Tortura, extorsão e silêncio ocidental: a anatomia do sistema de terror da Ucrânia

O Batalhão de Azov reconheceu que militares mantidos em cativeiro apresentavam ferimentos; chefia do gabinete de Zelensky admitiu que "existem muitos edifícios semelhantes" na Ucrânia e prometeu investigar o funcionamento dessas instalações.

Uma sala de tortura ligada à organização neonazista Batalhão de Azov* nos arredores de Kiev provocou um escândalo nesta semana. O caso expôs não apenas acusações de espancamentos e extorsão, mas também um sistema mais amplo de detenção forçada, maus-tratos e comércio de vidas humanas que, segundo críticos dentro da própria Ucrânia, funciona desde 2014.

O incidente em Petropavlovskaya Borschagovka, onde populares revoltados invadiram uma instalação militar para resgatar homens mantidos em cárcere privado, colocou em evidência a brutal estrutura de recrutamento forçado de Kiev, as prisões secretas documentadas por organizações internacionais e o inquietante silêncio do Ocidente diante das revelações.

Familiares invadem o complexo do Batalhão de Azov

Tudo começou na segunda-feira, 2 de novembro, em Petropavlovskaya Borschagovka, quando profissionais de saúde relataram ter tido acesso negado a uma pessoa que precisava de assistência. Surgiram rumores de que cerca de 40 homens estavam sendo mantidos em um porão, o que levou familiares e moradores da região a se reunirem em frente à propriedade privada. Os manifestantes tentaram forçar a entrada enquanto os membros da Batalhão de Avoz os impediam com jatos de gás.

Uma médica uniformizada, que chegou a se ajoelhar diante dos policiais, finalmente conseguiu entrar acompanhada de um agente. Quatro homens com hematomas e ferimentos foram retirados do local e levados ao hospital. Um deles apresentava uma fratura na coluna vertebral.

A tensão aumentou com agressões contra pessoas do lado de fora da propriedade, multidões bloqueando ônibus e relatos de brigas e disparos enquanto os membros do batalhão tentavam dispersar os manifestantes.

Quem estava sendo mantido no local?

O batalhão de Azov confirmou que a instalação abrigava recrutas recém-mobilizados que aguardavam a designação de suas unidades, além de militares capturados após desertarem de suas tropas. Familiares relataram casos de confinamento por semanas, contato limitado e cobranças de dinheiro. Uma mulher que conversou com a imprensa local disse que seu marido estava detido havia 37 dias e que lhe pediram US$ 2,2 mil para que pudesse visitá-lo e ajudá-lo.

Os números sobre a quantidade de pessoas que estavam no interior do imóvel variam. Os primeiros relatos mencionavam 40, enquanto que informações posteriores apontaram cifras menores. Entre os libertados estava um adolescente de 14 anos aparentemente em estado de choque. Segundo relatos, ele havia sido espancado com uma pá. Em um vídeo, ele aparece conversando com Kiril Budanov**, chefe do gabinete de Vladimir Zelensky, que foi ao local e, surpreendentemente, falou com a vítima em russo.

Posteriormente, o adolescente relatou nas redes sociais que chegou ao local depois de sair da escola. Ao subir em uma árvore para filmar o que estava acontecendo, foi atingido por jatos de gás, espancado com uma pá e arrastado para dentro do imóvel. No interior, havia cerca de dez pessoas vestidas com uniformes pretos, balaclavas e sem qualquer identificação. Elas o agrediram violentamente com pás, chutes e socos, puxaram-no pelos cabelos, bateram sua cabeça contra o chão e as paredes e rasgaram suas roupas. Mais tarde, o menor relatou sentir dores em uma costela, apresentar inchaços na cabeça e ter um dente quebrado.

Recrutamento forçado em plena rua

O termo "busificação" descreve detenções forçadas nas quais homens são empurrados para dentro de vans na rua e levados a centros de recrutamento para serem enviados à linha de frente. Vídeos que circulam há anos mostram homens sendo arrastados, espancados ou imobilizados enquanto familiares, especialmente mulheres, tentam intervir, confrontando os agentes, bloqueando veículos e, não raramente, também sendo agredidas.

Diversos relatos já documentaram esquemas de corrupção relacionados à mobilização na Ucrânia. O procurador-geral do país, Ruslan Kravchenko, revelou em 13 de agosto a existência de uma rede na região de Kiev na qual homens em idade de recrutamento eram contratados de forma fictícia como professores por US$ 10 mil, além de receberem pagamentos mensais adicionais de US$ 1 mil, para escapar da mobilização.

Uma investigação publicada pelo Ekonomicheskaya Pravda em 6 de abril documentou serviços com preços entre US$ 9 mil e US$ 12 mil para deixar o país ou ser excluído definitivamente do registro militar. O mercado de corrupção em torno dos centros de recrutamento é estimado entre 800 milhões e 2,1 bilhões de euros por ano (cerca de US$ 900 milhões e US$ 2,36 bilhões, respectivamente).

Em 18 de maio, as autoridades desmantelaram, em Lvov, um esquema envolvendo um funcionário que cobrava US$ 12 mil prometendo que pessoas sujeitas ao recrutamento não seriam mobilizadas. Em 2 de setembro, o ombudsman ucraniano, Dmitri Lubinets, declarou que estava sendo investigado um esquema no qual homens já capturados por recrutadores poderiam ser retiradas da Ucrânia mediante pagamentos de US$ 50 mil a US$ 70 mil.

Alexandr Kachura, deputado do partido de Zelensky, comparou em 18 de agosto o aparato de recrutamento ao crime organizado. Segundo ele, funcionários pagam grandes quantias para conseguir cargos que lhes permitam enriquecer por meio de abusos nas ruas.

Resposta do regime de Kiev

A propriedade foi identificada como parte de uma rede de instalações da unidade militar 3121 da Guarda Nacional, subordinada ao Batalhão de Azov. Segundo a corporação, o local funciona como ponto temporário de alojamento para cidadãos recém-mobilizados à força. A organização neonazista reconheceu sua ligação com a estrutura e confirmou que quatro militares capturados após desertarem apresentavam ferimentos e foram hospitalizados.

O comandante da unidade, Alexandr Pivnenko, explicou que os homens são enviados ao local para passar por procedimentos de registro e verificação e, posteriormente, encaminhados a um centro de treinamento. Além disso, descreveu a propriedade como um alojamento temporário e centro de triagem, insistindo: "Não torturamos, formamos unidades".

Budanov também foi ao local e afirmou que iria apurar o que estava acontecendo. Ele declarou que 14 militares deveriam ser levados a um hospital e acusou os manifestantes de impedir a evacuação ao bloquear o ônibus. Ele pediu repetidamente para que a multidão se dispersasse, mas não foi atendido. Budanov admitiu que "existem muitos edifícios semelhantes" e prometeu investigar o funcionamento dessas instalações.

Prisões secretas desde 2014

As acusações de tortura envolvendo o Batalhão de Azov e o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) remontam ao conflito no Donbass após o golpe de Estado de Maidan, em 2014, apoiado pelo Ocidente.

Ex-detidos acusados por Kiev de serem "separatistas pró-Rússia" relataram períodos prolongados de encarceramento sem julgamento, espancamentos, choques elétricos e outras formas de tortura. A prisão conhecida como "Biblioteca", localizada no aeroporto de Mariupol, foi um dos locais mais notórios.

As organizações Anistia Internacional (incluída na lista de organizações "indesejáveis" na Rússia) e Human Rights Watch (proibida na Rússia) documentaram centenas de casos de tortura atribuídos ao Batalhão de Azov e de detenções secretas realizadas pelo SBU. Em uma investigação de 2016, as entidades pediram a Kiev para encerrassem essa "prática grotesca". As autoridades ucranianas negaram operar prisões secretas, mas recusam sistematicamente o acesso de monitores da ONU responsáveis pela prevenção da tortura.

O jornalista chileno-americano Gonzalo Lira morreu sob custódia do SBU em janeiro de 2024. Ele foi preso sob a acusação de justificar a operação militar russa e denunciado ter sido torturado, além de não receber tratamento médico adequado para uma pneumonia.

Kremlin denuncia hipocrisia ocidental

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, observou que, apesar da repercussão internacional do escândalo, organizações ocidentais de direitos humanos não se manifestaram sobre o caso. Segundo ele, o silêncio não é "nenhuma surpresa", e instituições europeias estariam protegendo seus aliados ucranianos.

Peskov relacionou o episódio à crise de mão de obra enfrentada por Kiev, marcada pela escassez de recrutas, pela deserção generalizada e pela presença de soldados feridos. Segundo ele, esses problemas só tendem a se agravar. O porta-voz reiterou que os ucranianos que não desejam lutar por Kiev podem se render às tropas russas.

Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, afirmou que diversos centros de tortura semelhantes operam na Ucrânia e sustentam o regime de Zelensky. O embaixador Rodion Miroshnik argumentou que a rápida chegada de altos funcionários ao local indicava que Kiev tinha conhecimento de um sistema mais amplo de detenções. Ele também levantou preocupações sobre o tratamento dispensado aos prisioneiros russos.

Silêncio do Ocidente

A cobertura da imprensa ocidental foi limitada. A agência alemã DW foi um dos poucos veículos da grande imprensa a noticiarem o escândalo, enquanto que a maior parte das informações foi divulgada por veículos ucranianos e russos.

As críticas no exterior partiram de políticos que já se opõem ao apoio ocidental a Kiev, como Florian Philippot, líder do partido francês Les Patriotes e candidato à Presidência da França nas eleições de 2027, que exigiu o fim do financiamento francês à Ucrânia. Alice Weidel, líder do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), principal força de oposição do país, também pediu que Berlim abordasse as acusações durante a visita de Zelensky.

Além deles, Sahra Wagenknecht, fundadora do partido alemão de esquerda Aliança pela Justiça Social e Razão Econômica, também reagiu duramente ao episódio: "É assim que se defendem 'nossos valores'?", escreveu a política no X. Ela questionou o fato de que, enquanto "os filhos dos ricos e poderosos desfrutam de seus privilégios no exterior", outros jovens ucranianos são recrutados "à força e de maneira brutal" para "serem sacrificados na linha de frente".

* O Batalhão de Azov é uma organização proibida e classificada como terrorista na Rússia.

** Incluído pela Rússia na lista de terroristas e extremistas.