O Bolsonarismo é um movimento a longo prazo no Brasil?

Com Flávio Bolsonaro na disputa presidencial e quatro integrantes da família eleitos para o Congresso, o movimento amplia sua presença institucional e levanta uma questão sobre seu futuro para além de Jair Bolsonaro.

O bolsonarismo atravessa um novo momento na política brasileira. O movimento que levou Jair Bolsonaro à Presidência em 2018 e permaneceu relevante mesmo após sua derrota eleitoral em 2022 chega ao segundo turno das eleições de 2026 com um novo candidato ao Palácio do Planalto, maior presença no Congresso Nacional e uma base política que já não depende exclusivamente da atuação direta do ex-presidente.

A votação de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno presidencial oferece uma dimensão desse processo. O senador recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O desempenho levanta uma questão que ultrapassa a disputa entre os dois candidatos. Se o bolsonarismo está se consolidando como uma identidade política duradoura no Brasil ou se sua continuidade permanece condicionada à influência da família Bolsonaro.

Além de Bolsonaro

O fenômeno político começou a ganhar expressão nacional antes da vitória eleitoral de Jair, em 2018, em um ambiente marcado pela rejeição a partidos tradicionais e pelo crescimento de pautas conservadoras.

O antropólogo Ronaldo de Almeida, em estudo publicado na revista Novos Estudos Cebrap em 2019, identificou a articulação entre conservadorismo, segmentos evangélicos e a crise política brasileira como parte de uma transformação social mais ampla.

Nessa interpretação, a eleição de Bolsonaro representou a manifestação eleitoral de mudanças políticas e culturais que já estavam em curso. Isso ajuda a compreender por que parte de suas bandeiras continuou mobilizando eleitores mesmo depois que o ex-presidente deixou o poder e até mesmo foi preso por tentativa de golpe de Estado em 2023.

Questões como segurança pública, valores familiares, religião, combate à corrupção e oposição ao PT passaram a integrar um conjunto de referências compartilhadas por diferentes setores da direita brasileira.

O movimento, porém, não deve ser confundido com um bloco uniforme. Uma pesquisa publicada pelo cientista político João Feres Júnior, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na revista Opinião Pública em 2025, identificou diferentes perfis entre os eleitores de Bolsonaro em 2022, com combinações distintas de posições econômicas, valores morais e preferências políticas.

Essa diversidade revela um dos principais desafios de qualquer projeto de continuidade: manter unidos grupos que compartilham determinadas bandeiras, mas não necessariamente concordam sobre todas as prioridades políticas e econômicas.

Fidelidade eleitoral

Outro estudo publicado em 2026 na revista científica Journal of Politics in Latin America encontrou evidências de uma consolidação do apoio conservador em torno de Bolsonaro.

Os pesquisadores identificaram uma taxa de retenção eleitoral de 91,9% em 2022, superior à observada entre eleitores de candidatos anteriores da direita brasileira, cujos índices variavam de 62,6% a 75,5%.

O resultado sugere que o vínculo entre o eleitorado e o bolsonarismo não pode ser explicado apenas por circunstâncias eleitorais passageiras. A permanência de preferências políticas, avaliações pessoais e posições sobre temas sociais compõe uma identificação que pode resistir à alternância de governos.

Isso não significa, entretanto, que todos os eleitores de candidatos bolsonaristas compartilhem uma mesma identidade. Parte desse apoio também pode refletir a rejeição ao adversário, circunstâncias econômicas ou alianças políticas específicas.

Poder no Congresso

A eleição de 2026 acrescentou uma dimensão institucional ao fenômeno. Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro conquistaram cadeiras no Senado, enquanto Jair Renan e Renato Bolsonaro foram eleitos deputados federais.

A presença de quatro integrantes da família no Congresso amplia a atuação política do grupo para além das campanhas presidenciais e cria novos espaços de influência sobre debates legislativos, negociações partidárias e agendas públicas.

O Partido Liberal, principal legenda associada ao bolsonarismo, também ampliou sua representação. A sigla elegeu 19 senadores em outubro e, segundo projeção divulgada pelo Senado Federal, poderá iniciar 2027 com 28 das 81 cadeiras da Casa, a maior bancada partidária no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988.

O avanço demonstra que a presença institucional da direita ligada a Bolsonaro não se limita à disputa pelo Executivo. Mesmo sem controlar a Presidência, parlamentares e partidos podem influenciar projetos de lei, comissões, investigações e negociações com o governo federal.

Existe, contudo, uma distinção importante: nem todo parlamentar eleito pelo PL ou por partidos conservadores integra necessariamente o núcleo bolsonarista. A força do partido não representa, automaticamente, uma adesão irrestrita à liderança da família.

Uma nova geração

A ascensão de Flávio à condição de candidato presidencial introduz outra característica: a possibilidade de transferência de liderança entre gerações.

Jair Bolsonaro permanece como principal referência histórica do movimento, mas sua inelegibilidade e sua condenação judicial alteraram as condições de participação direta nas disputas eleitorais.

Nesse contexto, a candidatura de Flávio representa um teste da capacidade de mobilização do sobrenome Bolsonaro sem a presença do próprio ex-presidente nas urnas.

Ao mesmo tempo, as trajetórias de Michelle, Carlos e outros integrantes da família indicam a formação de diferentes centros de atuação política, com bases eleitorais e formas de comunicação próprias.

Essa configuração pode favorecer a continuidade do grupo, mas também levanta questões sobre sua organização interna. Movimentos fortemente associados a uma liderança pessoal precisam enfrentar disputas por protagonismo, diferenças de estratégia e o desafio de renovar suas propostas.

Os limites da expansão

A consolidação eleitoral e legislativa não elimina os obstáculos enfrentados pelo bolsonarismo.

Uma das principais questões é sua capacidade de ampliar o apoio para além do eleitorado já identificado com o movimento. A manutenção de uma base fiel é politicamente relevante, mas a construção de maiorias nacionais depende também da relação com setores menos ideologicamente comprometidos.

Outro desafio envolve a convivência entre diferentes segmentos conservadores, liberais e religiosos. Embora possam convergir em temas como segurança pública e oposição ao PT, esses grupos apresentam prioridades distintas sobre o papel do Estado, políticas econômicas e costumes.

Há ainda a relação com as instituições democráticas. A condenação de Jair Bolsonaro por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado integra o contexto político e judicial que acompanha o movimento e influencia as disputas sobre sua identidade e seus rumos.

Assim, o desempenho eleitoral de seus representantes constitui uma medida de força política, mas não resolve, por si só, questões sobre coesão interna, capacidade administrativa ou continuidade geracional.

Depois de 2026

O segundo turno presidencial  será um novo teste eleitoral para o grupo, mas não oferece, isoladamente, uma resposta definitiva sobre seu futuro.

A permanência de uma corrente política pode ser observada por diferentes indicadores: fidelidade de seus eleitores, renovação de lideranças, inserção em partidos, presença territorial, influência no debate público e capacidade de formular propostas que ultrapassem uma candidatura específica.

Os resultados de 2026 mostram que o bolsonarismo conserva uma expressão eleitoral relevante e ampliou sua representação institucional. As pesquisas acadêmicas também oferecem evidências de que sua base reúne vínculos políticos que não se reduzem a uma única eleição.

A questão de longo prazo é se essas características serão suficientes para transformar um movimento organizado em torno de Jair Bolsonaro em uma corrente política capaz de preservar sua identidade, administrar divergências e renovar suas lideranças.

O futuro do bolsonarismo dependerá não apenas dos resultados nas urnas, mas da forma como seus representantes enfrentarão essas tensões nos próximos ciclos políticos.