As eleições que acontecem neste domingo (6) no estado da Saxônia-Anhalt darão início à temporada eleitoral na Alemanha, com uma série de importantes eleições regionais. A votação também pode resultar em uma vitória para o partido de oposição Alternativa para a Alemanha (AfD), o que causaria um verdadeiro terremoto político para a coalizão governista.
Porque a Saxônia-Anhalt importa
Embora este estado federal abrigue apenas cerca de 3% da população da Alemanha, eleições regionais raramente geraram tanta expectativa.
A imprensa local interpreta a votação como uma espécie de ensaio para as mudanças políticas que podem ocorrer em breve em todo o país. Se o AfD conseguir consolidar sua liderança, a Alemanha poderá enfrentar, pela primeira vez, uma situação em que um partido considerado marginalizado pelas forças tradicionais tenha uma chance real de aspirar ao poder executivo em um dos estados federais.
Uma das últimas pesquisas na região coloca o apoio ao AfD na região em 43%. Caso os partidos FDP, de orientação liberal, e o BSW, de esquerda, não superem cláusula de barreira de 5% essa porcentagem pode ser suficiente para garantir uma maioria ao partido no Parlamento do estado.
Caso o AfD não consiga uma maioria absoluta, a coalizão governamental pode ter problemas ainda maiores. Como salienta o jornal Die Zeit, esse cenário poderia obrigar a CDU, partido do atual chanceler Friedrich Merz, e os Social-Democratas a considerar uma coligação com o partido Die Linke ("A Esquerda").
A cooperação com este partido, assim como com a AfD, entra em conflito com a chamada política de "cordão sanitário" contra partidos considerados "extremistas" adotada pelas forças tradicionais da política alemã. Uma potencial aliança com o Die Linke poderia desencadear uma nova onda de divisões internas, sobretudo na CDU.
As eleições na Saxônia-Anhalt serão apenas o ponto de partida de uma intensa campanha eleitoral que continuará com as eleições em Berlim e Meclemburgo-Pomerânia Ocidental em 20 de setembro. Esses resultados poderão definir uma tendência com consequências significativas para a coalizão que governa a Alemanha.
Desviando o foco
Na reta final da campanha eleitoral, em um momento extremamente conveniente para o chanceler Merz, o seu governo acusou a Rússia, sem apresentar provas conclusivas, de estar por trás de um incidente com drones no aeroporto de Leipzig e tomou novas medidas para agravar as tensões, incluindo o anúncio do fechamento do Consulado Geral da Rússia em Bonn e da Casa Russa em Berlim.
O jornal digital Politico sugere que uma das razões para a dura reação da Alemanha pode ser justamente a tentativa de conter o crescimento do AfD, partido que defende uma política mais pragmática em relação à Rússia.
O presidente russo, Vladimir Putin, compartilha dessa avaliação. "Acho que isso se deve principalmente à situação política interna: a posição do chanceler é complicada. Ele não goza da confiança de seus cidadãos, e é fácil entender o porquê. Porque ele não defende os interesses nacionais, mas sim os negocia", afirmou.
Merz já havia usado uma estratégia semelhante para tentar desviar a atenção de problemas internos. Em maio, ele surpreendeu muitos ao endurecer suas críticas ao presidente dos EUA, Donald Trump, em relação à guerra contra o Irã, apesar de inicialmente ter apoiado a operação.
A contagem regressiva começa
O Politico alerta que, independentemente do resultado, as eleições prometem a Merz algum tipo de "humilhação política" que, a longo prazo, podem acelerar sua queda. E não está claro se o chanceler tem uma estratégia coerente para lidar com as consequências.
Merz já é um dos chanceleres mais impopulares da história do país e, mesmo entre seus aliados, a possibilidade de substituí-lo vem sendo discutida com crescente abertura. Vários nomes já circulam como possíveis sucessores, incluindo o Ministro-Presidente (cargo similar ao de governador) de Hesse, Boris Rhein; e o Ministro-Presidente da Saxônia, Michael Kretschmer.
O maior deles atualmente é Hendrik Wust, o Ministro-Presidente de Renânia do Norte-Vestefália, o estado mais populoso da Alemanha, que se consolidou como favorito, segundo o tablóide Bild, que o coloca como um dos nomes mais populares do país. O próprio chanceler, no entanto, parece não ter um plano definido e prefere aguardar os resultados das eleições.
"Vamos avaliar a situação à luz dos resultados eleitorais e faremos todo o possível para evitar que a Saxônia-Anhalt caia nas mãos dos radicais", declarou Merz em uma entrevista na televisão no último domingo.