
El Niño ameaça provocar convulsão econômica global

O mercado de café já deu o primeiro sinal de alerta em meio à especulação e à incerteza causada pelo El Niño. Em apenas duas sessões, contratos futuros oscilaram entre uma alta de 16% e uma queda de quase 9%.
No entanto, o fenômeno transcende o setor cafeeiro. O El Niño deixou de ser apenas assunto para meteorologistas e agora se tornou uma variável financeira no radar de instituições como Morgan Stanley, Bradesco BBI e Saxo Bank, conforme reportado pela Bloomberg Line, em artigo publicado nesta terça-feira (8).
Nesta semana, o Morgan Stanley destacou que a questão crucial não é se o fenômeno climático ocorrerá, mas sim qual será sua intensidade, persistência e sinergia com as economias que o vivenciarão.
O impacto mais concreto recai sobre a inflação na região da América Latina. Em cenários mais severos, o Morgan Stanley estima que o aumento sustentado dos preços de bens e serviços poderá chegar a 168 pontos-base no Brasil, 132 na Colômbia e outros 209 no Peru, com um impacto menos acentuado no México.
Pressão acelerada no final do ano

Os bancos centrais normalmente costumam reagir a esses choques iniciais, mas as preocupações surgem quando outras variáveis são adicionadas, como a desvalorização cambial, indexação de preços ouuma situação fiscal já fragilizada. O Morgan Stanley prevê que a pressão se intensificará progressivamente entre o final deste ano e o primeiro semestre de 2027, começando com produtos alimentícios frescos e depois se estendendo a grãos, laticínios e produtos processados.
No segmento de commodities, o açúcar apresenta o maior potencial de aumento de preços, devido à falta de chuvas na Índia, Tailândia e Sudeste Asiático, além de potenciais problemas no Brasil. O óleo de palma também está sob escrutínio devido ao risco de seca na Indonésia e na Malásia.
Já os grãos podem apresentar resultados mistos. Espera-se que a Argentina e o sul do Brasil se beneficiem do aumento das chuvas, enquanto a região centro-oeste brasileira, fundamental para a soja e o milho, enfrenta o risco de secas. O Bradesco BBI aindaacrescenta que os setores de mineração e construção podem ser afetados pelas mudanças climáticas.
Estima-se que o cacau seja uma das matérias-primas mais expostas a esse fenômeno climático, que deve atingir seu pico de intensidade no segundo semestre de 2026. Após a alta espetacular em 2024 e a normalização do último ano, o "Super El Niño" previsto este ano pode torná-lo inacessível para muitos, especialmente num contexto de recessão
Fortes e Vulneráveis
O Bradesco identifica o Brasil, a Colômbia e o Peru como as economias mais vulneráveis ao fenômeno devido à combinação de inflação de alimentos, peso da agricultura e dependência da energia hidrelétrica.
Já o Chile geralmente se beneficia de melhores condições hidrológicas para suas usinas durante o El Niño, embora a região de Antofagasta permaneça sob observação rigorosa devido ao risco de interrupções climáticas em suas operações de mineração.
Os efeitos do El Niño não serão sentidos uniformemente em toda a região, pois seu impacto dependerá das economias, da atividade do mercado de ações, das condições climáticas e até mesmo da extensão geográfica. Nesse cenário complexo, os setores produtivo e financeiro terão que buscar mitigar os efeitos negativos.

Impacto Global
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) já havia alertado no início de junho para a necessidade de preparativos devido à presença de "águas excepcionalmente quentes" no Pacífico tropical, que favorecem "o surgimento de condições típicas do El Niño, as quais influenciarão os padrões de temperatura e precipitação em escala global e aumentarão o risco de eventos climáticos extremos nos próximos meses".
O banco dinamarquês Saxo Bank acredita que toda a cadeia de suprimentos da produção agrícola será afetada pelo El Niño. Isso significa que fabricantes de alimentos, empresas de bebidas, distribuidores e varejistas sentirão o aumento dos preços das matérias-primas, da logística e do transporte.
Esses aumentos de preços, além de afetarem os produtores regionais, podem ter um impacto nas cadeias de suprimentos globais, de acordo com Rubén Dalfovo, estrategista de investimentos do Saxo Bank.

