O Paraguai enfrenta uma crise política e social sem precedentes em sua história recente, desencadeada pela declaração de insolvência e posterior intervenção estatal no Ueno Bank, instituição financeira na qual estavam depositados os recursos de três milhões de paraguaios — cerca de 45% da população, incluindo milhares de aposentados.
De forma repentina, essas pessoas perderam o acesso a todos os serviços bancários, inclusive à possibilidade de sacar e movimentar seu próprio dinheiro.
Além de exigir a devolução imediata dos valores retidos, os manifestantes passaram a pedir a renúncia do presidente Santiago Peña, a quem responsabilizam pelo ocorrido.
Uma investigação jornalística publicada pelo veículo local ABC Color revelou que a Ueno Holding Saeca, empresa ligada ao Banco Ueno, pagou, pelo menos até março de 2026, a quantia astronômica de 30 bilhões de guaranis (cerca de US$ 4,95 bilhões) a uma empresa na qual Santiago Peña figurava como acionista.
Peña tentou conter a crescente indignação popular ao solicitar a renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai, que ocupava o cargo desde setembro de 2023, após ter atuado como ex-diretor da Financeira Ueno. Entre suas atribuições estava a supervisão das atividades financeiras de todos os bancos. Carvallo apresentou sua carta de renúncia no mesmo dia.
O presidente também se comprometeu a encaminhar rapidamente ao Legislativo uma proposta que permitisse a cada correntista recuperar seu dinheiro "o mais rápido possível".
"Com a aprovação desta lei, estaremos tomando uma medida concreta e eficaz para proteger 98% dos correntistas da instituição afetada", declarou na ocasião.
Escalada da crise política
Essas medidas não foram suficientes. Naquele mesmo dia, parlamentares da oposição e um grupo de dissidentes do Partido Colorado, ao qual pertence o presidente, exigiram a abertura de um processo de impeachment contra Peña.
As ruas foram tomadas por protestos e manifestações de indignação devido aos depósitos retidos. Houve confrontos violentos com a polícia, que recorreu a caminhões com jatos d'água e gás lacrimogêneo para dispersar a multidão, além de realizar detenções.
O Ministério Público incluiu Peña na lista de investigados pelo colapso do Ueno Bank após o registro de uma denúncia formal sobre o caso, conforme informou à imprensa o procurador-geral da República, Emiliano Rolón Fernández. As acusações estariam fundamentadas nos vínculos do chefe de Estado com o banco insolvente.
A situação se tornou insustentável quando a Câmara dos Deputados do Congresso aprovou por unanimidade a abertura de um processo de impeachment contra o presidente e encaminhou o procedimento ao Senado.
Nesse ínterim, Peña anunciou sua renúncia em um vídeo publicado em seu perfil no X.
"Tomei a decisão de renunciar à presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democrática. Faço isso com absoluto respeito à nossa Constituição Nacional e aos mecanismos institucionais e democráticos que estabelecemos como nação. [...]. Quero pedir desculpas ao povo. Se falhei em algum momento, nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim", diz a mensagem.
Renúncia rejeitada e impeachment em andamento
Após o anúncio da renúncia, o Senado convocou uma sessão extraordinária do plenário para decidir se aceitaria a saída de Peña ou se daria prosseguimento ao processo de impeachment.
O acalorado debate se estendeu por várias horas. Diversos parlamentares alegaram que a renúncia não foi apresentada em tempo hábil, uma vez que a Câmara dos Deputados já havia aprovado o impeachment.
Com base nesse argumento, os senadores afirmaram que o presidente tentou garantir a imunidade da qual teria direito ao ocupar uma cadeira de senador vitalício caso não tivesse sido alvo de um processo criminal.
Os parlamentares que defendiam a posição contrária argumentaram que, embora considerassem Peña responsável pelo ocorrido com o Ueno Bank, seria mais importante preservar a tranquilidade e oferecer respostas rápidas aos correntistas.
Enquanto isso, cada vez mais manifestantes se concentravam nas proximidades do Congresso, acrescentando a abertura do processo de impeachment às suas reivindicações.
No entanto, no momento da votação — quando a maioria dos presentes concordou em rejeitar a renúncia e dar início ao processo de impeachment —, constatou-se que não havia quórum, e a sessão foi encerrada sem que nenhuma decisão fosse tomada sobre o assunto.
A sessão foi retomada mais tarde e, após a apresentação das acusações pelos representantes da Câmara dos Deputados, ficou estabelecido que o presidente Santiago Peña deveria comparecer às 10h (horário local), para apresentar sua defesa.
O Senado do Paraguai rejeitou por 39 votos a 3 o pedido de Santiago Peña para adiar sua defesa por 72 horas no processo de impeachment, determinando que o presidente comparecesse imediatamente ou enviasse seu advogado.
Enquanto o processo estiver em andamento, Peña permanecerá no cargo, mas poderá perder sua imunidade, sendo submetido à Justiça comum. Nesse cenário, o atual vice-presidente Pedro Alliana assumiria o comando do país. Os deputados, por sua vez, descartaram a abertura de um processo de impeachment contra ele.
Peña publicou no X uma mensagem na qual garantiu que, "diante da continuidade do processo de impeachment", comparecerá e exercerá seu direito de defesa "com argumentos e provas, respeitando a Constituição e as instituições da República". No entanto, não esclareceu se estava no Paraguai.
"Colaborarei plenamente com as instituições competentes para que os fatos sejam esclarecidos, as responsabilidades sejam determinadas e aqueles que infringiram a lei respondam perante a Justiça. Fornecerei todas as informações que me forem solicitadas. A população merece conhecer a verdade, sem acobertamentos e sem que ninguém esteja acima da lei", diz a publicação.