Seis premiês em dez anos: por que o Reino Unido não consegue estabilizar seu governo?

Saída de Keir Starmer aprofunda crise política iniciada após o referendo do Brexit.

O Reino Unido atravessa uma crise de poder. Nos últimos dez anos, o país teve seis primeiros-ministros, sendo que um deles permaneceu no cargo por apenas um mês e meio. A constante troca de lideranças provocou a falta de políticas internas sustentáveis e coerentes, contribuindo para a crise econômica.

Keir Starmer anunciou nesta segunda-feira (22) sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro, diante da crescente pressão dentro de seu próprio governo, onde vários ministros teriam pedido sua saída. Starmer assumiu o poder há menos de dois anos e foi o sexto primeiro-ministro do país em uma década.

Histórico

A crise política no Reino Unido começou há dez anos e seu marco inicial pode ser considerado o referendo sobre a saída da União Europeia, realizado em 23 de junho de 2016, quando a maioria dos eleitores apoiou a decisão que deu origem ao Brexit. Após o resultado, o então primeiro-ministro David Cameron anunciou sua renúncia, iniciando um período de instabilidade no país.

Ao longo dessa década, o Reino Unido passou por seis mudanças de primeiro-ministro, um conflito constitucional relacionado à suspensão do Parlamento, sucessivas crises internas nos partidos, eleições antecipadas, o fracasso da estratégia fiscal de 2022, o rompimento do modelo anterior de relações com a UE e, posteriormente, uma tentativa parcial de restabelecer esses laços.

Primeiros-ministros

Dos seis primeiros-ministros que ocuparam o cargo, apenas o mais recente pertence ao Partido Trabalhista. Entre 2010 e 2024, os conservadores governaram o Reino Unido. Quando ficou evidente que os conservadores não haviam conseguido resolver os principais problemas do país ao longo de 14 anos nem fortalecer a economia e a posição política britânica, o Partido Trabalhista, liderado por Starmer, conquistou uma vitória eleitoral expressiva.

Nos últimos anos, o cargo foi ocupado por:

Um país ingovernável?

Em meio à evidente crise de governabilidade, além da constante troca de primeiros-ministros, o Reino Unido também registra uma elevada rotatividade ministerial, tanto dentro dos governos quanto a cada mudança em Downing Street.

Essa substituição frequente de ministros afeta significativamente as políticas internas e externas do país, já que reformas são iniciadas, interrompidas e retomadas repetidamente, dificultando a obtenção de resultados concretos.

Damian Green, integrante do gabinete de Theresa May, tentou explicar por que primeiros-ministros britânicos e membros de seus governos acabam renunciando sem enfrentar problemas nacionais importantes. Segundo ele, May demonstrou interesse por questões sociais, como a violência doméstica, nos primeiros meses de governo. No entanto, após perder parte do apoio parlamentar, passou a concentrar seus esforços exclusivamente na aprovação de um acordo para o Brexit.

Green afirmou que a pressão constante e o temor de perder rapidamente o cargo impedem os líderes de implementar reformas de longo prazo. Já Jill Rutter, ex-funcionária do governo britânico, observou que encontrar equilíbrio torna-se mais difícil quando se está "constantemente caminhando sobre gelo fino".

O que aconteceu com a política do país?

Durante a atual crise política, a política interna tornou-se mais fragmentada e conflituosa. O Brexit não resolveu a questão europeia, mas a transformou em um debate permanente sobre o custo da soberania, a migração, o comércio, os direitos das nações que compõem o Reino Unido e a qualidade da governança. O padrão de vida piorou e os episódios de violência aumentaram.

Ao mesmo tempo, a política externa tornou-se mais ativa e também mais dependente da necessidade de compensar fragilidades internas. O Reino Unido busca reforçar sua posição na OTAN, ampliar o apoio ao regime de Kiev, fortalecer sua indústria de defesa e promover uma reaproximação seletiva com a União Europeia, utilizando essas áreas para demonstrar sua relevância na política internacional.

Dessa forma, governos que se sucedem rapidamente mostram dificuldade para implementar reformas internas consistentes, mas tomam decisões rápidas para destinar bilhões à defesa e à ajuda à Ucrânia. Até junho de 2026, Londres havia destinado um total de 21,8 bilhões de libras esterlinas (R$ 149,07 bilhões) ao regime de Kiev.

O que acontecerá após a saída de Starmer?

Um dos problemas é que a saída de Starmer, assim como a de seus antecessores, não resolverá os desafios estruturais do país. Isso ficou evidente na transição de poder dos conservadores para os trabalhistas em 2024.

Na ocasião, o novo governo herdou um país com confiança enfraquecida nas instituições, conflitos migratórios não resolvidos, tensões entre o centro e as regiões periféricas, uma relação com a União Europeia reestruturada, mas ainda instável, e os custos econômicos de longo prazo do Brexit. Em outras palavras, a crise do partido governante terminou em 2024, mas a crise estrutural do Estado britânico permaneceu.

A renúncia de Starmer também levanta a questão sobre quem poderá sucedê-lo como primeiro-ministro.

Um dos nomes apontados é Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester até quinta-feira (19), quando assumiu uma cadeira no Parlamento pelo distrito de Makerfield. Atualmente, Burnham é considerado uma das figuras mais populares do Partido Trabalhista.

Outra possível candidata é Angela Rayner, deputada que ocupou o cargo de vice-primeira-ministra até setembro de 2025. Ex-representante do sindicato do setor público Unison, ela foi uma defensora da Lei dos Direitos Trabalhistas e conta com apoio dentro do partido.