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Um conto de duas cidades: crises habitacional e migratória dividem protestos em Madrid no mesmo dia

Enquanto ativistas montaram acampamento na Puerta del Sol exigindo proteção a inquilinos após despejo de idosa, manifestantes de direita clamaram por eleições antecipadas e deportações em Ceuta.
Um conto de duas cidades: crises habitacional e migratória dividem protestos em Madrid no mesmo diaGettyimages.ru / Diego Radames/Anadolu // Matias Chiofalo/Europa Press

A capital espanhola se transformou no sábado (26) em um palco de protestos de opostos do espectro político, evidenciando as profundas divisões políticas e sociais que atravessam o país.

Enquanto dezenas de milhares de manifestantes denunciavam a crise habitacional espanhola em resposta ao dramático despejo de uma idosa de 87 anos, outro grupo de milhares protestava contra a gestão governamental do influxo migratório em Ceuta.

A coincidência temporal expõe um momento de vulnerabilidade do governo de Pedro Sánchez, sustentado em frágeis coalizões políticas que tentam equilibrar agendas aparentemente inconciliáveis, tornando-se alvo de críticas de ambos os lados.

A segurança da moradia...

Tendas, sacos de dormir e o tilintar de chaves acompanharam milhares de manifestantes que se concentraram na praça central de Puerta del Sol após marchar pelas ruas madrilenas.

Materializando uma pauta de discussões em particular voga diante dos crescentes custos de moradia na capital, os moradores da cidade foram provocados às ruas após o recente e emblemático caso de Maricarmen Abascal, uma senhora de 87 anos e deficiência de mobilidade foi despejada em uma maca do apartamento no bairro nobre de Retiro, onde viveu por 70 anos, na quarta-feira (23).

O pai de Maricarmen alugou a propriedade em 1956, e ela permaneceu ali após a morte dos pais. Em 2018, quando o edifício mudou de proprietário, o fundo de investimento Urbagestión comprou a unidade e elevou o aluguel de 500 para 2.650 euros, posteriormente reduzido para 1.650 euros — valor ainda inacessível para a pensão de Maricarmen.

As imagens da octogenária sendo despejada geraram indignação nacional instantânea. Horas depois do despejo, cerca de 10 mil pessoas tomaram as ruas em protesto, portando cartazes com dizeres como "Vergonha" e "Fora fundos abutres".

O movimento de sábado repercute o caso e sua comoção, estimando-se que 25 mil pessoas marcharam nas ruas de Madrid, de acordo com autoridades governamentais, enquanto o Sindicato de Inquilinos de Madri, organizador do protesto, reivindicou mais de 300 mil participantes.

A cientista política Cristina Monge, citada pelo jornal britânico The Guardian, descreveu o despejo como "o canário na mina de carvão" — o alerta de um perigo maior —, representando apenas a ponta do iceberg de um mercado imobiliário completamente descolado da renda média espanhola.

O jornal espanhol El País observou que os aluguéis subiram 80% em uma década, enquanto o custo das casas aumentou 63%. O Banco da Espanha estimou uma carência de 550 mil residências no país, com Madri, Barcelona e Valencia concentrando parcela substancial desse déficit.

Monge lembrou que o tema habitacional esteve no centro do movimento 15-M, em 2011, que remodelou a política espanhola.

"Agora, 15 anos depois, a moradia continua sendo a principal preocupação dos espanhóis. E ainda há despejos todos os dias, cerca de 25 mil por ano".

O relator especial da ONU sobre direito à moradia, Koldo Casla, pediu que a Espanha emende suas leis, questionando como o lucro de uma empresa imobiliária foi priorizada sobre o direito de Maricarmen à moradia. Sánchez, em comínio realizado no município de Getafe neste domingo (27), acenou às demandas da pauta de moradia, mencionando o caso de Maricarmen.

...e a segurança da fronteira

Paralelamente, uma manifestação foi organizada no mesmo dia pela plataforma de direita Sociedad Civil Española, com apoio do Partido Popular (PP) e do Vox de extrema-direita. A mobilização clamou contra a resposta do governo da Espanha diante do incidente migratório em Ceuta, reunindo 20 mil pessoas, segundo autoridades, ou 180 mil conforme os organizadores.

Manifestações já haviam tomado cidades espanholas no dia 2 de setembro, convocadas por conselhos municipais onde o PP e o Vox governam ou possuem popularidade significativa.

Os manifestantes exigiam eleições antecipadas até meados de novembro e acusavam o presidente do Governo Espanhol Pedro Sánchez de negligência na gestão do episódio ocorrido no final de julho.

Na ocasião, mais de 70 mil migrantes atravessaram de Marrocos para a cidade autônoma espanhola de Ceuta, localizada na costa mediterrânea da África, como um enclave espanhol no continente.

Embora a maioria tenha retornado, as autoridades de Ceuta estimam que cerca de 13 mil pessoas permaneceram na cidade, alojadas em instalações provisórias ou vivendo nas ruas; o governo central da Espanha, porém, aponta que a cifra é consideravelmente menor.

O sentimento hostil dos locais contra migrantes após o episódio têm ganhado um direcionamento étnico-religioso, visível nos protestos deste sábado em placas de manifestantes com clamores contra o Islã e até pelo retorno das Cruzadas Templárias. O Observatório sobre Racismo e Xenofobia da Espanha (OBERAXE), órgão governamental vinculado ao Ministério da Inclusão, Segurança Social e Migrações, detectou mais de 101 mil conteúdos de discurso de ódio nas redes sociais em agosto, alta de 76% em relação a julho.

O líder do Vox, Santiago Abascal, citado pelo jornal Al Jazeera, exigiu a deportação de todos os que chegaram em Ceuta no final de julho aos seus países de origem, acusando Sánchez de ser "servo de Marrocos".

"Um sentimento generalizado de que o governo não agiu responsavelmente; houve abandono de dever, negligência extrema", declarou o secretário-geral do PP, Miguel Tellado.

A pressão sobre o governo se intensificou após relatório policial denunciar uma estratégia deliberada para colapsar a fronteira, avaliando o envolvimento ativo das forças de segurança do Marrocos em descarte de uma hipótese de fluxo espontâneo, somada a uma acusação de "total permissividade" dos agentes de fronteira no lado marroquino.

Enquanto Sánchez nega provas concretas de uma crise orquestrada pelo Marrocos, mascobre por ações concretas e esclarecimentos diante de um controle migratório que "falhou", conforme afirmou na quarta-feira (23) às margens da Assembleia Geral da ONU, o governo do Marrocos acusou a Espanha de obstruir o retorno dos migrantes, na sexta (25).

O jornal El País reportou também no sábado (26) que o governo de Sánchez planeja aprovar um decreto para acelerar seu retorno.