
Borboletas que percorrem 4.800 km escondem mistério que intriga cientistas há décadas

Cientistas utilizam transmissores solares instalados em quase 1.750 borboletas-monarca para desvendar um mistério que persiste há décadas: os caminhos percorridos pelos insetos durante migrações de até 4.800 quilômetros pela América do Norte. A tecnologia já permitiu identificar conexões entre populações e trajetórias que os pesquisadores desconheciam ou não conseguiam comprovar. A informação foi publicada pela Associated Press.
Uma das descobertas foi o registro de uma borboleta de Utah, a oeste das Montanhas Rochosas, que se juntou às populações orientais no centro do México. Outros exemplares seguiram pela costa leste dos Estados Unidos até a Flórida, atravessaram o Golfo do México e foram detectados em território mexicano, revelando uma conexão migratória antes não observada em tamanha escala.
"Existem todas essas histórias únicas sobre seus caminhos e conexões entre populações que não sabíamos que existiam ou que suspeitávamos, mas não conseguíamos comprovar", afirmou Emma Pelton, bióloga sênior de conservação da Sociedade Xerces para a Conservação de Invertebrados.
As borboletas-monarca percorrem grandes distâncias desde regiões que chegam ao sul do Canadá até florestas de abetos no centro do México, onde passam o inverno. Durante décadas, cientistas enfrentaram dificuldades para identificar suas rotas, as distâncias percorridas diariamente e os locais utilizados para alimentação e descanso.

Tecnologia de rastreamento
Os transmissores foram desenvolvidos pela empresa Cellular Tracking Technologies, custam cerca de US$ 200 cada e pesam aproximadamente o equivalente a uma gota de água. Os dispositivos utilizam energia solar e são fixados cuidadosamente no abdômen das borboletas.
Desde o início da migração deste ano, cerca de 175 borboletas equipadas com transmissores foram detectadas no México. O público também pode acompanhar os registros individuais pelo aplicativo gratuito Project Monarch Science.
Apesar dos avanços, a tecnologia apresenta limitações. Segundo Louie Yang, ecólogo da Universidade da Califórnia em Davis, os equipamentos não fornecem a localização exata e contínua das borboletas, mas identificam sua passagem pelos pontos onde existem receptores. Novos estudos também serão necessários para avaliar possíveis efeitos dos dispositivos sobre o comportamento dos insetos.
Ameaças à sobrevivência
A pesquisa é realizada diante de uma forte redução das populações de borboletas-monarca. Desde meados da década de 1990, a população oriental caiu mais de 80%, enquanto que a ocidental registrou uma diminuição de aproximadamente 95%.
Entre as principais ameaças estão a perda de habitat, os pesticidas e as mudanças climáticas. Os produtos químicos afetam especialmente as plantas conhecidas como milkweed, nas quais as borboletas depositam seus ovos e que constituem a única fonte de alimento de suas lagartas.
O aumento prolongado das temperaturas também pode comprometer a migração. Segundo Tierra Curry, cientista do Centro para a Diversidade Biológica, o calor persistente nas regiões ao norte pode impedir que os insetos recebam os sinais ambientais necessários para iniciar a viagem, reduzindo suas chances de chegar às florestas mexicanas antes da chegada do frio.
Entre as iniciativas de conservação estão o plantio de vegetação utilizada pelas borboletas e a instalação de redes em trechos de rodovias do Texas. As estruturas incentivam os insetos a voar mais alto para evitar colisões com veículos, especialmente à noite, quando descem para descansar.

