
De drone a hacker: Berlim admite que não há provas contra Moscou, mas acusações continuam

O governo de Berlim confirmou nesta sexta-feira (4) que cerca de 1,4 milhão de documentos de Estado foram publicados na deep web pelo grupo hacker Rhysida, depois de as autoridades recusarem pagar os 2 milhões de euros exigidos como resgate. Sobre a autoria do ataque, a porta-voz Christine Richter foi direta, mas evasiva.
"Não há indícios de ligações com a Rússia ou mesmo com o Estado russo, mas isso também não pode ser descartado", afirmou. Apesar de não haver elementos novos na frase, a Rússia segue como elemento central.

Não é a primeira vez que Berlim recorre a essa fórmula. Menos de um mês antes, um drone com explosivos foi encontrado junto a uma aeronave no aeroporto de Leipzig/Halle.
Sem que a investigação tivesse chegado a qualquer conclusão, o governo alemão anunciou o fechamento do Consulado-Geral da Rússia em Bonn, o fim do acordo que mantém a Casa Russa de Ciência e Cultura em Berlim funcionando e um endurecimento no controle de entrada de cidadãos russos no país.
Moscou negou envolvimento e classificou o episódio como mais um ato de russofobia. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, resumiu a posição do Kremlin: as provas do envolvimento russo "simplesmente não existem, nem podem existir".
Quando questionada sobre provas concretas, a resposta oficial de Berlim tende a seguir a mesma estrutura retórica de Richter: reconhece não haver indícios, mas sem descartar a suspeita.
Coincidência de calendário
Tanto o episódio do drone quanto o vazamento de dados ocorrem a poucos dias das eleições que definirão o próximo governo de Berlim, marcadas para 20 de setembro.
Enquanto isso, pesquisas do instituto Trendbarometer, encomendadas pelas emissoras RTL e ntv, mostram que 78% dos entrevistados avaliam que o chanceler Friedrich Merz governa pior do que esperavam.
Na cidade vizinha de Saxônia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha (AfD) — legenda favorável a uma relação mais pragmática com Moscou — chegou a liderar pesquisas eleitorais com cerca de 43% das intenções de voto, à frente da União Democrata-Cristã do próprio Merz.
O portal Politico chegou a levantar a hipótese de que parte do endurecimento alemão em relação à Rússia mira justamente conter esse avanço eleitoral da AfD. Nesse cenário, Moscou vê a possibilidade de um cenário onde um inimigo externo cumpre uma função de desviar o foco de uma gestão desgastada.
O grupo Rhysida
O grupo Rhysida, responsável assumido pelo ataque contra o governo de Berlim, já havia atacado antes o Museu Britânico e a Biblioteca Britânica — casos em que a motivação apontada foi puramente financeira, sem qualquer conotação geopolítica. Nenhuma autoridade alemã, até o momento, apresentou evidência técnica que associe o grupo ao Kremlin. Ainda assim, o nome da Rússia entrou na nota oficial de Berlim.
O padrão que Moscou já denunciou
No caso do drone de Leipzig, Zakharova afirmou que Berlim "inventou um pretexto". O Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR) foi além: revelou que a própria Alemanha investigava internamente, de forma não oficial, uma "pista ucraniana" para o episódio — uma linha de apuração oposta.
Fragilidade de Merz
O presidente russo, Vladimir Putin, apontou, em discurso recente, sua visão da origem real do problema: a fragilidade política do próprio chanceler Friedrich Merz, "que não conta com a confiança de seus cidadãos" e "não defende os interesses nacionais" da Alemanha.
Enquanto Berlim segue incapaz de citar elementos concreto que ligue Moscou ao vazamento de dados ou ao drone de Leipzig, a Rússia mantém a posição de negar qualquer envolvimento e exigir provas.


