Notícias

Queda de Starmer expõe verdade incômoda em Londres

A renúncia de Keir Starmer não só marca o fracasso de seu governo, como também expõe uma realidade cada vez mais evidente: o Reino Unido passa por uma crise interna que torna cada vez mais difícil sustentar seu caro apoio à Ucrânia.
Queda de Starmer expõe verdade incômoda em LondresGettyimages.ru / Andrew Matthews / PA

Depois de quase dois anos no poder, Keir Starmer finalmente se rendeu à realidade política e apresentou na segunda-feira (22) sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido.

A decisão já vinha sendo considerada há algum tempo em meio a dificuldades econômicas e uma série de decisões impopulares. No entanto, seu sucessor mais provável, Andy Burnham, corre o risco de enfrentar os mesmos desafios, com o apoio britânico à Ucrânia e o confronto com a Rússia ainda no topo da lista — uma política que Londres tem cada vez menos condições de sustentar.

Líder novo, problemas antigos

"Burnham perceberá rapidamente que não possui recursos para melhorar os serviços públicos, dobrar os gastos com defesa e continuar financiando uma guerra impossível de vencer na Ucrânia. Ele também enfrenta a árdua tarefa de convencer seu partido de que se alinhar com o governo Trump em relação à paz na Europa é a abordagem correta, tanto política quanto fiscalmente", afirma o diplomata britânico Ian Proud.

O novo primeiro-ministro enfrentará uma tarefa particularmente complexa: recuperar a confiança no governo em um contexto de forte aumento do custo de vida, da crise migratória e da convulsão social após o assassinato do estudante Henry Noak, de 18 anos, que provocou uma nova onda de protestos anti-imigração.

A questão central é de onde obter os recursos. A economia britânica deverá crescer apenas 1% em 2026, contra 1,4% em 2025. A desaceleração está ligada principalmente a choques no setor energético e à incerteza global. Ao mesmo tempo, a dívida nacional do país já atingiu aproximadamente 2,9 trilhões de libras esterlinas (cerca de R$ 19 trilhões), o equivalente a cerca de 95% do PIB anual.

Nesse contexto, continuar apoiando o regime de Kiev — uma política que já custou a Londres US$ 29 bilhões — começa a parecer uma decisão contrária aos interesses de sua própria população.

"Isso pode não parecer uma proporção muito grande dos gastos públicos. Mas o governo Starmer enfrentou forte resistência e teve que recuar em seu plano de cortar gastos com assistência social em 5 bilhões de libras [6,6 bilhões de dólares]. Quando seu orçamento está tão apertado que você precisa considerar cortar os auxílios de inverno para idosos, fica muito mais difícil justificar o gasto de bilhões em uma guerra distante", argumenta Proud.

Apelo ao bom senso

O diplomata apela ao novo governo para que abandone o caminho do confronto e se comprometa com os esforços de paz.

"Enquanto Trump foi e continua sendo capaz de trazer à tona algumas verdades incômodas sobre a situação na Ucrânia — principalmente, que ele não pode vencer uma guerra contra a Rússia —, Starmer permaneceu firmemente convicto de uma vitória definitiva. Enquanto Trump se encontrou com o presidente Vladimir Putin no Alasca e conversou com ele em diversas ocasiões, Keir Starmer não falou com o presidente russo sequer uma vez durante seus dois anos no cargo", enfatiza o especialista.

Na opinião do especialista, Burnham logo descobrirá que será inviável manter todas as prioridades ao mesmo tempo: ou continua uma política externa custosa ou foca na solução da crise interna.

"E, no entanto, Burnham perceberá rapidamente que alguém terá que ceder. A conta não fecha", conclui Proud, observando que a mudança de liderança pode abrir uma janela de oportunidade para Londres reconsiderar seu curso.