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Mães que enfrentaram a ditadura argentina completam 49 anos de luta

O que começou com 14 mulheres na ditadura argentina virou símbolo mundial de resistência. Há quase cinco décadas, as Mães da Praça de Maio exigem respostas sobre seus filhos desaparecidos.
Mães que enfrentaram a ditadura argentina completam 49 anos de lutaGettyimages.ru / Robert Nickelsberg

Em 30 de abril de 1977, 49 anos atrás, 14 mulheres se reuniram pela primeira vez diante da Casa Rosada, em Buenos Aires, em plena ditadura, para exigir informações sobre filhos e filhas sequestrados. A iniciativa partiu de Azucena Villaflor, que disse às demais: "Individualmente não vamos conseguir nada".

O estado de sítio decretado pela ditadura proibia reuniões de mais de duas pessoas em locais públicos. Quando um policial ordenou que circulassem, elas deram os braços, duas a duas, e começaram a dar voltas ao redor da Pirâmide de Maio. Era o início de uma marcha que não parou mais.

As mães decidiram repetir o ato toda semana — mas não aos sábados, quando o centro estava vazio. Escolheram as quintas-feiras. Desde então, toda quinta-feira às 15h30, elas marcharam para saber o que aconteceu com seus filhos e filhas.

Em outubro de 1977, na peregrinação a Luján — único evento de massa permitido pela ditadura —, as mães usaram pela primeira vez o lenço branco na cabeça. Eram as fraldas de pano guardadas das crianças que haviam desaparecido, usadas para se reconhecerem na multidão. O acessório se tornou o símbolo do movimento.

A ditadura argentina tentou silenciá-las. Entre 8 e 10 de dezembro de 1977, Azucena Villaflor, Esther Ballestrino de Careaga e María Ponce de Bianco foram sequestradas. O agente Alfredo Astiz havia se infiltrado no grupo para viabilizar as prisões.

Levadas à Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA) — o maior centro de tortura do regime militar argentino —, elas foram jogadas vivas ao mar nos chamados "voos da morte". 

Em 2022, uma das mães da Praça de Maio discursou na antiga sede da ESMA. "Não fomos heroínas nem nada disso. Fizemos o que qualquer mãe faz por um filho", lembrou Taty Almeida, à época com 91 anos. Em seguida, complementou: "Nos chamaram de loucas e sim, estávamos loucas — de dor, de raiva, de impotência".