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O continente mais populoso do mundo encontra no Ártico russo uma alternativa energética

Em meio aos bloqueios e às perturbações no estreito de Ormuz e no mar Vermelho, os embarques de petróleo russo pelo Ártico cresceram cerca de 50%.
O continente mais populoso do mundo encontra no Ártico russo uma alternativa energéticaGettyimages.ru / KadnikovValeri

As exportações de petróleo russo pela Rota Marítima do Norte dispararam neste ano, reforçando o papel do corredor ártico como alternativa de abastecimento para a Ásia enquanto as tensões nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb afetam as rotas tradicionais de transporte de energia, de acordo uma análise publicada pelo portal Oil Price.

Os embarques de petróleo bruto russo pela Rota Marítima do Norte aumentaram cerca de 50% em 2026 em relação ao ano anterior, alcançando 20 milhões de barris entre julho e meados de outubro, período em que a extensão do gelo marinho no Ártico atinge seu mínimo anual.

Ao mesmo tempo, operadores do mercado esperam que o volume aumente de 5 a 10 milhões de barris antes do fim da atual da temporada de navegação. Para efeito de comparação, o portal lembra que, na temporada anterior, a Rússia havia exportado cerca de 13 milhões de barris por essa rota.

A análise destaca que a Rússia também ampliou os embarques de gás natural liquefeito (GNL) pela mesma via paralelamente ao aumento do fluxo de petróleo bruto destinado à Ásia.

Por que a rota se tornou tão importante?

A crescente importância da Rota Marítima do Norte não se explica apenas pelo aumento dos volumes transportados, mas também pelas perturbações em rotas tradicionais, como as do canal de Suez, do estreito de Ormuz e do mar Negro.

Embora o corredor ártico continue sendo mais caro e operacionalmente complexo, o trajeto é consideravelmente mais curto do que a rota pelo canal de Suez.

A análise explica que a navegação pelo Ártico permite reduzir em até 2 semanas o tempo de viagem até mercados como China e Índia, uma vantagem especialmente importante em um momento em que os custos do frete dispararam enquanto os superpetroleiros enfrentam gargalos e atrasos.

Por outro lado, o crescente interesse pela rota também está relacionado à expansão dos grandes projetos energéticos russos no norte do país. Iniciativas como o megaprojeto Vostok Oil e a ampliação das operações de GNL no Ártico estão aumentando os volumes enviados diretamente para as cadeias de abastecimento asiáticas.

Em particular, só a gigante energética russa Gazprom Neft prevê aumentar em 35% seus embarques pela Rota Marítima do Norte neste ano em comparação com 2025, informa a TASS.

Já o presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que o país espera elevar o tráfego anual de cargas pela rota para 70 milhões de toneladas até 2030.

Nos últimos dias, até mesmo a União Europeia passou a reconhecer a importância estratégica do Ártico: Bruxelas acaba de endurecer sua estratégia para a região com o objetivo de conter o avanço da Rússia e da China na Rota Marítima do Norte.

No entanto, o bloco europeu entra nessa disputa em uma posição mais frágil, com presença territorial limitada no Extremo Norte e muito atrás de Moscou e Pequim em capacidades essenciais, como a frota de quebra-gelos.

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Os compradores asiáticos

Em relação aos destinos das exportações, a China continua recebendo grandes volumes de petróleo bruto russo por uma combinação de rotas terrestres e marítimas: cerca de 1 milhão de barris por dia chega por meio de infraestrutura terrestre principalmente pelo oleoduto Sibéria Oriental — Oceano Pacífico (ESPO, na sigla em inglês) e por seu ramal Skovorodino — Mohe.

No transporte marítimo, a maior parte do petróleo russo destinado ao mercado chinês sai dos portos do Extremo Oriente da Rússia, especialmente do porto de Kozmino. O texto informa que, nos últimos meses, até 90% do petróleo bruto russo transportado por via marítima para a China saiu desses portos, e não de terminais europeus.

No caso da Índia, o abastecimento depende de uma rede marítima muito mais ampla. Após as perturbações nas rotas energéticas do Oriente Médio, Nova Délhi redirecionou rapidamente sua matriz de importações para canais alternativos e acabou consolidando a Rússia como seu principal fornecedor de petróleo bruto.

Rússia amplia sua presença na Ásia

Além da China e da Índia, Moscou reforçou neste ano seu papel como fornecedor de energia para os países do Sudeste Asiático.

Isso é especialmente relevante quando se considera que, antes do conflito, o Oriente Médio fornecia cerca de 60% do petróleo bruto importado pela região e aproximadamente um terço do gás, segundo a IEA.

Nesse cenário, governos como os da Indonésia, das Filipinas e do Vietnã se apressaram em garantir novos fornecimentos de petróleo bruto russo. Para Manila, trata-se da primeira compra desse tipo em 5 anos.

"A realidade é que, neste momento, o Sudeste Asiático está em uma posição estrategicamente favorável à participação da Rússia. A região foi particularmente afetada pela crise energética mundial desde que [o presidente dos EUA, Donald] Trump iniciou sua guerra contra o Irã e Teerã respondeu fechando o estreito de Ormuz", explicou Derek Grossman,professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade do Sul da Califórnia, de acordo com a publicação Responsible Statecraft.

"O governo Trump criou as condições que permitem ao Kremlin se apresentar como um parceiro útil e disposto a atender às necessidades da região", concluiu o especialista.