Um ano após o cessar-fogo em Gaza entrar em vigor, em 10 de outubro de 2025, as promessas do acordo mediado pelos Estados Unidos permanecem amplamente descumpridas.
Forças israelenses continuam matando civis palestinos quase diariamente, enquanto a reconstrução do território devastado não saiu do papel e o desarmamento do Hamas permanece travado por disputas sobre sequenciamento, segundo múltiplas fontes internacionais que acompanham a implementação do plano de paz elaborado pelo presidente Donald Trump.
Balanço humanitário
Desde a implementação do cessar-fogo, pelo menos 1.400 palestinos foram mortos e 4.881 feridos em ataques israelenses, conforme o Ministério da Saúde de Gaza, elevando o total de mortes desde outubro de 2023 para mais de 74 mil, incluindo 21 mil crianças.
Mais de cem organizações humanitárias e de direitos humanos denunciaram, em declaração conjunta na sexta-feira anterior ao aniversário do cessar-fogo (9), intitulada "A trégua em Gaza existe apenas no papel", como forças israelenses continuam a matar e ferir palestinos diariamente.
Uma análise do jornal catari Al Jazeera constatou que Israel violou o cessar-fogo 5,147 vezes e atacou Gaza em 329 dos últimos 365 dias desde o cessar-fogo, com apenas 36 dias sem ataques, mortes ou ferimentos reportados.
Colapso de infraestrutura
Imagens de satélite atualizadas do Google Maps, atualizadas neste mês de outubro, tornaram visível a escala da destruição: bairros residenciais em Rafah foram reduzidos a escombros, estradas cortando áreas antes repletas de casas e comércio, e tendas circundando as estruturas sobreviventes próximo ao porto da Cidade de Gaza.
Em 23 de setembro, o Conselho da Paz de Trump apresentou um programa de recuperação de seis meses no valor de US$ 2,45 bilhões em reunião de seus membros e partes interessadas, às margens da Assembleia Geral da ONU.
Avaliação conjunta do Banco Mundial, Nações Unidas e União Europeia, porém, estima que US$ 26,3 bilhões são necessários apenas nos primeiros 18 meses para restaurar serviços essenciais, reconstruir infraestrutura crítica e apoiar recuperação econômica. Segundo dados apresentadas com a proposta de recuperação, dos valores totais prometidos até então, foram entregues apenas US$ 280 milhões.
Nenhum dos 36 hospitais de Gaza está plenamente operacional um ano após o cessar-fogo, segundo relatório divulgado na quarta-feira (7) pela organização israelense Physicians for Human Rights Israel (PHRI). A Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou 56 ataques a instalações de saúde entre janeiro e agosto deste ano, enquanto medicamentos essenciais, equipamentos e combustível permanecem criticamente escassos.
Embora pacientes pudessem ser transferidos de hospitais em Gaza à Cisjordânia antes dos eventos de 7 de outubro, Israel instituiu um bloqueio ao "corredor médico" desde então, de acordo com o The Times of Israel. Mais de 18.500 pacientes, incluindo pelo menos 4 mil crianças, aguardam evacuação médica, e mais de 1.000 pessoas morreram esperando tratamento nesse intervalo.
O setor educacional está igualmente devastado, com 93% das escolas destruídas ou danificadas, segundo levantamento do Ministério da Educação palestino. O ano letivo começou em setembro com mais de 700 mil estudantes sem acesso à educação formal. Ao menos 63 prédios universitários foram destruídos, e os que permanecem de pé estão sendo usados como abrigos para deslocados.
Os deslocamentos se tornam um fator agravante com a aproximação do inverno, conforme 94% da população carece de abrigo adequado, segundo a organização Palestine Shelter Cluster, liderada pelo Conselho de Refugiados da Noruega (NRC), baseando-se em pesquisa com quase 2 mil famílias.
Mais de 80% das estruturas em Gaza foram danificadas, com cerca de dois terços completamente destruídos, e aproximadamente 329 mil unidades habitacionais afetadas. Palestinos ainda procuram nos escombros de prédios destruídos materiais para sustentar tendas e outros abrigos.
A pesquisa do Shelter Cluster mostrou que cerca de dois terços das famílias vive em tendas, quantificando o dilema que muitas famílias enfrentam entre a decisão de abrigar-se em construções danificadas sob risco de colapso ou permanecer em tendas expostas a temperaturas extremas. Em setembro, um edifício danificado que abrigava cerca de 100 pessoas colapsou, matando 21 pessoas, incluindo 12 crianças.
Segundo autoridades palestinas de defesa civil, mais de 630 corpos foram recuperados dos escombros desde novembro de 2025, e estimam que mais de 8 mil permanecem enterrados sob os destroços.
A relatora especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos no Território Palestino Ocupado, Francesca Albanese, alertou em setembro que a remoção de escombros em larga escala em áreas de Gaza sob controle militar israelense não deveria se tornar forma de apagar rastros de crimes atrozes.
Insegurança alimentar e crise hídrica
Em julho, o Integrated Phase Classification (IPC), principal referência mundial em segurança alimentar, reportou que 67% da população, mais de 1,4 milhão de pessoas, enfrentaria níveis de crise ou piores de insegurança alimentar aguda entre julho e dezembro de 2026, apesar de grande ampliação das operações de ajuda após o cessar-fogo.
O relatório citou dados mostrando média de 227 caminhões por dia transportando suprimentos humanitários e comerciais para Gaza entre o cessar-fogo e o fim de maio; Israel afirma que cerca de 600 caminhões com ajuda humanitária e bens comerciais entram diariamente, que Gaza recebe produtos suficientes para atender necessidades, e que está cumprindo suas obrigações.
Organizações humanitárias afirmam que Israel bloqueia itens essenciais, incluindo postes metálicos para tendas, óleo de motor e peças de reposição, alegando que o Hamas poderia usá-los para fins militares. A organização Refugees International alega que o sistema é mais complexo e afirma que as autoridades israelenses mantêm listas de objetos considerados de propósito ambíguo, "civil e militar", mantidas e alteradas em sigilo e de cujos itens são eventualmente permitidos ingressar em Gaza — diante do pagamento de propina.
Especialistas da ONU também afirmam que a maior parte da rede de água e saneamento foi danificada ou destruída como resultado de ações militares. Segundo a Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), 82% da população sofre com escassez de água, e 70% das famílias recebem apenas seis litros diários por pessoa; volume é menor que o mínimo requerido para sobrevivência em condições de emergência segundo a OMS, que estabelece mínimo diário de 15 litros.
A situação de insegurança da água e a devastação de sistemas de saneamento continuam impulsionando disseminação de doenças evitáveis, em situação agravada devido às condições de vida em campos e abrigos superlotados, má gestão de resíduos, transbordamento de esgoto e infestação de roedores.
Promessas não cumpridas
O acordo previa a libertação de reféns, desarmamento do Hamas, retirada israelense e reconstrução do território palestino. Três dias após o anúncio, o Hamas liberou os 20 reféns vivos capturados no ataque de 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 israelenses.
O Hamas, contudo, não procedeu ao desarmamento, apesar de ter anunciado a dissolução de seu órgão de governo e a entrega da liderança administrativa ao Comitê Nacional para Administração de Gaza (NCAG), liderado pelo tecnocrata Ali Shaath, aprovado pelos EUA.
O movimento efetivamente permanece no comando da segurança em Gaza, e Shaath mantém perfil discreto.
Em julho, Trump anunciou acordo para desarmar o Hamas— que havia recém eleito Khalil al-Hayya para sua liderança — que confirmou pela primeira vez a concordância com o desarmamento.
O acordo de julho, pela extensão do cessar-fogo original, previa que o Hamas se desarmasse "de maneira gradual, sequencial e limitada no tempo" vinculada a "retirada israelense, em fases". Dias depois, Netanyahu anunciou que Israel não se retiraria de nenhuma parte de Gaza até que o Hamas fosse completamente desarmado, rejeitando explicitamente o acordo anunciado por Trump.
De outro lado, Israel expandiu presença militar além dos limites acordados. Inicialmente autorizado a permanecer em 53% de Gaza sob os termos do cessar-fogo, o país agora controla aproximadamente 60-70% do território, movendo continuamente a "Linha Amarela" para oeste.
A OCHA afirmou que palestinos são proibidos de entrar na maior parte das áreas ocupadas e organizações humanitárias são obrigadas a coordenar acesso antecipadamente.
Imagens de satélite revelaram bermas de terra e fortificações se estendendo por aproximadamente 30 quilômetros, construídas pelo exército israelense desde novembro de 2025. Em junho, a OCHA documentou que essa expansão está engolindo pontos de água e instalações de saúde, restringindo ainda mais o acesso de palestinos a serviços essenciais.
Quase 1,98 milhão de palestinos — 90% da população — permanecem deslocados, confinados em área que encolheu para menos de 40% do território total do enclave, comprimindo a população total de aproximadamente 2,3 milhões em uma faixa cada vez menor de terra.
Eleições em gargalo
Enviado especial e genro de Trump, Jared Kushner, alegou em setembro, poucas semanas após encontro com Netanyahu em Tel Aviv, que impasses à implementação do plano de Trump estão diretamente conectados ao calendário eleitoral israelense.
As eleições gerais no país ocorrerão em cerca de duas semanas, em 27 de outubro — as primeiras desde o ataque de 7 de outubro de 2023 — acenando à possibilidade de levarem ao encerramento dos quase ininterruptos 17 anos de governo Netanyahu, o mais longo da história de Israel.
O pleito ocorre em meio a quatro crises interligadas e retroalimentares: a fragmentação no campo político de Netanyahu; escalada no cisma entre Israel e o Conselho da Paz, que praticamente congelou o plano de desarmar o Hamas até depois da votação; aceleração da atividade de assentamentos ilegais e situação de insegurança pela escalada de colonos na Cisjordânia; e a frente da ofensiva israelense no Líbano.
A frente governista enfrenta uma crise de impopularidade, abrindo caminho para uma liderança consistente do partido Yashar, liderado pelo ex-general Gadi Eisenkot, nas pesquisas de opinião. Levantamentos, contudo, sugerem que nenhum dos dois principais campos conseguirá alcançar maioria de 61 cadeiras no Knesset de 120 membros e assim formar governo sozinho.
Oponentes de Netanyahu o acusam de ter sidobrando com o Hamas após os ataques de 7 de outubro, ao mesmo tempo em que críticas sobre falhas de segurança e inteligência levantadas pela imprensa israelense suscitam alegações de que Netanyahu habilitou os ataques por desprezar a ameaça ou, ainda, negligenciá-la deliberadamente para que pudesse responder com medidas militares mais extremas.
Um oficial do Conselho da Paz avaliou anonimamente ao jornal The Times of Israel que o órgão tem influência limitada sobre Netanyahu antes da eleição, dada a probabilidade de devolvê-lo ao poder. O político búlgaro Nikolay Mladenov, diretor-executivo do conselgo, alertou que a eventual continuação do status quo, somada à falha de implementação do plano e ao avanço na Cisjordânia, tornaria solução de dois estados essencialmente impossível.
A vitória de qualquer alternativa a Netanyahu, porém — incluindo Eisenkot, que atualmente lidera nas pesquisas — não necessariamente sinalizaria mudança significativa de posição em relação à causa palestina ou à questão do Líbano. A maioria dos candidatos está unida em rejeitar estado palestino plenamente soberano e subscreve o conceito de zona de segurança ao norte, diferindo apenas em suas abordagens ao gerenciamento de crises e ao trato com o governo americano.