'Qualquer melhora para a vida da população negra brasileira é uma melhora para a vida do Brasil' — Entrevista RT

A lei de cotas universitárias de 2012 para alunos negros suscitou um debate, "e foi necessário admitir nesse debate que o Brasil era um país racista", diz Ynaê Lopes dos Santos, historiadora e escritora brasileira. No 'Entrevista', da RT, por ocasião do aniversário da abolição da escravidão em 13 de maio de 1888, explica a brecha entre os brancos e os negros no Brasil. Além disso, fala da normalização dos preconceitos em relação à população negra, que ainda não tem poder na estrutura social.

No dia 13 de maio de 2025 completou-se 138 anos da abolição oficial da escravidão no Brasil, o último país das Américas a extinguir esse sistema de opressão. Em entrevista à RT, a historiadora e escritora Ynaê Lopes dos Santos oferece uma reflexão profunda sobre o significado dessa data e seus desdobramentos até os dias de hoje.

Para Inaê, o 13 de maio foi historicamente consagrado como uma "dádiva da elite branca brasileira" — uma narrativa construída pelo Estado Nacional e pelas elites para apresentar a abolição como uma benesse, enquanto, na prática, criavam-se políticas públicas para manter a população negra marginalizada na economia e no acesso a direitos básicos. "Essa é uma falsa história construída pela elite brasileira", afirma.

No entanto, a historiadora também destaca que, sem a assinatura da Lei Áurea, o Brasil poderia ter entrado em uma grave conturbação social, pois o movimento abolicionista estava "totalmente capilarizado" e contava com grande adesão popular — uma dimensão pouco conhecida da história.

Foi por essa razão que o movimento negro brasileiro reivindicou o 20 de novembro — data da morte de Zumbi dos Palmares — como o Dia da Consciência Negra, para disputar a ideia de que a inserção da população negra no Brasil deve ser pensada a partir da luta negra, e não de uma suposta benesse que nunca existiu.

O legado da escravidão racializada

Ynaê ressalta que a escravidão moderna foi racializada, ou seja, apenas pessoas não brancas poderiam ser escravizadas. Essa condição se mostra como "produtora e produto ao mesmo tempo do racismo, que é um sistema de poder". No Brasil, o racismo naturalizou lugares sociais: a população negra foi associada à pobreza, e a República brasileira, segundo a historiadora, "escolheu não mudar isso".

Avanços e desafios

Apesar dos obstáculos históricos, Ynaê reconhece avanços significativos, como a Lei de Cotas nas universidades públicas e a Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas.

"Essas leis foram pautadas pelos movimentos negros e representam um início de desmonte do racismo", afirma.