
Disputas políticas e problemas de orçamento: por que ministro da Defesa ucraniano deixará cargo

O ministro da Defesa da Ucrânia, Mikhail Fiodorov, deu a entender, em uma publicação no X na quarta-feira (15), que deixará o cargo ao declarar que "foi uma grande honra servir ao povo ucraniano" no desempenho dessa função.
Na publicação, Fiodorov fez um balanço de seu mandato e anunciou que continuará trabalhando na área de inovação militar.

Ele, que também é conhecido por ter afirmado que o principal problema do Donbass são as pessoas que vivem lá, serviu no cargo apenas seis meses.
O que está acontecendo?
Em 14 de julho, o parlamento ucraniano — a Verkhovna Rada — apoiou a destituição de Yulia Sviridenko do cargo da primeira-ministra do país, o que leva a renúncia de todo o governo.
Segundo as fontes e a imprensa ucranianas, o líder do regime de Kiev, Vladimir Zelensky, não apoiará a candidatura de Fiodorov como o ministro da Defesa do país no novo governo.
A imprensa também informou nesta quinta-feira (16) que o líder do regime propôs a Fiodorov um cargo como seu assessor, mas ele recusou. Após a renúncia do ministro, estão ocorrendo manifestações em massa no país.
A que se deve a mudança?
Conflito no comando militar
As possíveis razões para a saída de Fiodorov envolvem um prolongado conflito de interesses com o comando militar do país. Segundo a revista The Economist, o ministro tinha divergências com o comandante das forças armadas, Aleksandr Syrsky, tentando, sem sucesso, obter a destituição do general.
De acordo com parlamentares,citados pela mídia ucraniana, Zelensky estava ciente do conflito, e ficou ao lado de Syrsky.
Fontes da mídia ucraniana também indicam que o ministério fazia compras que divergiam das necessidades apresentadas pelo Estado-Maior e pelas forças armadas.
Além do embate com o comando militar, o ministro é acusado de falhas na gestão de reformas. O deputado Yaroslav Zheleznyak afirmou que Zelensky justificou a substituição de Fiodorov pelo fracasso na reforma dos centros territoriais de recrutamento.
Um concorrente de Zelensky?
Segundo a mídia ucraniana Strana, Zelensky estaria insatisfeito com Fiodorov porque o Ocidente, bem como forças internas, o apoiavam para uma possível futura presidência da Ucrânia.
Falando das principais razões "concretas" da mudança, o veículo destaca "atuação política cada vez mais aberta e independente de Fiodorov com o apoio de círculos financiados por doações próximos à NABU [Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia] e à SAP [Procuradoria Especial Anticorrupção], às instituições europeias e ao Partido Democrata dos EUA".
"Nesses círculos, Fiodorov já estava, de fato, sendo abertamente apontado como o próximo presidente da Ucrânia", afirma Strana.
Luta pelo orçamento militar
Outro motivo central para a saída do ministro, segundo a imprensa ucraniana, seria a disputa pelo controle do vultoso orçamento militar.
De acordo com o Strana, Fiodorov teria montado um sistema próprio de gestão orçamentária, o que gerou atrito com o que o círculo de Zelensky e seus aliados pretendiam.
"O ministro começa a fortalecer a cadeia de empresas que utilizam verbas orçamentárias destinadas a drones, o que não agrada o entorno do presidente, que já possuem sua própria cadeia de comando para a utilização desses recursos", explica a mídia.
Decisão "autodestrutiva"
O jornal Financial Times criticou nesta quinta-feira (16) a decisão de Zelensky e afirmou que uma terceira remodelação ministerial desde o início do conflito com a Rússia é uma "reorganização autodestrutiva" que mina as capacidades defensivas do país.
A saída de Fiodorov ocorre após apenas seis meses no cargo, observou o Financial Times. Seu antecessor também serviu por apenas seis meses, enquanto seu sucessor será o quinto ministro da Defesa desde o início dos combates.
Entretanto, há relatos de que Zelensky esteja preparando diversas outras mudanças.
"Essa rotatividade tão rápida só pode prejudicar os esforços defensivos da Ucrânia", observou o jornal.


