
Fim do sistema laboral 6x1? O Brasil perante uma das decisções mais importantes em décadas
Em entrevista à RT, Ricardo Antunes — sociólogo e professor da Universidade Estadual de Campinas — analisou a proposta de acabar com a escala 6x1, em debate no Congresso. Autor de estudos sobre neoliberalismo e transformações do trabalho, Antunes resumiu a trajetória que levou a essa pauta: jornadas exaustivas, informalidade e a expansão do trabalho por plataformas.
O professor lembrou que a proposta inicial buscava reduzir a jornada de 44 para 36 horas semanais, mas a versão em discussão prevê 40 horas, o que, segundo ele, é um avanço real ainda que insuficiente. Antunes destacou que reivindicações por menos horas de trabalho têm histórico longo e muitas vezes enfrentaram previsões de desastre econômico que não se confirmaram, e defendeu a redução como medida para melhorar saúde, qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Ao tratar da informalidade, Antunes enfatizou a vulnerabilidade dos 38 milhões de trabalhadores sem registro formal, que convivem com jornadas mais longas e ausência de proteção social. Ele criticou a narrativa das plataformas que apresentam os trabalhadores como autônomos, ressaltando a falta de previdência, assistência e segurança — fatores que tornam precárias atividades em crescimento, como as de entregadores e motoristas de aplicativo.
Outro ponto salientado foi o efeito da financiarização: o endividamento generalizado, inclusive por causa de financiamentos de veículos usados nas plataformas, cria dependência que dificulta mobilizações e mantém trabalhadores em condições adversas. Para Antunes, reduzir a jornada pode também abrir espaço para mais contratações, distribuindo o trabalho e contribuindo para reduzir o desemprego estrutural.
Sobre organização e resistência, o sociólogo observou mudanças nas formas de luta: embora a dispersão e a gamificação dificultem a mobilização, já surgem sindicatos e alianças específicas, como a Aliança Nacional dos Trabalhadores de Aplicativos. Ele defendeu a ação coletiva como caminho essencial para enfrentar a "escravidão digital" e recuperar direitos.
Por fim, Antunes apontou que a tramitação enfrenta obstáculos políticos — manobras do chamado Centrão e o calendário eleitoral podem postergar ou esvaziar a proposta —, mas também ressaltou seu potencial simbólico e prático caso avance. "É uma luta decisiva", disse, lembrando que a decisão no Congresso terá impacto direto na vida de milhões de brasileiros e na forma como o país responde às transformações do mundo do trabalho.




