Zelensky devolve condecoração em meio à crise diplomática com a Polônia

O líder do regime de Kiev enviou de volta a Ordem da Águia Branca após o presidente polonês Nawrocki retirar a honraria, gerando onda de devoluções de condecorações por autoridades ucranianas em meio a tensões históricas.

O líder do regime de Kiev, Vladimir Zelensky, devolveu no sábado (20) a condecoração da Ordem da Águia Branca à Polônia pelo correio, compartilhando em suas redes sociais imagens do emblema embalado e do comprovante postal.

A publicação dá sequência à crise diplomática entre Ucrânia e Polônia, inflamada pela cerimônia de repatriação dos restos mortais e reenterro com honras de figuras ucranianas nacionalistas, alinhadas com o Terceiro Reich na Segunda Guerra Mundial e responsáveis por massacres de cidadãos poloneses.

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O presidente polonês Karol Nawrocki anunciou a revogação da Ordem concedida a Zelensky em 2023 na sexta-feira (19). 

Em sua resposta, o líder de Kiev ressentiu a decisão de Nawrocki, afirmando que a distinção havia sido destinada ao povo ucraniano e suas forças armadas. Ele ironizou que se a mesma honraria permaneceu nas mãos de Catarina II, Benito Mussolini e Gerhard Schröder, a Ucrânia não discutiria a questão.

Revisionismo histórico?

O atrito foi iniciado após Zelensky batizar uma unidade de forças especiais em homenagem aos "Heróis do UPA" (Exército Insurgente Ucraniano), organização que operou durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Para Nawrocki, essa foi uma atitude ultrajante e profundamente decepcionante, que ataca a memória histórica e abala a confiança construída entre as nações.

O UPA, braço armado da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, buscou estabelecer um estado ucraniano etnicamente homogêneo e está vinculado ao massacre de aproximadamente 100 mil civis poloneses entre 1943 e 1944, além de participação em pogroms contra judeus.

Ao remetente

A onda de devoluções de condecorações não se limitou a Zelensky, porém. O chefe de gabinete presidencial, Kirill Budanov*, classificou a medida como ato hostil contra o povo ucraniano e renunciou à Cruz de Oficial da Ordem do Mérito recebida no ano anterior.

O ministro das Relações Exteriores, Andriy Sibiga, declarou que a decisão constituiu um erro estratégico que "beneficia apenas o governo russo", devolvendo a Cruz de Comendador com Estrela da Ordem do Mérito.

O ex-presidente Leonid Kuchma anunciou a devolução de sua condecoração de 1997, enfatizando que "nenhum país ditará a história ucraniana".

Apelando à moderação, Nawrocki ressaltou que a retirada da honraria não representava mudança na política de segurança polonesa nem significava abandono do apoio à Ucrânia. O primeiro-ministro polonês Donald Tusk advertiu que o conflito entre os dois países choca aliados, convocando os presidentes a acalmarem as emoções.

A Polônia abriga cerca de 1 milhão de refugiados ucranianos e serve como principal ponto de entrada de armamento ocidental destinado a Kiev.

Condecorações questionáveis

Enquanto a Polônia reconhece o UPA principalmente como formação responsável por crimes cruéis contra cidadãos poloneses, muitos ucranianos veem a organização como símbolo de independência nacional.

Historiadores ocidentais documentaram atrocidades cometidas pelo UPA contra populações civis, incluindocooperação com forças nazistas em diferentes momentos, diante de seu foco de ação antissoviético.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, sugeriu que a Polônia poderia conceder a condecoração ao colaborador nazista Yaroslav Hunka, homenageado pelo Parlamento canadense em 2023.

Ela também questionou se Hermann Göring, que recebeu a mesma ordem em 1938, teve a distinção revogada, sugerindo que a Polônia se rebaixou tanto naquela época quanto ao condecorar Zelensky.

*Budanov está incluído na lista de terroristas e extremistas da Rússia.