EUA abrem audiência pública sobre tarifaço contra o Brasil; agronegócio e Flávio Bolsonaro estão entre os participantes

Representantes brasileiros argumentarão que sobretaxa prejudica consumidores americanos e não resolve questões investigadas pelo USTR sobre Pix, etanol e propriedade intelectual; governo já encaminhou defesa oficial.

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) promove a partir desta segunda-feira (6) uma audiência pública para discutir a imposição de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.

A consulta, realizada em Washington, representa a etapa final de uma investigação conduzida sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, instrumento utilizado pelo governo americano para avaliar e eventualmente punir práticas comerciais estrangeiras consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos.

A decisão definitiva sobre a aplicação das sobretaxas, que podem alcançar 25% e totalizar aproximadamente 40% em alguns produtos, deverá ser anunciada até 15 de julho.

Disputa multisetorial

A investigação abrange diversos temas que conectam questões comerciais, regulatórias e ambientais. Entre os principais pontos sob análise estão o sistema de pagamentos eletrônicos brasileiroo Pix —, tarifas classificadas pelos americanos como injustas e preferenciais, medidas anticorrupção, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

A pauta envolve diretamente o agronegócio, com participação confirmada de representantes de setores exportadores como arroz e café. O cronograma inclui ainda a presença do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que discursará no segundo dia do evento defendendo a suspensão das tarifas, argumentando que sua manutenção fortaleceria politicamente o governo brasileiro em meio ao cenário eleitoral.

Empresas e entidades brasileiras construíram estratégias conjuntas com associações americanas para demonstrar que o tarifaço prejudicaria não apenas o Brasil, mas também consumidores e empresas dos Estados Unidos, segundo levantamento do jornal O Globo, publicado neste sábado (4).

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) ressalta que mais de 80% do comércio bilateral no setor ocorre entre companhias coligadas, caracterizando uma relação complementar que, se taxada, afetaria a própria indústria americana em áreas como infraestrutura e energia.

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A WEG, segunda maior fabricante de motores elétricos dos EUA, destacará seus 2.300 funcionários no país e sua integração em cadeias produtivas estratégicas. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, representada pelo ex-presidente da Organização Mundial do Comércio Roberto Azevêdo, aproximadamente 35% das manufaturas exportadas pelo Brasil seriam atingidas pelas novas tarifas.

Posicionamento do governo Lula

O governo brasileiro apresentou defesa oficial, atualizada na sexta-feira (3), sustentando que a investigação não comprovou violação à legislação americana e que as tarifas propostas não solucionariam as preocupações levantadas.

Em documento assinado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, o Itamaraty argumenta que o USTR identifica divergências sobre políticas públicas brasileiras sem demonstrar como elas restringem efetivamente o comércio americano.

Especificamente sobre o Pix, o governo defende que o sistema opera em condições abertas, não discrimina empresas estrangeiras e permitiu que companhias como Visa e Google atuassem normalmente.

Entidades setoriais como o Conselho dos Exportadores de Café reforçam que o Brasil, maior produtor mundial, fornece produtos essenciais ao maior consumidor global, e que tarifas sobre o café brasileiro já demonstraram capacidade de pressionar a inflação americana sobre o produto em níveis até oito vezes superiores à média geral.