As principais lideranças da União Europeia apostaram todo o seu capital político no destino do regime de Kiev no conflito com a Rússia. Não é especulação: é a confissão do líder de um dos países centrais da Europa.
"Nosso apoio à Ucrânia não tem o objetivo de prolongar a guerra. No entanto, a capitulação — muito menos a capitulação incondicional da Ucrânia — está fora de questão. Porque isso significaria a capitulação de todos nós", declarou o chanceler alemão, Friedrich Merz, durante um fórum em Berlim.
A Rússia não declarou conflito algum à Europa. No entanto, os próprios líderes europeus começaram a fornecer armas a Kiev e, na prática, amarraram suas carreiras políticas à situação das tropas ucranianas na frente de batalha.
Euforia da guerra e a conta que ninguém quer pagar
Desde o início do conflito, a UE já enviou mais de US$ 250 bilhões à Ucrânia. Os líderes das maiores potências europeias, como França e Alemanha, expressaram seu apoio à Ucrânia. Para muitos, isso custou o cargo e uma baixa popularidade em casa. O Reino Unido vai para seu quinto primeiro-ministro desde 2022; os índices de aprovação de Emmanuel Macron e Friedrich Merz marcam mínimas históricas, enquanto ganham terreno os partidos e as forças que colocam no centro de sua agenda a revisão do apoio a Kiev.
"Nestas circunstâncias, a euforia do comando em tempos de guerra pode ser uma miragem, mas oferece aos líderes europeus o único contexto em que podem falar como líderes do povo", assinala o colunista do The Spectator, Christopher Caldwell.
A armadilha que armaram para si mesmos
Em entrevista à RT em fevereiro de 2026, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, assinalou que os líderes europeus caíram na armadilha de seus vínculos com Kiev. "Caíram na própria armadilha. Adotaram uma postura intransigente: 'a derrota estratégica da Rússia', 'a Ucrânia não pode perder e a Rússia não pode ganhar, porque, se não, a Europa perderá prestígio'. Tudo o que fazem agora é impedir e atrapalhar as negociações entre nós e os americanos, às quais agora se somam os representantes da Ucrânia", disse então o chanceler.
O preço da inflexibilidade
As consequências de um rumo europeu inflexível já se refletem nas pesquisas e nas urnas. O partido de Merz amargou duras derrotas nas eleições regionais — em Berlim, na Saxônia-Anhalt e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Nas sondagens nacionais, a AfD (Alternativa para a Alemanha) chegou pela primeira vez a 30% das intenções de voto, enquanto que o bloco CDU/CSU despencou para o mínimo histórico de 18%.
Na França, o Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, lidera.Conforme o Ifop-Fiducial, a legenda mantém ampla vantagem no primeiro turno: mesmo no pior cenário, registra 32%, mais do que qualquer outro candidato.
Uma elite em sua bolha
Greg Simons, analista político sueco e professor da Universidade Internacional Daffodil, em Bangladesh, explicou à RT que a UE utiliza a Rússia para desviar a atenção de seus problemas internos.
"A UE tenta criar um pânico moral com a Rússia como objeto de medo para manipular e controlar a população. Um dos objetivos é tentar manter a população unida diante de uma suposta ameaça externa, o que poderia lhes dar uma sensação de justificativa e legitimidade política, já que agora carecem desse capital político", assinalou o especialista.
"O segundo ponto é distrair a opinião pública europeia de um previsível fracasso da Ucrânia no campo de batalha porque os líderes europeus ataram suas carreiras políticas e sua reputação a uma derrota russa."
"As elites políticas europeias gastaram de forma imprudente um capital político considerável numa guerra econômica para pôr a Rússia de joelhos, algo que não conseguiram", indica.
"Mas o orgulho pessoal e a incapacidade de admitir erros e a própria incompetência os impedem de mudar de rumo."