Maior especialista em PCC do Brasil teme ações militares secretas dos EUA

Promotor Lincoln Gakiya, com vasta experiência no combate ao crime organizado, afirma que classificação do PCC e CV como terroristas pelo governo Trump não ajuda e pode provocar "danos colaterais grandes para a população".

Apesar de considerar remota, o promotor Lincoln Gakiya vê a possibilidade de intervenção dos EUA no Brasil, após o governo de Donald Trump classificar as facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. "Já aconteceu em vários lugares do mundo", declarou, nesta sexta-feira (29), em entrevista à Rádio Nacional.

O ponto crítico é que a legislação norte-americana, após a classificação, autoriza esse tipo de operação. "Permite que se façam, inclusive, ações secretas de natureza militar fora do território norte-americano e sem anuência do Estado onde essas operações serão realizadas", afirmou.

"Ocorreu aqui na Venezuela e no próprio México, ainda em que pese ter a participação do governo mexicano. A atuação dos EUA (no México) para capturar um líder do cartel mexicano causou danos colaterais grandes para a população mexicana, para os civis", completou.

Outro destaque é o fracasso destas investidas norte-americanas. "Já classificaram essas organizações criminosas mexicanas, venezuelana, de El Salvador como terroristas e isso não diminuiu o poder dessas organizações que, inclusive, agem dentro dos EUA", destacou.

Classificação perigosa

Gakiya, que atua no Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, ainda argumentou que o apoio a essa iniciativa tem caráter político. 

"Não vejo, em que pese as pessoas estarem defendendo isso por uma politização do tema, o que pragmaticamente isso vai beneficiar", disse.

Para o promotor, o caminho para lidar com o problema das facções pode envolver cooperação internacional, algo que já existe. Agora, com a classificação como terroristas, isso pode inclusive prejudicar trabalhos em andamento. 

"A CIA (Central de Inteligência dos EUA) passa a agir nesses casos e também os militares. Não só mais o FBI a DEA (sigla em inglês para "Administração de Repressão às Drogas") e outras polícias. Isso pode de fato prejudicar a cooperação que já existe. É um pouco perigoso para o Brasil, na minha opinião, essa classificação", disse.

Outra questão relevante é que a legislação brasileira, que segue padrão das Nações Unidas, define como terrorismo ações com motivação ideológica, o que não há no caso de PCC e CV.