
Mauro Vieira acusa EUA de pressionar Brasil por indicação de embaixador e cita eleição — Clarín

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que os Estados Unidos usaram a suspensão do visto da embaixadora brasileira como forma de pressionar Brasília a aceitar o nome indicado por Washington para comandar sua representação diplomática no país. A declaração foi feita em entrevista exclusiva ao jornal argentino Clarín.
Segundo o chanceler, os Estados Unidos permaneceram mais de um ano e meio sem embaixador no Brasil antes de enviarem ao Senado norte-americano o nome de um candidato para o posto. Vieira afirmou que, cerca de 30 dias depois, Washington realizou publicamente a consulta ao governo brasileiro sobre a indicação.

Para o ministro, a forma como o processo ocorreu contrariou as práticas previstas pela Convenção de Viena. "A consulta tem que ser feita de forma sigilosa e não pública", afirmou Vieira, ao acrescentar que o acordo internacional não estabelece prazo para que um país conceda o aval a um embaixador estrangeiro.
Vieira disse ainda que o pedido sequer havia sido levado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, o governo brasileiro não tinha concluído a análise da indicação quando houve a suspensão do visto da representante do Brasil.
Chanceler associa episódio a pressões sobre Brasília
Na avaliação de Vieira, o impasse diplomático não pode ser analisado de forma isolada. O ministro citou declarações de autoridades dos Estados Unidos e do Departamento de Estado sobre o sistema eleitoral brasileiro, além de pedidos relacionados a visitas ao país e ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
"Foi demais. A suspensão da embaixadora do Brasil foi para pressionar a aceitação desse candidato, mas a Convenção de Viena não estabelece prazos para a concessão do agrément", declarou.
Questionado sobre a atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Vieira afirmou que as medidas não se limitam ao chefe da diplomacia dos EUA. "É todo o governo norte-americano, incluindo Marco Rubio", disse o chanceler.
Vieira afirmou ter tratado do tema diretamente com Rubio em diferentes ocasiões, incluindo duas conversas em Washington. Segundo ele, os atritos começaram com iniciativas destinadas a interromper o processo judicial contra Bolsonaro.
O ministro classificou essas ações como interferência nos assuntos internos brasileiros e afirmou que o Executivo não poderia atender a pedidos para interromper processos judiciais. "No Brasil isso não pode ser feito porque os Poderes são independentes", declarou.

