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Legado dos Capitães de Abril: Portugal celebra 52 anos da Revolução dos Cravos

O presidente António José Seguro discursou em sessão solene, enquanto as ruas de Lisboa foram ocupadas pela memória da revolta militar que abriu o caminho para a redemocratização do país sob o signo de uma flor.
Legado dos Capitães de Abril: Portugal celebra 52 anos da Revolução dos CravosGettyimages.ru / Jean-Claude FRANCOLON / Contributor

Portugal celebra neste sábado (25) os 52 anos da Revolução dos Cravos — que derrubou a ditadura do Estado Novo e encerrou quase cinco décadas de regime em Portugal —, marcando o primeiro discurso do presidente António José Seguro nas comemorações oficiais da data, conforme divulgado pelo portal EuroNews. 

Enquanto manifestações ocupavam as ruas da capital, Lisboa, Seguro chegou à cerimônia na Assembleia da República com um cravo vermelho na lapela e se dirigiu prioritariamente às gerações nascidas sob o regime democrático. O presidente português alertou a população para as ameaças do populismo, do pensamento totalitário e da desinformação disseminada pelas redes sociais.

"O perigo para a democracia não aparece como nos filmes, pode aparecer de forma subreptícia, por exemplo, sob a forma de um algoritmo", declarou.

Em tom convergente, o veterano Vasco Lourenço, capitão de Abril, lançou um apelo pela paz num mundo que caracterizou como crescentemente "instável e dominado por lógicas de força". 

Conclamando a experiência de alguém que participou da revolução que encerrou décadas de ditadura e guerra colonial, Lourenço defendeu que os conflitos raramente encontram solução pelas vias militares.

"Silêncio às armas. Fim às guerras", declarou o capitão, denunciando a ação de "falcões e vampiros" que fragilizam a memória popular com demagogias e substituíram o direito internacional pela "lei do mais forte".

A data também mobilizou expressões de memória que atravessaram o Atlântico: o clube carioca Vasco da Gama publicou nas redes sociais uma homenagem à revolução, associando os próprios valores fundadores — resistência, inclusão e voz popular — ao legado histórico que marcou o 25 de Abril em Portugal.

Os militares revolucionários

A Revolução dos Cravos, deflagrada na madrugada de 25 de abril de 1974 pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), derrubou o regime ditatorial do Estado Novo português, encerrando um período de quase cinco décadas que se prolongou desde 1926 sob Salazar e, a partir de 1968, sob Marcello Caetano.

O regime atravessava um crescente descontentamento interno, marcando por anos de repressão sob a farda da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), que mantinha a população sob angústia e vigilância constante.

Durante esse período, Portugal também arrastava o fardo de guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, obrigando sucessivas levas de jovens ao combate em territórios africanos sem perspectiva de desfecho político.

Foi justamente o desgaste dessas guerras e a falta de horizonte para encerrá-las que alimentou a conspiração no interior das próprias Forças Armadas. Em 1973, oficiais insatisfeitos fundaram o MFA, que planejou e executou o golpe.

A organização era composta majoritariamente por capitães, o que levou à denominação que ficou na história: os Capitães de Abril.

Segundo o historiador Rodrigo Pezzonia, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, o movimento poderia se assemelhar a golpes militares ocorridos na América Latina durante o mesmo período — como o golpe no Brasil em 1964, no Chile em 1973 e na Argentina em 1976, citando apenas alguns exemplos.

Sua peculiaridade, contudo, residia no fato de que a maioria desses oficiais eram vinculados à esquerda portuguesa, muitos deles próximos ao Partido Comunista Português e a outras correntes progressistas.

Entre os nomes que a data consagrou está o de Salgueiro Maia, que comandou as tropas no percurso decisivo entre o Terreiro do Paço, o principal centro de poder político do Estado Novo, e o Largo do Carmo, onde estava refugiado o presidente Marcello Caetano. Vasco Lourenço, que discursou nas celebrações deste sábado, é outro dos sobreviventes desta geração.

Desabrochar de uma nova Portugal

marcha em Lisboa despertou a população com transmissões de rádio do MFA, pedindo para que permanecessem em suas casas. A oportunidade, contudo, catapultou o povo da capital às ruas, que expressou a adesão popular à bandeira dos capitães revoltosos.

Sob a mobilização popular e militar, entre tanques e civis, o regime de Marcello Caetano capitulou em menos de 24 horas, passando o poder ao general António de Spínola, que negociou sua rendição. A passagem inaugurou o início da descolonização da África portuguesa e uma sequência de seis governos provisórios até 1976.

O nome do movimento nasceu de um gesto. Uma florista de Lisboa, de nome Celeste Caeiro, teria oferecido cravos vermelhos aos soldados, que os fixaram nos canos das armas como recusa à violência.

"Celeste dos Cravos" faleceu em novembro de 2024, sendo imortalizada pela Câmara Municipal de Lisboa em uma placa instalada na Rua do Carmo, local onde teria oferecido as flores aos capitães revolucionários.

Para o cientista político Samuel Huntington, o 25 de Abril inaugurou a chamada terceira vaga de democratização, que se propagaria pelo sul da Europa, pela América Latina e, décadas depois, pelo Leste europeu.

Mais de 90% do eleitorado compareceu às urnas nas eleições para a Assembleia Constituinte, em 25 de abril de 1975, marcando um ano da marcha dos capitães, o primeiro pleito livre da história de Portugal e a inauguração da Terceira República.