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Papa Leão XIV critica aborto e eutanásia em visita ao Uruguai, país onde ambos são legalizados

Três semanas após cirurgia de câncer no pulmão, o pontífice de 71 anos chegou a Montevidéu para viagem de 12 dias que inclui Argentina e Peru.
Papa Leão XIV critica aborto e eutanásia em visita ao Uruguai, país onde ambos são legalizadosAP / Matilde Campodonico

O papa Leão XIV iniciou sua turnê sul-americana pelo Uruguai, iniciando sua passagem com discurso a dezenas de milhares de uruguaios em cerimônia com o presidente Yamandú Orsi, na Praça Independência de Montevidéu. Ao longo da celebração da presença da Igreja Católica no país, contudo, o pontífice não deixou de expressar contradições com a ordem do país hospedeiro.

A gestão justa de recursos na contrução de um futuro humanitário, para Leão XIV, é uma preocupação "concreta", em particular diante da "evolução demográfica do Uruguai". O papa indicou que a questão "nos leva a pensar na vida que começa — inclusive naquela que ainda cresce no ventre materno e, embora ainda não tenha nascido, já pertence à família humana e ao futuro de seu povo."

O Uruguai é o país mais secular da América Latina, com menos de 10% dos uruguaios autodeclarados católicos praticantes.

O Senado uruguaio descriminalizou o aborto em outubro de 2012, tornando o país o segundo da América Latina a permitir a prática, depois de Cuba. A lei autoriza a interrupção voluntária da gravidez até as 12 primeiras semanas de gestação, mediante requisitos como consulta médica e período de reflexão de cinco dias. 

Para a aprovação do projeto, o movimento de mulheres uruguaio conduziu uma campanha ao longo de 20 anos, iniciada em 1988 pelo coletivo Cotidiano Mujer.

A militante uruguaia Lilia Celiberti, em entrevista à revista brasileira Caros Amigos no contexto da legalização 2012, afirmou então diante da resistência vencida que "a igreja dá suporte ideológico a setores conservadores e de direita, mas estes estão agora em minoria na sensibilidade cidadã" uruguaia, destacando que o país é composto por "uma sociedade relativamente aberta e progressista".

Dignidade da vida, e da morte

Em correlação com sua recente internação, o líder católico também ressaltou o papel do cuidado no convívio comunitário, declarando que "cabe a todos procurar garantir que cada pessoa possa viver com dignidade, receber os cuidados de que necessita e ser acompanhada até o fim natural de sua vida".

A fala foi igualmente tomada como uma direta contestação da prática de eutanásia, também legallizada no país após ampla mobilização pública, desde outubro de 2025.

A lei, apelidada de "Morte Digna", autoriza adultos em fase terminal de doença incurável a optarem pela morte assistida. O caso de Pablo Salgueiro, professor que morreu de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) em 2020 sem conseguir assistência médica para encerrar o sofrimento, tornou-se símbolo da campanha pela legalização.

Na contexto de sua aprovação, a Igreja Católica expressou "tristeza" e o cardeal Daniel Sturla, arcebispo de Montevidéu, rejeitou "categoricamente a imposição deliberada da morte a uma pessoa". A Arquidiocese da capital uruguaia, em publicação à época, declarou que "a vida é um dom de Deus, do qual somos administradores, não donos", citando o cardeal.

Roteiro sul-americano

A visita de Leão XIV ocorre três semanas após cirurgia para remoção de tumor cancerígeno no pulmão, realizada em 13 de outubro. Durante o voo de 13 horas e meia desde Roma, o papa, de 71 anos, declarou-se confiante e creditou sua recuperação a Deus e bons médicos.

Leão XIV percorreu Montevidéu no papamóvel e, além da cerimônia de abertura, celebrou homilia na Catedral Metropolitana. O evento contou com a presença dos ex-presidentes Julio María Sanguinetti, Luis Lacalle Herrera e Luis Lacalle Pou, além de Lucía Topolansky, viúva de José "Pepe" Mujica.

A viagem prossegue pela Argentina e Peru até 16 de novembro.