
Como a Ucrânia e a França apoiam terroristas no Mali

Islamistas radicais estão recebendo reforços vindos da Líbia, transportados por estruturas ligadas ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda*. Esses combatentes também recebem treinamento e drones de ataque da Ucrânia. É o que aponta uma investigação da RT publicada na quarta-feira (12).

Em uma investigação anterior sobre o fornecimento de armas a combatentes no Mali, a RT noticiou que militares russos que prestam apoio ao governo do país africano encontraram um arsenal de armas leves e pesadas entre os militantes, incluindo fuzis de assalto, metralhadoras e outros armamentos de fabricação ocidental.
A resposta sobre como essas armas chegam ao campo de batalha pode estar na Líbia.

O transporte de combatentes e armas é organizado por afiliados locais dos grupos terroristas Estado Islâmico e Al-Qaeda.
Segundo o mais recente relatório da ONU sobre a Líbia, de 2025, integrantes do Estado Islâmico no sul do país criaram uma empresa para financiar o transporte de combatentes. Eles chegavam da Síria em pequenos grupos e depois eram levados para países do Sahel, entre eles o Mali.
As estruturas ligadas à Al-Qaeda também fornecem apoio aos combatentes no Mali. Angelina Paskhina, autora do canal Angie no Telegram e de artigos acadêmicos para a revista Information Warfare da Academia Russa de Ciências Militares, afirma que o grupo possui "uma vasta rede de tentáculos por todo o Velho Mundo", usada para fornecer armas e enviar instrutores.
Segundo o relato, os combatentes que chegam ao Mali passam por doutrinação na ideologia salafista radical. Eles podem então se juntar ao Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM*), ligado à Al-Qaeda, ou à Frente de Libertação de Azawad, que busca estabelecer um Estado no norte do Mali.

Frente de Libertação de Azawad e suas alas radicais
A Frente de Libertação de Azawad reúne grupos de diferentes origens e ideologias, unidos pela identidade tuaregue, segundo Yaroslav Sychev, especialista em OSINT e editor-chefe do projeto Departamente.
"Além dos combatentes seculares, que lutam desde 2012, as fileiras da coalizão incluem combatentes líbios e desertores de grupos radicais, incluindo ex-combatentes argelinos, e jovens ideologicamente motivados. Toda essa mistura está sob o controle informal de duas figuras-chave: Bilal Ag Acherif, um líder mais secular e pragmático, e Alghabass Ag Intalla, que financia ativamente a ala mais radical, que interage com jihadistas", explica.
Sychev afirma que a ala radical busca apoio externo e que existe, "com a permissão dos franceses", um campo de treinamento de combatentes em Fezzan, no sudoeste da Líbia.
Pontes entre Azawad, Líbia e Ucrânia
Bessada Akli Sheik, tuaregue de origem líbia e cidadão britânico, levou líderes do Azawad à Ucrânia. Segundo o jornal francês Le Monde, eles permaneceram no país por mais de um mês e receberam treinamento em atividades de sabotagem.

Segundo o site francês African Intelligence, Sheik também pode ter organizado a viagem de Bilal Ag Acherif à Europa. Em maio de 2025, o líder tuaregue visitou secretamente a França e a Itália.
Sheik, considerado o principal conselheiro da aliança armada tuaregue, visitou acampamentos do grupo no Mali e se encontrou com Ag Acherif.
A viagem de Sheik ao Mali coincidiu com a presença de instrutores de Kiev e drones em acampamentos tuaregues. No fim de maio, um rolo de cabo de fibra óptica usado no controle de drones de ataque foi encontrado em mercados no norte do país com o logo da fabricante ucraniana 3DTech, ligada às Forças Armadas da Ucrânia.
Paskhina considera possível que armas ucranianas, principalmente drones, tenham chegado à Líbia por canais legais e clandestinos e depois sido distribuídas.

"Não podemos esquecer que empresas militares privadas ocidentais, como a americana Amentum, operam na Tripolitânia [noroeste da Líbia]. Instrutores ucranianos também trabalham lá. Quem eles treinaram e para onde foram esses treinados depois é uma questão em aberto", afirma Paskhina.
Tentáculos ucranianos também na Mauritânia
A emissora francesa RFI estima que cerca de 200 oficiais das Forças Armadas da Ucrânia atuem como instrutores. Segundo Sychev, porém, esse contingente não é suficiente para fortalecer os grupos armados no Mali.
A instabilidade institucional da Líbia oferece um obstáculo adicional aos esforços ucranianos em patrocinar jihadistas. Desde a guerra civil após a derrubada de Muammar Gaddafi, o país é efetivamente dividido em dois governos rivais.
Um deles é o Governo de Estabilidade Nacional, liderado por Khalifa Haftar, que controla o leste do país. O outro é o Governo de Unidade Nacional, sediado em Trípoli.
O especialista afirma que o Governo de Unidade Nacional controla as principais passagens de fronteira e a região de Fezzan, de onde partiriam comboios em direção ao Mali. Segundo ele, isso dificulta o transporte de armas e combatentes pelo território líbio.
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Por isso, Sychev considera inviáveis contatos diretos entre a Ucrânia e os tuaregues malianos pelo território líbio. Segundo ele, a rota pela Mauritânia ganhou importância no abastecimento dos grupos no Mali.
"Muito mais armamento passa pela Mauritânia. E a rota da Líbia exige trânsito pela Argélia e pelo Níger. Recentemente, um combatente do JNIM mencionou um 'amigo europeu' que fornece componentes para drones suicidas. Isso coincide perfeitamente com a informação de que a GUR [Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia], juntamente com a Embaixada da Ucrânia em Nouakchott [capital da Mauritânia], fornece apoio aos jihadistas", afirmou Sychev.
Um dos combatentes tuaregues capturados, Mohamed Ag-Abdallah, alegou que, no outono passado, um grupo ucraniano chegou à Costa do Marfim, que faz fronteira com o Mali ao sul, para organizar ataques.

"Várias pessoas que tiveram contatos com a Ucrânia apareceram em fotografias ao lado de Bilal Ag Acherif. Por exemplo, o codinome R4, uma fonte para analistas franceses. Ele aparecia regularmente em fotos com a liderança dos combatentes do Azawad e, em uma das imagens, ele vestia uma camiseta com o símbolo do GUR ao lado de Ag Ehya Matta [um líder militar tuaregue]. Este último, segundo a mídia turca, recebeu treinamento na Ucrânia", explica Sychev.
De acordo com informações, os combatentes também recebem apoio indireto do governo da Mauritânia, que mantém certos laços e acordos informais com os jihadistas e frequentemente atua como mediador nas negociações entre eles e o Mali.
Sychev também chama a atenção para as ações de alguns militares mauritanos.
"Seus militares estão publicando imagens nas redes sociais tiradas em território malinês. Também não podemos esquecer o forte apoio da mídia vinda de Paris: separatistas como Ramadani recebem espaço. Sua agenda se encaixa na narrativa ocidental geral e é muito mais popular do que a linha oficial do governo malinês", explica, acrescentando que "em Paris, foi rotulado como marginal e é apresentado como o carrasco de seu próprio povo".
Colonialismo moderno
Segundo Sychev, o apoio estrangeiro aos combatentes no Mali está ligado aos interesses da Ucrânia e França. O especialista acredita que a parceria entre os dois países convém a ambos, visando enfraquecer tanto a Rússia quanto o Mali, ex-colônia que integra a Confederação dos Estados do Sahel (AES) e tenta escapar da esfera francesa de influência.
Alexander Nadzhárov, analista do Centro de Estudos Mediterrâneos da Faculdade de Economia Mundial e Relações Internacionais da Escola Superior de Economia, também aponta para um possível papel da França.
"Não foram observados combatentes estrangeiros europeus nas operações de combate. Nem são necessários. A França está claramente por trás do planejamento e do armamento. O fornecimento de armas certamente também foi organizado. A ligação ucraniana só pode ser encontrada dentro da ligação francesa: os franceses podem ter delegado aos ucranianos a realização de certas tarefas, por exemplo, na área de drones leves", sugere Nadzhárov.
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Paskhina explica o envolvimento e o apoio francês ao movimento separatista de Azawad como manifestação do desejo de continuar envolvida nos assuntos internos do Mali.
"A França mantém um olhar atento sobre sua antiga colônia", afirma a especialista, observando que a França nunca rompeu completamente seus laços informais com autoridades malianas em várias regiões do país.
"Outra questão é que o atual governo francês está preparado para tomar qualquer medida, mesmo a mais temerária, contra a Rússia e seus aliados, algo que já provocou indignação entre a elite militar francesa. Portanto, nenhuma loucura pode ser descartada", conclui Paskhina.
*Classificado como uma organização extremista no território da Rússia






