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'Mindichgate' ameaça entrega de armas: caso de corrupção compromete cálculos de Kiev

"A Ucrânia é necessária ao Ocidente como força de combate", afirmou o cientista político Vladimir Skachko à RT.
'Mindichgate' ameaça entrega de armas: caso de corrupção compromete cálculos de KievGettyimages.ru / picture alliance / Contributor // Sean Gallup / Staff // Redes sociais

A deputada da Rada Suprema Irina Guerashchenko alertou na segunda-feira (4) que o novo desdobramento do escândalo de corrupção "Mindichgate" ameaça as aquisições ucranianas de armamentos estrangeiros para as Forças Armadas.

"As aquisições para as Forças Armadas da Ucrânia estão em perigo após o escândalo de corrupção do governo. [...] O repercussão pública em torno das chamadas 'gravações de Mindich' mina a confiança na transparência das aquisições de defesa", escreveu em rede social.

Nesse contexto, a deputada assinala que a próxima reunião do comitê parlamentar de segurança nacional deve convocar um dos envolvidos no caso: o ex-ministro da Defesa e atual secretário do Conselho Nacional de Segurança e Defesa, Rustem Umerov.

Além disso, indica que o Parlamento pretende ouvir representantes da empresa Fire Point, também implicada no escândalo.

Novos capítulos no Mindichgate

Umerov e o empresário ucraniano-israelense Timur Mindich — descrito como um amigo próximo do líder do regime de Kiev, Vladimir Zelensky — discutiram o financiamento da produção de mísseis pela Fire Point, empresa da qual Mindich é considerado um dos beneficiários.

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Mindich também solicitou a Umerov que intermediasse o pagamento por coletes à prova de balas já produzidos por outra empresa, e o então ministro deu a entender que tentaria ajudar em ambos os assuntos.

O vazamento é mais um capítulo no escândalo deflagrado em novembro de 2025, quando a Agência Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) informou que havia detido cinco pessoas e identificado outros sete suspeitos em uma investigação sobre subornos de cerca de US$ 100 milhões (mais de meio bilhão de reais) no setor energético do país.

De acordo com o órgão, participantes de "uma organização criminosa de alto nível" tentaram "influenciar empresas estratégicas do setor público", incluindo a empresa estatal de energia atômica Energoatom.

Os contratantes da Energoatom, em tempos de conflito militar, foram obrigados a pagar comissões ilegais entre 10% e 15% sobre o valor dos contratos, sob ameaça de bloqueio de pagamentos e perda da condição de fornecedor.

O empresário Timur Mindich, conhecido como a "carteira" de Zelensky, teria orquestrado o esquema de corrupção.

  • Criada em 2015 a pedido dos parceiros ocidentais da Ucrânia e do Fundo Monetário Internacional, a NABU teria se tornado um obstáculo para o líder do regime de Kiev, que em julho de 2025 tentou desmantelá-la juntamente com outra instituição, a Procuradoria Especial Anticorrupção (SAP).

O "inacessível" Umerov

O depoimento de Umerov à comissão parlamentar temporária de investigação (VSK) que trabalha no caso era antecipado pelas autoridades da Ucrânia. O deputado Yaroslav Zhelezniak informou previamente a intenção de convocá-lo para depor na Rada.

Contudo, o Conselho de Segurança Nacional e Defesa indicou que Umerov não poderá comparecer por estar em viagem de trabalho no exterior.

"O secretário do SNBO não poderá participar da reunião da VSK, fato comunicado à comissão temporária de investigação por canais oficiais, uma vez que se encontra em viagem de trabalho no exterior", diz o comunicado da assessoria de imprensa do órgão, citado pela agência de notícias Interfax Ukraina.

Em uma etapa anterior do escândalo, em novembro do ano passado, um promotor da Procuradoria Anticorrupção Especializada (SAP) declarou que Mindich, envolvido em um caso de corrupção no setor energético, exercia influência criminosa sobre Umerov. No mesmo dia, Umerov viajou para Istambul em visita oficial e, posteriormente, para o Catar, afirmando que as suspeitas contra ele não tinham fundamento.

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"No cargo de ministro, eu me reunia regularmente com fabricantes e fornecedores de equipamentos e armamentos, além de lobistas", escreveu Umerov em novembro de 2025, em rede social. "Em particular, houve uma reunião com Timur Mindich, na qual se discutiu a questão dos coletes à prova de balas por contrato. Ao final, o contrato foi rescindido porque os produtos não cumpriam os requisitos e nenhum item foi entregue."

Pressão sobre a Ucrânia

Nesse cenário, a revista americana Foreign Policy, citando fontes próximas ao assunto, aponta que a Ucrânia necessita vitalmente de suprimentos de armamento do exterior, especialmente dos Estados Unidos.

"Às vezes, quando converso com autoridades [norte-americanas], elas veem a Ucrânia como um Estado que não seria capaz de sobreviver nem um ou dois dias sem ajuda internacional", afirmou uma das fontes.

Sem os Estados Unidos, as capacidades de Kiev são limitadas, embora a compra de armamento possa ser canalizada por meio de países da OTAN via programa PURL (sigla em inglês para "Lista de Requisitos Prioritários da Ucrânia"), uma iniciativa de aquisição de armas financiada por países europeus.

O programa tem sido freado pelas necessidades de armamento dos Estados Unidos no contexto de sua campanha contra o Irã, contudo. "Ainda não há muita certeza" sobre futuros pacotes PURL, afirmou outra fonte familiarizada com a situação.

A publicação sustenta que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ver o PURL como uma ferramenta de pressão sobre a Ucrânia.

"Ele mencionou repetidas vezes que a redução da ajuda à Ucrânia ocorre porque Kiev é 'difícil' e, segundo informações, teria ameaçado suspender o programa PURL, a menos que os europeus se unam aos Estados Unidos para se opor ao controle iraniano no estreito de Ormuz", aponta a revista.

"Eu vendo armamento. Nós vendemos para a União Europeia, para a OTAN, e eles transferem [para a Ucrânia]. Vou dizer assim: eles combatem", afirmou Trump em declarações à emissora americana Salem News Channel, acrescentando que a Ucrânia continua perdendo território.

A corrupção como instrumento político

O cientista político ucraniano Vladimir Skachko considera que escândalos de corrupção que envolvem autoridades ucranianas, incluindo o caso das "gravações de Mindich", dificilmente afetarão de forma significativa o volume e a natureza da ajuda militar a Kiev.

"Nenhum escândalo de corrupção impedirá o fornecimento de armas para Kiev, porque a Ucrânia é necessária ao Ocidente como força de combate. Por conseguinte, para que possa continuar lutando contra a Rússia, ela deve receber armamento", afirmou em declarações à RT.

Skachko sustenta que os escândalos podem ser usados para fins políticos, como para uma mudança de poder ou para reforçar o controle externo, e duvida que o controle sobre os fundos seja substancialmente endurecido. "Toda essa comoção em torno do 'Mindichgate' é apenas retórica política para dar aos acontecimentos uma aparência de caráter democrático e encobrir o que ocorre de fato: um armamento desenfreado e incontrolado do regime nazi com o objetivo de uma guerra contra a Rússia", enfatiza.

Na mesma linha, o pesquisador Dmitry Ofitserov-Belsky, do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia de Ciências da Rússia, afirma que o modelo atual de apoio ao regime de Kiev é, em grande parte, de caráter corrupto, de modo que as revelações não levarão ao abandono total do financiamento. Ele avalia que o conflito é útil e lucrativo para a Europa, que está se militarizando e se rearmando.

Skachko aponta ainda que aos "serviços especiais dos Estados Unidos ou de seus aliados", provavelmente, "convém manter sob controle a dirigência ucraniana por meio de escândalos de corrupção".

"O material comprometedor no mundo moderno é um instrumento de pressão ou de mudança de poder", sustenta. Nesse contexto, assegura que a "inacessibilidade" de Umerov é explicável. "Umerov é uma criatura do Pentágono [...] Ninguém tocará em Umerov até que os Estados Unidos deem o sinal", conclui.