fez um trabalho particularmente bom para apagar a fake news, que sobreviveu em várias de suas plataformas.
Uma publicação do programa Newsnight da BBC no Facebook* sobre o assunto ainda descreve Fedorov de forma enigmática como um "aliado do presidente Putin" no momento da publicação, enquanto sua postagem no X afirma que o comentarista "aconselha o presidente Putin".

A fake news se espalhou por toda a mídia britânica e além
A entrevista da BBC com Fedorov foi amplamente divulgada na mídia britânica juntamente com sua falsa descrição como um "conselheiro de Putin".
Ao contrário da fonte, os veículos que republicaram fake news nunca se deram ao trabalho de corrigi-la.
"British factories, in Britain, could be attacked militarily by Russia?"
— BBC Newsnight (@BBCNewsnight) August 24, 2026
"They could be attacked, not by Russia, but by unknown sources..."
Andrei Fedorov, who advises President Putin and is a former Russian Deputy Foreign Minister, on what a "semi-military" Russian response… pic.twitter.com/87paQ1M9a9
Alguns veículos conseguiram até mesmo superar a versão original. O Express, por exemplo, descreveu Fedorov simultaneamente como um "alto funcionário do Kremlin" e um "informante de alto escalão do Kremlin".

O HuffPost UK também descreveu o comentarista político como um "conselheiro presidencial" e até o "promoveu" a um "aliado fundamental de Vladimir Putin".

A notícia falsa também se espalhou para além da mídia britânica, chegando à Al Jazeera com alterações mínimas. Seguindo a BBC, a Al Jazeera descreveu falsamente Fedorov como "conselheiro do Kremlin e ex-vice-ministro das Relações Exteriores".

A notícia também chegou à mídia ucraniana, que geralmente aceita seus colegas britânicos como verdade absoluta e não tenta verificar os fatos de forma independente.
Será que as fake news vão continuar?
Esta não foi a primeira vez que a BBC apresentou falsamente o comentarista político russo. Em janeiro deste ano, Fedorov fez declarações à BBC Radio 4 sobre a caçada militar americana ao petroleiro Marinera e foi apresentado como um "conselheiro do Kremlin e ex-vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia".

Os comentários se espalharam amplamente pela mídia britânica na época, aparentemente sem qualquer verificação de fatos, e permanecem facilmente acessíveis em artigos de notícias de grandes veículos como The Times e The Independent.
Escândalo envolvendo Trump
Em novembro de 2025, a Casa Branca acusou a emissora britânica BBC de agir com "desonestidade deliberada" e de divulgar "notícias falsas", após vir à tona um suposto vídeo manipulado do presidente Donald Trump exibido pela rede.
Segundo a reportagem do jornal britânico The Telegraph, o programa Panorama, da BBC, teria editado trechos de um discurso de Trump, pronunciado pouco antes do ataque ao Capitólio dos Estados Unidos, em janeiro de 2021.
O material foi alterado de forma a apresentar o presidente como um líder exaltado que incitava à violência.
No vídeo transmitido pela emissora, Trump aparece dizendo: "Vamos ao Capitólio e lutaremos como demônios. Se não lutarem com todas as forças, não terão mais um país".
Entretanto, o The Telegraph apontou que, na gravação original, o republicano havia pedido aos seus apoiadores que agissem "pacificamente e com patriotismo".
Após o escândalo, o diretor-geral da BBC, Tim Davie, e sua diretora de notícias, Deborah Turness, renunciaram ao reconhecer o erro.
Em meados de novembro de 2026, a BBC apresentou um pedido formal de desculpas ao presidente americano, reconhecendo um "erro de julgamento".
A rede rejeitou o pedido de indenização após declarar que não voltará a transmitir o controverso episódio.
* Pertence à Meta, classificada na Rússia como uma organização extremista, cujas redes sociais são proibidas em seu território.
