O chanceler alemão, Friedrich Merz, que acumula uma série de reveses políticos e registra índices de popularidade historicamente baixos, parece ter conseguido o impossível: unir contra si tanto a direita quanto a esquerda do país, dois setores políticos que, até então, pareciam estar em total oposição.
Durante o congresso nacional da organização juvenil da União Democrata-Cristã (CDU), Merz fez uma advertência severa ao Partido Social-Democrata (SPD) e aos Verdes, ao declarar inadmissível a aliança deles com a legenda socialista Die Linke.
"Quem quiser fortalecer o centro político e garantir que a democracia permaneça protegida em nosso país não deve manter conversas com tais radicais de esquerda", exigiu. Ao mesmo tempo, o chanceler criticou duramente a legenda de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) e advertiu que aqueles que consideram que os representantes desse partido podem ocupar cargos públicos não têm lugar na CDU.
No entanto, tanto a direita quanto a esquerda alemãs, apesar de suas profundas divergências sobre o futuro e o modelo do país, também acumulam inúmeras críticas a Merz. Entre os principais motivos de descontentamento estão a militarização, o apoio à Ucrânia e a falta de recursos orçamentários para o setor social.
Durante um debate geral no Bundestag, a líder do AfD, Alice Weidel, protagonizou um duro confronto verbal com o chanceler e acusou o governo federal de um "fracasso total". Ela destacou, em particular, os erros na política energética e alertou que a Alemanha caminha para uma "crise existencial do gás" neste inverno no hemisfério norte. Nesse contexto, defendeu a retomada das importações de gás russo — uma posição que seu partido tem sustentado de forma consistente ao longo dos anos.
O AfD também critica Merz porseu apoio à Ucrânia, pela carga tributária excessiva, pela deterioração da indústria alemã, pela ausência das reformas prometidas e pela crescente pressão sobre o sistema de proteção social.
Por sua vez, o Die Linke, que se define como uma legenda antimilitarista, concentra suas críticas no aumento do orçamento militar, o qual contrasta com os cortes nos gastos sociais. Durante um encontro com representantes de sindicatos e organizações sociais realizado neste mês, o líder do Die Linke, Soren Pellmann, questionou o fato de o governo dispor de enormes recursos para o rearmamento, mas não encontrar verbas suficientes para financiar os serviços sociais.
O partido também acusa o chanceler de governar em benefício dos mais ricos. "Os únicos para quem Merz governa são os super-ricos e as grandes corporações", denunciou Heidi Reichinnek, co-presidente do grupo parlamentar do Die Linke. Entre os demais motivos de descontentamento da legenda, figuram a reforma da previdência e os cortes em setores como a saúde e a proteção social.
Ajuda à Ucrânia
O AfD tem criticado duramente, em repetidas ocasiões, a ajuda que o governo alemão destina à Ucrânia. Weidel declarou, esta semana, que seu país gastou mais de 100 bilhões de euros apenas em assistência civil e militar direta a Kiev — sem contar as iniciativas conjuntas no âmbito da UE nem os benefícios sociais concedidos aos refugiados ucranianos.
Anteriormente, ela já havia ressaltado que esses recursos são necessários para a própria Alemanha, especialmente para financiar as aposentadorias, o sistema de saúde e enfrentar as consequências da grave crise energética que o país atravessa.
"Para os seus próprios cidadãos, vocês só têm aumentos de impostos e contribuições, encargos econômicos adicionais, cortes na área social e a eliminação de benefícios", afirmou a política, dirigindo-se ao governo de Merz ao criticar as enormes somas destinadas a apoiar Kiev.
A ajuda militar à Ucrânia também gera descontentamento no Die Linke. A deputada da legenda, Lea Reisner, criticou o governo federal por considerar a Ucrânia meramente como um mercado no qual empresas alemãs do setor de armamentos podem obter lucros. "Vocês têm um plano para as armas e para os investidores, mas não têm plano algum para a paz", declarou.
O descontentamento na Alemanha em relação à ajuda à Ucrânia já se traduz em iniciativas políticas concretas. O Parlamento regional da Saxônia-Anhalt aprovou, pela primeira vez, uma moção conjunta do AfD e do partido populista de esquerda Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), que exige o fim do fornecimento de armas e do financiamento a Kiev, bem como a suspensão das sanções contra a Rússia.
A popularidade de Merz
O crescente descontentamento com a política de Merz também se reflete em seus índices de popularidade, que caíram a níveis históricos. Segundo uma pesquisa recente, apenas 10% dos alemães estão satisfeitos com a gestão do chanceler, frente a 88% que expressam seu descontentamento — um número que evidencia a magnitude da crise de confiança que seu governo atravessa. As perspectivas também não parecem animadoras para o chanceler: quase metade dos entrevistados acredita que Merz deixará o cargo antes do fim do ano.
Além disso, seu partido, a CDU, ficou de fora de um parlamento regional pela primeira vez na história da Alemanha, ao não alcançar pelo menos 5% dos votos nas eleições estaduais de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.O partido obteve apenas 4,9% dos votos, enquanto a AfD se destacou com mais de 38,2% e o SPD ficou em segundo lugar, com 35,5%.
Por sua vez, Weidel exigiu que o chanceler "assuma as consequências" da derrota contundente de seu partido. "Acredito que a CDU não pode continuar com Friedrich Merz, com um chanceler fraco", sentenciou.