
Israel apaga ficha criminal de soldado que matou palestino ferido

O presidente de Israel, Isaac Herzog, limpou neste domingo (20) a ficha criminal do ex-soldado Elor Azaria, condenado por homicídio culposo após matar a tiros um palestino ferido e incapacitado em Hebron, em 2016.
O caso remonta a 2016, quando Azaria — então sargento e socorrista das Forças de Defesa de Israel (FDI) — foi filmado atirando em Abdel Fattah al-Sharif, suspeito de um ataque com faca, no bairro de Tel Rumeida, em Hebron.

Segundo relatos do incidente, al-Sharif e outro palestino, Ramzi Aziz al-Tamimi al-Qasrawi, aproximaram-se de um posto militar israelense e esfaquearam um soldado israelense, ferindo-o levemente. Qasrawi foi, em seguida, baleado e morto pelas forças israelenses. Al-Sharif foi baleado, sofreu ferimentos graves e foi deixado caído no chão. Vários minutos depois, Azaria aproximou-se dele e disparou contra a sua cabeça.
O disparo foi filmado por um ativista de direitos humanos. Azaria foi condenado por homicídio culposo e sentenciado a 18 meses de prisão, apesar de a promotoria ter solicitado uma pena de três a cinco anos. Sua pena foi posteriormente reduzida para 14 meses, e ele foi libertado em maio de 2018, após cumprir nove meses.
As imagens de Azaria atirando em um palestino já incapacitado provocaram indignação internacional. O Ministério das Relações Exteriores da Palestina classificou o ato como uma "execução extrajudicial" e um crime de guerra, afirmando que o vídeo "derrubou todos os slogans entoados pelos líderes da ocupação sobre a ética do exército israelense".
O grupo israelense de direitos humanos B’Tselem descreveu o episódio como uma "execução sumária em plena rua". O escritório de direitos humanos da ONU classificou a sentença de Azaria como "excessivamente branda", alertando que ela reforçaria "a cultura da impunidade".
O caso também dividiu a opinião pública israelense e contribuiu para tensões entre líderes políticos e as forças armadas, levando o então ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, a renunciar posteriormente ao cargo.
Apesar da controvérsia, o gabinete de Herzog anunciou no sábado que ele reduziu o prazo restante para que a ficha de Azaria pudesse ser limpa, efetivamente eliminando o registro.
"O presidente acredita que o conjunto das circunstâncias, o transcurso do tempo e o arrependimento demonstrado justificam permitir que ele inicie um novo capítulo em sua vida", afirmou o Gabinete do Presidente.
Foi acrescentado que Azaria, que tinha 20 anos quando foi condenado, expressou pesar em seu pedido. Isso contrasta com comentários feitos por Azaria em sua primeira grande entrevista após deixar a prisão, quando disse não sentir "nenhum arrependimento", argumentando que agiu daquela forma por acreditar que o agressor ainda representava uma ameaça.
Reações
O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, saudou a decisão, afirmando que "cancelar a ficha criminal de alguém que matou um terrorista" o deixa "muito feliz". O ministro da Defesa, Israel Katz, classificou a medida como uma "decisão humana e digna".
As Forças de Defesa de Israel (FDI), no entanto, opuseram-se à medida. A condenação de Azaria foi um caso raro em que um tribunal militar israelense decidiu contra um soldado por uma ação letal em combate. Os promotores militares argumentaram que Azaria buscava vingança, em vez de reagir a uma ameaça ativa.
Segundo a imprensa israelense, o chefe do Estado-Maior das FDI, Tenente-General Eyal Zamir, opôs-se formalmente ao perdão de Azaria, argumentando que ele não havia assumido total responsabilidade nem demonstrado arrependimento genuíno.
Questionamentos sobre a responsabilização militar
As mortes extrajudiciais e os assassinatos seletivos perpetrados por forças israelenses contra palestinos têm sido, há muito tempo, alvo de escrutínio internacional. Grupos de direitos humanos palestinos e internacionais acusaram as forças israelenses de realizar mortes ilegais e extrajudiciais. O governo sustenta que suas forças agem em conformidade com a lei contra indivíduos envolvidos no planejamento ou na execução de ataques.
Um relatório do Escritório de Direitos Humanos da ONU apontou que forças israelenses e colonos mataram 1.096 palestinos na Cisjordânia desde 7 de outubro de 2023 — sendo um em cada cinco deles criança —, observando que muitos casos levantaram preocupações quanto a "execuções extrajudiciais e outros usos ilegais da força".


