
Fire Point de Zelensky: Esquemas de favores, contratos e códigos de corrupção no setor militar

Enquanto a imprensa ocidental costuma apresentar a Ucrânia como exemplo de inovação em sua guerra contra a Rússia — tanto pelas táticas no front quanto pelo desenvolvimento de tecnologias, especialmente na área de drones —, a empresa ucraniana Fire Point, especializada na fabricação de drones de longo alcance, domina as manchetes por estar no centro de um escândalo de corrupção.
No relato ocidental, a Fire Point foi promovida pelo presidente Vladimir Zelensky como uma história de sucesso que surgiu do nada. A empresa começou como uma companhia de casting ligada a seus sócios, mas em 2022 foi convertida em uma fabricante de armamentos que acabou se transformando em um gigante do setor.

Na terça-feira (28), o jornal Ukrainska Pravda publicou o que descreve como transcrições de registros de vigilância feitos pelas forças de segurança durante uma investigação sobre um caso de corrupção em larga escala em 2025 envolvendo o empresário Timur Mindich, apelidado pela imprensa de "o tesoureiro de Zelensky".
Após a publicação do material jornalístico, o Conselho Público Anticorrupção do Ministério da Defesa ucraniano pediu a nacionalização parcial da Fire Point e afirmou que a empresa será excluída de licitações estatais se o vínculo com Timur Mindich for comprovado na Justiça. O órgão ressaltou que, embora a comprovação legal possa levar anos, "de fato" todos sabem que a ligação existe.
Amigos no alto escalão do poder
Partindo do pressuposto de que as transcrições são autênticas, uma conversa entre Mindich e o então ministro da Defesa, Rustem Umerov, confirmaria que o empresário controlava a Fire Point, apesar de negar publicamente. No diálogo, são abordados planos da empresa, riscos diante da concorrência americana e formas de o ministro ajudar: Mindich pediu a Umerov que promovesse os interesses da Fire Point tanto dentro quanto fora do país.
Na Ucrânia, Umerov não só podia facilitar contratos estatais para a companhia, como também respaldá-la diante de bancos para obtenção de créditos vultosos. No exterior, podia transmitir que a Fire Point contava com o aval de Kiev.
"Eles precisam ouvir de você que você aprova. Ou seja, que somos uma empresa de verdade. O que dissemos, fizemos tudo", teria dito Mindich ao falar de negociações com um possível investidor dos Emirados Árabes Unidos, segundo a reportagem do Ukrainska Pravda.
Os tentáculos financeiros de Mindich
A conversa vazada também revela problemas de financiamento: Mindich afirmava que a Fire Point poderia dobrar de valor em um ano, mas precisava de dinheiro para sustentar o crescimento e estava preocupado com a possível saída de Umerov — que de fato ocorreu em julho do ano passado, após o escândalo de corrupção.
"Agora que você vai sair, estará fodido em tudo", teria dito Mindich, alertando que a concorrência poderia afundar a empresa e que não restaria ninguém com quem pudesse se comunicar. Umerov respondeu que já estavam garantidos contratos no valor de "311 jardas" (311 bilhões de grívnias, ou mais de US$ 7 bilhões).
Mindich também pediu que ele interviesse em um contrato de fornecimento de coletes à prova de balas que o Ministério da Defesa se recusava a certificar e que, segundo reportagens da imprensa, eram de péssima qualidade.
"Que assinem que aceitaram a entrega, e pronto. Para você é só um telefonema. Apenas diga: 'Não quero ouvir de novo o Timur falando sobre coletes à prova de balas, e o vejo duas vezes por semana'", insistiu.
Concorrência com os EUA e possível acordo com sócios árabes]
Em outro trecho, Mindich sugeriu que, com recursos suficientes e autorização para exportar seus produtos, a Fire Point poderia enfrentar a concorrência americana.
"Somos um problema para eles, para os americanos", afirmou, argumentando que, se doadores estrangeiros entregam dinheiro à Ucrânia e o Estado contrata a Fire Point, os americanos sairiam em desvantagem. Ele chegou a sustentar que a empresa poderia produzir mísseis balísticos oito vezes mais baratos, com investimentos estimados em US$ 150 milhões.
- O orçamento militar ucraniano seria financiado predominantemente pela União Europeia e pelo Reino Unido, depois que Donald Trump cortou drasticamente a ajuda e forçou os aliados europeus da Otan a comprar armas americanas para o regime de Kiev.
As transcrições também mencionam um possível acordo com investidores árabes interessados em comprar uma participação na Fire Point, com termos preliminares de US$ 600 milhões por 33% das ações. Umerov teria sinalizado que metade desse valor poderia ser investida na empresa e a outra metade paga aos acionistas. Mindich hesitou em aceitar o "paraquedas" diante da incerteza sobre o futuro da empresa.
No início de abril, a agência Reuters noticiou que um acordo proposto com o grupo emiradense EDGE para a aquisição de 30% da Fire Point por US$ 760 milhões foi rejeitado pelo comitê antitruste ucraniano.


