Eleições no Brasil: o que está em jogo para a Rússia e o BRICS e o que pode mudar após o 2º turno

Bolsonaro e Lula farão uma batalha acirrada para mobilizar os eleitores indecisos. Analistas avaliam os impactos de uma eventual vitória da direita.

O primeiro turno da eleição presidencial brasileira, realizado no domingo (4), terminou com Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

O segundo turno está marcado para 25 de outubro. Ao longo das próximas semanas, Bolsonaro e Lula enfrentarão uma acirrada batalha para mobilizar os eleitores indecisos. Enquanto isso, analistas avaliam os impactos de uma eventual vitória da direita e como podem mudar as relações do Brasil com a Rússia.

"As chances ainda são muito incertas"

Boris Martynov, professor do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO) afirmou na segunda-feira (5) que "as chances de vitória de ambos os candidatos ainda são muito incertas".

"Qual será o quadro final, é difícil dizer agora, porque há muitos partidos pequenos que podem dar seus votos a um ou a outro. Tudo se decidirá no dia 25", afirmou.

Sobre uma vitória de Flávio, o especialista traçou paralelo com o pai:

"Eu me atenho à analogia com a presidência do pai de Flávio, Jair Bolsonaro. Ele permitiu um esfriamento das relações no início, houve até conversas de saída do BRICS, mas depois tudo terminou de forma normal. Por isso, quero acreditar que seu filho, que por enquanto na campanha eleitoral se apresenta com slogans muito radicais, caia na real sob a pressão de algumas forças dentro do país".

Martynov destacou que Flávio é "trumpista" e apoia Trump "até debaixo d'água", mas ressaltou que a política em relação à Ucrânia não mudará radicalmente.

"O Brasil se beneficia da cooperação com a Rússia"

Professora do MGIMO Lyudmila Okuneva foi categórica: independentemente de quem vença, o Brasil não romperá com a Rússia.

Segundo a professora, "o Brasil se beneficia da cooperação com a Rússia" e não abandonará o comércio com Moscou nem a cooperação em energia nuclear.

Okuneva afirmou que o país continuará comprando fertilizantes russos, diesel e manterá cooperação em energia atômica e espaço.

A professora observou ainda que, em caso de vitória de Flávio, o Brasil ficará sujeito à pressão dos EUA, mas as "considerações pragmáticas, naturalmente, prevalecerão sobre qualquer ideologia ou preferência política."

Viktor Heifetz, professor da Universidade Estatal de São Petersburgo, também acha que na esfera econômica nada mudará na relação entre o Brasil e a Rússia.

"O Brasil compra 26% dos fertilizantes minerais da Rússia e continuará comprando. Não tem de onde tirar. Isso é crucial para o agronegócio, que responde por 45% da receita de exportação", explicou.

"O cenário brasileiro reproduz o americano com Trump"

Em artigo publicado nesta terça-feira (6), Fyodor Lukyanov, editor-chefe da revista Russia in Global Affairs, analisa as consequências geopolíticas mais amplas do pleito brasileiro.

"Com ajustes locais, o cenário brasileiro reproduz o americano com Trump. Depois de uma presidência nervosa de Bolsonaro pai, voltou um representante da esquerda moderada, e tentaram 'prender' de vez o próprio ex-presidente. Nos EUA, Trump foi furiosamente difamado como inspirador de uma tentativa de golpe, mas não se chegou a um processo criminal contra ele pessoalmente. No Brasil, Jair Bolsonaro foi condenado, mas a tocha foi empunhada por seu filho. E agora a família retorna ao poder, prometendo acertar contas com aqueles que os ofenderam", escreveu.

Para ele, o país está dividido, com altíssima rejeição de ambos os candidatos.

O que acontecerá com o BRICS?

Ao mesmo tempo Lukyanov analisou o futuro do Brasil no BRICS caso Flávio Bolsonaro vença.

"Аgora, a primeira letra da sigla, para a qual a participação no bloco é tradicionalmente importante do ponto de vista do posicionamento e prestígio internacional, está passando para o controle de forças que são abertamente hostis à própria ideia"

Ele lembra que Jair Bolsonaro não saiu do bloco, mas reduziu a atividade.

"Caso Lula seja derrotado, a orientação pró-americana e trumpista do Brasil estará assegurada para o período vindouro. O ódio de Trump ao BRICS é notório — ele vê o bloco, com razão, como um protótipo de um mundo onde os Estados Unidos não detêm mais o monopólio", explica Lukyanov.

O especialista considera que o Brasil não necessariamente se retirará formalmente do BRICS, embora muito dependa do grau de pressão de Washington, mas uma paralisação das atividades é provável.

Já Viktor Heifetz, professor da Universidade Estatal de São Petersburgo, considera que Flávio Bolsonaro não sairá do BRICS. "Embora, sem dúvida, ele vá minimizar a participação política, deixando apenas a interação em questões economicamente importantes para o Brasil", afirmou.

Relações com a China

Heifetz lembra que a China é atualmente o principal parceiro comercial do Brasil, representando mais de 30% do volume de comércio do país sul-americano.

Jair Bolsonaro, quando era presidente, prometeu reduzir a participação da China na economia brasileira mas isso não chegou a acontecer, afirma o professor, acrescentando que as empresas brasileiras estão relutantes em fazer mudanças drásticas.

Ele alertou que, em caso de vitória de Flávio, a ideia de trocar a China pelos EUA como principal parceiro econômico "exigirá uma reforma radical e rápida de toda a economia brasileira e poderá levá-la ao colapso".