
Flávio envia carta pedindo que EUA repense tarifaço contra Brasil: 'considero meu dever'

O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, enviou nesta terça-feira (2) uma carta ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, com quem se reuniu na semana passada.
No documento, Flávio pede que os Estados Unidos não imponham tarifas ao Brasil, citando possível impacto adverso na população. "Considero meu dever compartilhar com o senhor as reais condições econômicas enfrentadas pelo povo brasileiro neste momento", escreve.

Na nota, o senador também agradece a decisão de Washington de designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. "A esmagadora maioria do povo brasileiro celebrou essa medida, ainda que ela não tenha agradado ao nosso governo atual", pontuou.
O portal g1 obteve acesso ao documento, que foi redigido em inglês. Confira a tradução na íntegra, conforme disponibilizado pelo veículo:
Prezado Secretário Rubio,
Escrevo, antes de tudo, para agradecer a cordialidade com que fui recebido durante minha recente visita a Washington. Nossa conversa reforçou minha convicção de que a amizade entre nossas duas nações se baseia em valores compartilhados e em uma visão comum para a segurança e a prosperidade do Hemisfério Ocidental.
Sou especialmente grato por sua decisão de designar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. Essas duas facções estão entre os empreendimentos criminosos mais violentos do Brasil, e suas redes de drogas, armas e dinheiro se estendem muito além de nossas fronteiras — alcançando também o seu país. A esmagadora maioria do povo brasileiro celebrou essa medida, ainda que ela não tenha agradado ao nosso governo atual. Trata-se de um passo decisivo para proteger os cidadãos honestos em todo o nosso hemisfério compartilhado.
Escrevo também, contudo, para manifestar minha preocupação com a recente determinação da Seção 301 anunciada pelo Representante de Comércio dos Estados Unidos. Embora eu compreenda que nenhuma tarifa tenha sido imposta até o momento — a determinação apenas inicia um processo de consulta pública e etapas técnicas que culminarão em um prazo legal em julho — considero meu dever compartilhar com o senhor as reais condições econômicas enfrentadas pelo povo brasileiro neste momento.
O Brasil vive um grave processo de deterioração fiscal e econômica. Nossa dívida bruta do governo geral ultrapassou agora 80% do PIB pela primeira vez desde a pandemia, alcançando R$ 10,4 trilhões em abril — e as projeções de mercado apontam para um recorde de 83,7% até o fim do ano. As contas públicas continuam registrando déficit primário, enquanto os pagamentos de juros da dívida atingiram níveis recordes. O peso sobre as famílias comuns é ainda mais alarmante: um recorde de 81,7 milhões de brasileiros está atualmente inadimplente — quase metade da população adulta —, com os compromissos financeiros consumindo uma parcela sem precedentes da renda familiar. No setor empresarial, as recuperações judiciais — equivalentes brasileiras ao Chapter 11 dos Estados Unidos — dispararam para um recorde histórico de 2.466 empresas em 2025, enquanto 8,7 milhões de contribuintes empresariais estavam inadimplentes no início de 2026. Cada um desses números representa um recorde histórico.
Nesse contexto, a imposição de novas tarifas causaria sérios danos ao povo brasileiro — justamente os cidadãos que veem os Estados Unidos como um parceiro e amigo. Por isso, escrevo para reiterar formalmente o pedido que lhe fiz pessoalmente: que os Estados Unidos não imponham tarifas ao Brasil.
Como já afirmei, estou confiante de que serei eleito Presidente do Brasil neste mês de outubro. Caso essa seja a vontade do meu povo, estou preparado para colocar minha equipe de transição imediatamente à sua disposição, para que possamos concluir, o mais rapidamente possível, um amplo acordo de comércio e investimentos benéfico para ambas as nossas nações — construído sobre os princípios dos mercados livres, do respeito mútuo e da aliança estratégica que nossos povos merecem.
Permaneço inteiramente à sua disposição e espero aprofundar ainda mais a amizade entre o Brasil e os Estados Unidos.
Entenda:
Em 15 de julho de 2025, o governo Donald Trump abriu uma investigação comercial contra o Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. A alegação foi que políticas brasileiras em áreas como comércio digital, meios de pagamento eletrônicos, propriedade intelectual e acesso ao mercado prejudicariam interesses americanos.

Na segunda-feira (1º), o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu a investigação e recomendou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre diversas importações brasileiras. O órgão afirmou que as práticas analisadas seriam "irracionais" e criariam barreiras ao comércio dos EUA.
A proposta ainda passará por consulta pública nos EUA e audiência marcada para julho antes de uma decisão final. Entre os temas citados pelos americanos estão o Pix, o comércio digital, a proteção à propriedade intelectual e decisões brasileiras relacionadas a plataformas digitais e remoção de conteúdos online.
