As autoridades das Maldivas continuam investigando a causa da morte dos cinco mergulhadores italianos que faleceram na semana passada em um acidente durante uma imersão em cavernas submarinas no atol de Vaavu. As mortes foram divulgadas na quinta-feira (14), pelo país das vítimas.
Segundo a Reuters, o principal porta-voz do Gabinete do presidente das Maldivas, Mohamed Hussain Shareef, afirmou que o governo local havia concedido ao grupo a autorização necessária para investigar corais moles no local de Devana Kandu. No entanto, reconheceu que desconhecia que se tratava de mergulho em cavernas.
"Como bem sabem os mergulhadores, essa é uma disciplina muito diferente, com seus próprios desafios e riscos. Sobretudo nessa profundidade, muitas coisas poderiam ter dado errado", afirmou.
O instrutor Gianluca Benedetti foi o primeiro a ser encontrado. Seu corpo apareceu separado do grupo, perto da entrada da gruta Thinwana Kandu, a cerca de 60 metros de profundidade. Na sequência, especialistas da Finlândia localizaram "praticamente juntos" os demais mergulhadores dentro da terceira e última câmara da caverna.
Os corpos foram encontrados com o uso de sistemas técnicos avançados, como rebreathers de circuito fechado, equipamentos projetados para reciclar o gás respirável.
Durante uma das operações de recuperação, o resgatista Marhum Muhammad Mahdi morreu no mesmo local, fato que deixou ainda mais claro os grandes riscos do mergulho profundo.
Shareef informou que a intenção é recuperar, entre terça (19) e quarta-feira (20), os corpos de Monica Montefalcone, de 51 anos, professora de Ecologia da Universidade de Gênova e reconhecida especialista em expedições submarinas; sua filha, Giorgia Sommacal; além dos biólogos Muriel Oddenino e Federico Gualtieri.
Intoxicação por oxigênio
"Teoricamente, a toxicidade por oxigênio começa a se manifestar com ar comprimido a cerca de 55 metros. Isso é muito arriscado e muito perigoso. Nunca se sabe quando a toxicidade por oxigênio vai afetar você", advertiu Shafraz Naeem, que já investigou o sistema de cavernas de Devana Kandu mais de 30 vezes, com autorização para exploração profunda. Atualmente, Naeem atua como consultor da polícia e das forças de defesa do país.
Ele explicou que, como o acesso à caverna fica a cerca de 55 metros de profundidade, a luz solar ilumina apenas a câmara inicial, deixando o restante em completa escuridão.
Outros especialistas também apontam que a pressão do ambiente aumenta conforme a descida, elevando a quantidade de oxigênio que entra nos pulmões e no sangue a cada inspiração, mesmo com o uso de ar normal.
A exposição prolongada ou excessiva a essas condições pode causar danos aos tecidos e superestimular o sistema nervoso central por toxicidade do oxigênio.
Embora ainda não se saiba se as fortes correntes fizeram o grupo atingir essas profundidades, especialistas explicam que, apesar de o ar comprimido padrão — 21% de oxigênio e 79% de nitrogênio — funcionar até esse limite, mergulhos mais profundos exigem misturas especializadas.
Para descer a 50 metros ou mais, recomenda-se levar ao menos dois cilindros com diferentes misturas de gases.
Hipóteses que contradizem as investigações
Contrariando as teorias, o ex-instrutor de mergulho de Muriel Oddenino, Riccardo Gambacorta, descartou a possibilidade de que a causa da morte dos italianos tenha sido intoxicação por oxigênio.
"É possível que tenha ocorrido um incidente inesperado debaixo d’água. Basicamente, eles não previram uma determinada situação", afirmou.
Carlo Sommacal, marido e pai de duas das cinco vítimas do acidente, também expressou perplexidade diante da tragédia.
"Algo aconteceu lá embaixo. Minha mulher é uma das melhores mergulhadoras do mundo", afirmou na sexta-feira (15) ao jornal La Repubblica, ao se referir à imersão fatal de Monica Montefalcone.
"Provavelmente, ela realizou 5 mil mergulhos. E sempre foi muito responsável. Jamais teria colocado em risco a vida da nossa filha nem a dos outros jovens", acrescentou. Segundo ele, se realmente havia um alerta amarelo na região, os mergulhadores teriam tomado mais precauções antes da imersão.
"Sinto muito, eu não estava lá e não sou especialista. Pelo que vejo e leio, nem mesmo os especialistas têm respostas definitivas; eles apenas formulam hipóteses, muitas delas", declarou à Reuters.
Embarcação sob investigação
Shareef informou que as autoridades suspenderam a embarcação usada pelos mergulhadores porque a legislação local exige uma licença específica de escola de mergulho para organizar esse tipo de expedição, algo que o barco não possuía.
No entanto, o operador do MV Duke of York, Abdul Muhsin Moosa, afirmou que sua embarcação estava autorizada a realizar mergulhos recreativos com limite de profundidade de até 30 metros.
Ele disse que está "compartilhando esses detalhes com o governo" e afirmou ainda que, ao embarcar, os mergulhadores foram avisados sobre o limite para o mergulho.