Lula diz que Brasil não repetirá com terras raras exploração do ouro por Portugal

Presidente defendeu que minerais críticos sejam processados no Brasil e condicionou a participação de empresas estrangeiras à industrialização no país.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não repetirá com as terras raras o modelo de exploração do ouro durante o período colonial e defendeu que minerais críticos sejam extraídos, processados e industrializados no país. A declaração ocorreu durante reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

"A gente não vai deixar acontecer o que aconteceu com o ouro, que foi tudo para Portugal pagar a dívida com a Inglaterra", declarou Lula, ao comparar a exploração colonial com os desafios atuais da indústria mineral brasileira.

"E para ele fazer a revolução industrial, e nós ficamos com os buracos aqui", acrescentou o presidente, ao criticar a exploração de recursos naturais brasileiros sem a geração de riqueza industrial no país.

Lula também criticou o modelo histórico de exportação de minério de ferro, argumentando que os municípios produtores nem sempre conseguem preservar os benefícios econômicos após o encerramento das atividades mineradoras.

"A gente não quer mais repetir o século do minério de ferro, em que é muito importante, a gente exporta bastante, mas vamos ser francos. O resultado produtivo nas cidades em que o mineral é explorado, quando a empresa vai embora, não é nada elogiável", afirmou.

Lula condiciona exploração de terras raras à industrialização no Brasil

O presidente destacou a criação do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), responsável por coordenar a política brasileira para o setor. O objetivo é ampliar a participação nacional nas etapas de extração, separação, processamento e industrialização dos minerais.

"A gente quer explorar, tirar da terra, fazer a separação, fazer a industrialização e fazer o processo aqui no Brasil", declarou Lula.

A estratégia busca evitar que o Brasil se limite à exportação de matérias-primas estratégicas. O processamento e a separação são etapas fundamentais para transformar os minerais extraídos em insumos de maior valor agregado, utilizados em cadeias industriais como as de equipamentos eletrônicos, motores e tecnologias energéticas.

Segundo Lula, empresas dos Estados Unidos, da China e da França poderão participar dos projetos, desde que atuem em parceria com empresas brasileiras e realizem o processamento dos minerais no território nacional.

"Pode ser americano, pode ser chinês, pode ser francês, venha quem quiser", afirmou. "Desde que queira participar junto com a empresa brasileira, desde que o processo de transformação seja feito aqui."

A posição acompanha a política de cooperação com empresas estrangeiras na área de minerais críticos, em meio à disputa internacional pelo acesso às matérias-primas e às tecnologias necessárias para seu beneficiamento.

Anteriormente, o CIMCE aprovou uma lista de 27 minerais críticos e estratégicos, colocando as terras raras entre os recursos de maior prioridade para o governo. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a classificação orientará mecanismos de financiamento, incentivos à industrialização e análise de investimentos no setor.

Lula também destacou o potencial das reservas brasileiras de terras raras e avaliou que o país poderá figurar entre os maiores detentores desses recursos no mundo, embora tenha reconhecido que o território nacional ainda não foi completamente mapeado.

"Nós seremos, possivelmente, depois da China, porque nós ainda não conhecemos tudo que nós temos, talvez a maior reserva", afirmou o presidente.

Ao defender que a riqueza mineral brasileira seja transformada em desenvolvimento econômico e industrial, Lula resumiu a posição do governo: "Nós não seremos exportadores de produtos in natura outra vez".