
Como o 'drone russo' em Leipzig reacende o fantasma nazista do Incêndio do Reichstag de 1933

Um drone com explosivos foi encontrado na madrugada de 5 de agosto perto de um avião no aeroporto de Leipzig, na Alemanha. O governo, em queda livre nas pesquisas, respondeu com medidas de exceção contra Moscou, antes de qualquer conclusão definitiva da investigação.
Às vésperas de eleições que ameaçam a coalizão do chanceler Friedrich Merz, o episódio do Aeroporto de Leipzig/Halle reativa um roteiro que a Alemanha já viveu de forma trágica: o do Incêndio do Reichstag de 1933, usado pelos nazistas para varrer os comunistas do jogo político em nome de uma ameaça externa nunca comprovada.
Noventa e três anos depois, o jogo se repete. A Rússia aponta para a ausência de evidências, nega qualquer envolvimento e destaca que Berlim pode estar fabricando um pretexto para endurecer um confronto justamente quando o governo alemão mais precisa de um inimigo fácil de apontar.
"Inventaram um pretexto", disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova. Segundo ela, a Alemanha não apresentou provas convincentes do envolvimento de Moscou no episódio. "Simplesmente não existem, nem podem existir", afirmou.
Entenda as acusações:
No início de agosto, no aeroporto de Leipzig, um drone carregando explosivos foi encontrado na área de estacionamento de aeronaves de transporte ucranianas. No mesmo período, um segundo drone teria colidido com um avião de carga que abortou o pouso no aeroporto. O primeiro artefato não chegou a explodir: o mecanismo de disparo estava desconectado, segundo a imprensa local.
Nos primeiros dias, as autoridades alemãs trataram o episódio como investigação em aberto. Ainda assim, na terça-feira (1º), o ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul, anunciou o fechamento do Consulado-Geral da Rússia em Bonn a partir de 18 de setembro e o fim do acordo que permite o funcionamento da Casa Russa de Ciência e Cultura em Berlim, além de um endurecimento no controle de entrada de cidadãos russos no país.
Confrontação externa em meio a desgaste interno
O Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR) questionou, em nota divulgada em 24 de agosto, se as autoridades alemãs teriam disposição para chegar a conclusões imparciais sobre o caso — e torná-las públicas. Já o presidente Vladimir Putin atribuiu a reação de Berlim, sobretudo, à situação política interna do governo alemão. "A posição do chanceler é complicada. Ele não conta com a confiança de seus cidadãos", disse Putin, acrescentando que Merz "não defende os interesses nacionais" do país.

Putin apontou ainda que as acusações contra Moscou coincidiram com a proximidade de eleições regionais na Saxônia-Anhalt, estado no qual pesquisas recentes davam à Alternativa para a Alemanha (AfD) — partido favorável a uma política mais pragmática com a Rússia — cerca de 43% das intenções de voto, à frente da União Democrata-Cristã (CDU) de Merz. O portal Politico chegou a levantar a hipótese de que parte do endurecimento alemão mira conter esse avanço eleitoral da AfD.
Uma pesquisa do instituto Trendbarometer, feita para as emissoras RTL e ntv, mostrou 78% dos entrevistados avaliando que Merz governa pior do que esperavam. Veículos alemães, citando fontes de bastidor, têm noticiado que a possibilidade de substituição do chanceler já é discutida internamente — e que as eleições podem acelerar esse desfecho.
Não é a primeira vez neste mandato que Merz recorre à confrontação externa enquanto enfrenta desgaste interno. Em maio, em meio à guerra entre Israel e Irã, ele endureceu o tom contra o presidente americano Donald Trump, revertendo o apoio inicial que havia dado à operação americana contra alvos iranianos.
Paralelo histórico com o nazismo
O episódio reacendeu comparações com um capítulo sombrio da história alemã. Na noite de 27 de fevereiro de 1933, o prédio do Reichstag foi incendiado. Horas depois, sem provas de uma conspiração organizada, o governo de Adolf Hitler atribuiu o ataque a uma trama comunista e obteve do presidente Paul von Hindenburg um decreto que suspendeu a liberdade de imprensa, de reunião e de expressão no país.
Nos dias seguintes, milhares de militantes foram presos, e o Partido Comunista Alemão foi praticamente eliminado da eleição de 5 de março de 1933 — o último pleito minimamente competitivo antes de a ditadura nazista se consolidar, semanas depois, com o Ato de Habilitação.
A maioria dos historiadores considera hoje que o autor material do incêndio, o holandês Marinus van der Lubbe, agiu sozinho. A "conspiração comunista" foi construída depois do fato, para justificar uma repressão que o governo já pretendia empreender.
A semelhança apontada por críticos do governo alemão não está na identidade do "inimigo" — comunismo então, Rússia agora —, mas na mecânica política: um incidente ainda não plenamente esclarecido, convertido em ameaça externa por um governo que enfrenta desgaste eleitoral, com medidas de exceção anunciadas antes de qualquer conclusão definitiva da investigação, em vésperas de um pleito que reconfiguraria o equilíbrio de forças no país.
Silêncio de Berlim e interesse de Kiev
Para a Rússia, o episódio de Leipzig se enquadra numa tentativa de sabotagem do regime de Kiev. O Serviço de Inteligência Estrangeira russo (SVR) informou, em 24 de agosto, que a Alemanha não descartava internamente uma "pista ucraniana" e investigava, de forma não oficial, a hipótese de sabotagem — uma linha de apuração que, segundo o próprio SVR, contrastaria com a rapidez com que autoridades e parte da imprensa alemãs apontaram para Moscou publicamente, sem provas conclusivas.
Tal contradição reforça a tese de que a atribuição à Rússia serve mais a um cálculo político interno do que a uma conclusão investigativa sólida — e Kiev teria interesse direto em um incidente que aprofunda o desgaste entre Berlim e Moscou.

