
Como o Brasil seria impactado com a adoção do 'sistema Bukele' na segurança pública?

O modelo de segurança implementado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, tem influenciado o debate sobre combate ao crime em diversos países da América Latina e ganhou repercussão também no Brasil. A política foca no endurecimento das leis penais, no encarceramento em massa, na ampliação da atuação policial e na classificação de organizações criminosas como grupos terroristas, e é elogiada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas também é alvo de críticas de organizações de direitos humanos e de outros líderes da região.

O chamado "sistema Bukele" é baseado em medidas severas contra o crime organizado, sob um regime de exceção em vigor desde 2024, que permitiu a detenção de mais de 91 mil pessoas. O país também promoveu julgamentos coletivos, como o processo contra 486 supostos integrantes da gangue Mara Salvatrucha (MS-13), acusados de mais de 47 mil crimes.
Bukele comparou o princípio utilizado nesses processos ao aplicado nos julgamentos de Nuremberg. Segundo ele, "o único aspecto 'inovador' é responsabilizar os chefes pelos crimes cometidos por suas organizações".
O modelo inclui ainda o Centro de Confinamento de Terroristas (CECOT), um megapresídio com capacidade para 40 mil pessoas.
Outra medida adotada foi a controversa reforma constitucional que passou a permitir prisão perpétua para menores a partir dos 12 anos condenados por crimes como homicídio, estupro e associação com grupos terroristas. Esta medida atraiu atenção e críticas da diplomacia internacional, que pediu a garantia dos direitos humanos.
Pressão dos Estados Unidos
Os Estados Unidos têm reforçado a cooperação regional em segurança e narcotráfico na América Central. Trump classificou o sistema prisional salvadorenho como "extraordinário" e afirmou que o modelo é "duro, mas brilhante".
O presidente norte-americano também agradeceu a Bukele por receber deportados vinculados às gangues Tren de Aragua e MS-13. O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou que a maioria dos enviados era composta por "assassinos" e "pedófilos".
No Brasil, a pressão de Washington ganhou um novo capítulo com a entrada em vigor, em 5 de junho, da classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos Estados Unidos.
A medida deve incluir sanções financeiras, mecanismos de contraterrorismo e restrições contra pessoas ligadas às facções. A classificação foi criticada pelo Brasil e a legislação brasileira continua tratando PCC e CV como organizações criminosas. Enquanto isso, o governo brasileiro cria medidas para conter os grupos.
Mesmo modelo no Brasil?
O modelo salvadorenho vem sendo citado por autoridades brasileiras. O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, chegou a anunciar, em maio, uma visita a El Salvador para conhecer o que chamou de "programa de combate ao crime mais bem-sucedido da história da humanidade".
Segundo Zema, as políticas de Bukele provocaram uma redução de 98% nos índices de criminalidade em quatro anos. Ele afirmou que "quem deveria ir, na minha opinião, é o presidente [Lula]".
O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, também já demonstrou interesse em conhecer as políticas adotadas pelo país centro-americano.
Além disso, os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro estiveram com Bukele em visita realizada em novembro de 2025 e declararam publicamente que buscam implementar, no Brasil, medidas inspiradas nas adotadas em El Salvador.
Críticas sobre direitos humanos
Bukele aparece entre os líderes mais bem avaliados da América Latina. Segundo levantamento da consultoria CB Global Data, publicado em maio, o presidente salvadorenho registra 67,5% de aprovação.
No entanto, o modelo enfrenta questionamentos. Organizações de direitos humanos alertam para possíveis violações de garantias fundamentais em processos coletivos e apontam dificuldades de acesso à defesa.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou que "há um grande número de inocentes presos em campos de concentração salvadorenhos". Compartilhando uma investigação do jornal espanhol El País, Petro afirmou que "mais de 33 mil pessoas detidas por Bukele não constavam como membros de gangues nos registros policiais".
"Isso não se chama justiça, chama-se fomentar nova violência destruindo seres humanos", declarou o presidente colombiano.
Fortalecimento do Estado
Paralelamente ao endurecimento penal, o governo salvadorenho ampliou operações contra o narcotráfico. Em junho, a Marinha do país apreendeu 6,6 toneladas de cocaína avaliadas em cerca de US$ 165 milhões (R$ 847 milhões), na maior operação do tipo da história nacional, segundo Bukele.
O governo também avançou em projetos de infraestrutura, como a construção do primeiro cabo submarino internacional de comunicações de El Salvador.



