
Argélia aprova envio de tropas para país vizinho, e tudo para proteger um gasoduto

O Parlamento da Argélia aprovou o envio de tropas ao Níger para uma missão ligada, segundo as autoridades, à proteção dos interesses econômicos e estratégicos do país no Sahel (região que separa o deserto do Saara da savana africana), informou a AP.
O passo será o primeiro deslocamento de soldados argelinos ao exterior desde 1973. O número de militares e o local exato do destacamento não foram divulgados.

O senador Belkacem Boulghiti explicou que a missão está voltada à proteção de "interesses econômicos e estratégicos" da Argélia no Níger, em especial das instalações petrolíferas. "Não enviamos nossos soldados para travar uma guerra no Níger, mas para uma missão de assegurar a infraestrutura econômica", afirmou. "É simplesmente uma adaptação da nossa doutrina às circunstâncias mutáveis para que possamos estar à altura dos novos desafios impostos pela situação na região do Sahel".
Contexto do deslocamento
A decisão ocorre no momento em que a Sonatrach, estatal argelina e maior empresa da África, trabalha com o Níger no projeto do Gasoduto Transaariano, concebido para transportar gás natural da Nigéria, passando pelo Níger, até a Argélia, com destino final aos mercados europeus. A região é marcada por instabilidade, com a atuação de grupos armados vinculados à Al Qaeda* e ao Estado Islâmico** no Níger, no Mali e em Burkina Faso.
As relações entre Argélia e Níger passaram por tensão, mas vêm se recompondo. Em fevereiro, o presidente nigerino, Abdourahamane Tchiani, visitou Argel. Em agosto, após um motim de soldados, a Argélia expressou apoio ao Níger e enviou uma delegação acompanhada por quatro caças Sukhoi Su-30 de fabricação russa, um avião de transporte e uma cisterna, o que as autoridades nigerinas descreveram como "apoio estratégico".
Mudança de rumo
Como destaca a Al Jazeera, a medida representa uma mudança de rumo. Durante décadas, a Argélia evitou desdobrar forças além de suas fronteiras, em coerência com uma política externa centrada na soberania e na não intervenção. O país, porém, destinou mais de US$ 25 bilhões às forças armadas em 2025, a maior cifra da África, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI).
Em setembro, Argel rompeu relações com os Emirados Árabes Unidos, acusando-os de ações "hostis" e "provocadoras". O deslocamento aponta para uma dupla lógica: proteger interesses econômicos concretos e reforçar a presença argelina em um Sahel cuja arquitetura de segurança muda rapidamente.
*Reconhecido como grupo terrorista na Rússia e proibido em seu território.
**Também classificada como organização terrorista no território da Rússia e proibida no país.

